A coroa de espinhos de um rei-menino
Há 233 anos, no 3 de julho de 1793, nascia um príncipe que, ainda criança, teria a mesma sorte do Salvador: sendo rei, foi humilhado; inocente, torturado.

Foto: Wikipedia
Redação (02/07/2026 10:27, Gaudium Press) “Finis coronat opus” – “O fim coroa a obra”. Ora, acontece que a principal obra do homem é ele mesmo; de maneira que a coroa final e verdadeira que o cingirá será a morte. Pode parecer um paradoxo, mas a morte é a coroa do homem.
Assim, o ápice de uma vida não será um “happy end” terreno. Como uma estrela manifesta toda a sua luz ao morrer, é no sacrifício derradeiro que nasce a glória.
O Calvário de um rei-menino
Foi o que aconteceu com o pequeno Luís XVII, herdeiro da coroa francesa. A ele Deus não reservara o régio diadema dos seus antecessores, mas sim um semelhante ao de seu próprio Divino Filho: um diadema de espinhos.
Odiado e perseguido por, ainda criança e órfão, pretender ao trono da França, Luís XVII tornou-se um verdadeiro mártir inocente, vítima daqueles que, incomodados pelos esplendores da luz cristã, quiseram apagá-la e, se possível, sepultar até a sua lembrança.
Preso em nome da liberdade
É noite no 3 de julho de 1793 quando seis comissários do governo irrompem subitamente na sala onde se encontram a rainha Maria Antonieta, os dois infantes reais e a irmã do guilhotinado Luís XVI, Madame Élisabeth. Leem, então, o mandato que determina a separação do pequeno Luís XVII, de apenas oito anos, de sua mãe.
Por uma hora a rainha suplica, implora e o defende até cansar os comissários. Fartos dessa cena, ameaçam despedaçar os seus filhos diante dela. Vendo-se obrigada a ceder, Maria Antonieta estreita seu filho pela última vez, entre lágrimas, e o entrega ao seu inevitável fado.
Um carcereiro pior que o cárcere
O menino, o Delfim como o chamavam, é transferido para o seu novo aposento, o mesmo em que seu pai passara seus últimos meses de vida antes de ser executado. Além de uma nova cela, o pequeno prisioneiro ganha também um carcereiro: o sapateiro Simão, escolhido pela para ser o seu guardião.
Com efeito, para tal função, os jacobinos, os da ala mais radical da Revolução Francesa, não buscaram uma pessoa instruída, mas alguém tão submisso quanto inescrupuloso, capaz de desempenhar essa malévola tarefa: sujar a mente régia com as indecentes calúnias aos valores da religião e da nobreza. Era, como se diria hoje, uma verdadeira “lavagem cerebral”.
O sapateiro deu azo ao sinistro empreendimento. A partir desse momento, as sombras e o mistério, próprias dos grandes crimes, envolveram o encarceramento de Luís XVII.
O duelo entre a nobreza e o crime
Nos primeiros dias, Simão nada logrou, pois o pequeno rei apenas chorava, inconsolável pela separação da mãe. No entanto, nos dias subsequentes, compreendendo que a situação exigia uma mudança de atitude, Luís XVII assumiu a voz e postura próprias de um rei da Franca: aprontou-se sozinho – algo que nunca feita antes – e, em tom de autoridade verdadeira, exigiu, invectivando tanto a Simão quanto aos demais guardas, a explicação da injusta separação. Em resposta a tal atitude, recebeu uma cascata de impropérios do sapateiro que, sem embargo, não deixou de se espantar com a mudança de comportamento.
Dentre as primeiras manobras de Simão para transformar o pequeno rei num jacobino ferrenho, retirou-lhe o traje de luto que levava pela morte de seu pai.
Só a aparência não bastava, o objetivo do sapateiro era mudar o coração do Delfim. Para isso, utilizou-se de um vício por ele bem conhecido: a bebedeira. Através de refeições excessivamente temperadas, ao monarca sedento era proporcionado exclusivamente vinho para se saciar. Foi nesse lastimoso estado que induziram o inocente acusar a própria mãe das piores imoralidades. A ebriedade do régio prisioneiro está bem patente na deformidade da sua assinatura – normalmente tão correta – no documento da acusação.
Imaginara Simão que seria mais fácil transformar a alma de um príncipe. Surpreendido com a nobre resistência que Luís XVII lhe apresentava, recorreu a toda sorte de maus-tratos e injúrias na tentativa de o perverter. Se ao menos conseguisse arrancar daqueles lábios um “Vive la Republique!”, em algo se saciaria. Contudo, nem mesmo inebriado cederia o filho de Maria Antonieta.
Com efeito, a atitude de Luís XVII perante todos os escárnios recebidos sempre foi digna do sangue que levava, jamais respondeu com desaforo às brutalidades e mostrou-se agradecido até pelo menor benefício. Testemunha-o um médico que, chegando à prisão, salvou o príncipe da ira do carcereiro: o menino, sem outra coisa para oferecer como agradecimento, entregou ao visitante uma maçã por tê-lo protegido.
O próprio Simão comprovou a nobreza do coração que afligia. Quando perguntou ao prisioneiro o que faria caso a monarquia voltasse, este respondeu: “perdoar-vos-ia”.
Nas trevas do abandono
No dia 19 de janeiro de 1794, Simão se retirou para ocupar outros cargos, deixando Luís XVII aprisionado numa cela onde, qual ostra abandonada no fundo do mar da maldade humana, formou, no interior de sua alma, a pérola da fidelidade.
Rendido pelos sofrimentos, apenas tinha forças para tomar refeição e apresentar-se aos comissários quando convocado. Trancado dia e noite, sem luz nem aquecimento, Luís XVII via a porta de sua prisão abrir-se unicamente quando se dava a troca da guarda, mas por pouco tempo, pois os vermes, ratos e maus odores faziam os guardas fechá-la rapidamente. Pouco lhes importava a saúde do pequeno; bastava que o corpo estivesse ali.
A glória
Com a queda de Robespierre, o chefe revolucionário que mandara encancerar o Delfim, foi nomeado um novo carcereiro. Este, tendo encontrado o príncipe em um estado deplorável, procurou, ao que parece, salvá-lo de algum modo. Era tarde demais.
Segundo conclusões controvertidas dos historiadores – que, coitados, veem-se em apuros para alcançar uma verdade escondida entre tantos mistérios – Luís XVII viveu apenas mais um ano e meio, entregando o seu espírito em junho de 1795.
A Revolução sepultou o herdeiro da França numa fossa comum, procurando enterrar a sua memória. Mas foi em vão.
Não se contentando em portar a Cruz de Cristo na coroa, Luís a carregou aos ombros até o fim. Tornou-se assim um fogo de artificio: vítima de uma explosão de ódio a Deus, iluminou com sua luz a História inteira.
Luís XVII, tão pequeno de corpo, tão grande de alma, preso por ser rei, odiado por ser luz, morto por ser inocente, ficou imortalizado entre os gloriosos imitadores d’Aquele que também foi Rei, que também foi Inocente e que também foi Crucificado.
Por Mauricio Gabriel





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