Nicarágua: Ortega manda prender bispo de 80 anos que estava em uma clínica
A pesquisadora Martha Patricia Molina, autora de relatórios detalhados sobre a perseguição religiosa na Nicarágua, destaca que qualquer opinião crítica, mesmo óbvia, é vista como ofensa, e muitos sacerdotes sofrem assédio constante sem denunciar publicamente por medo de retaliações piores.

Dom Juan Abelardo Mata
Redação (30/06/2026 18:05, Gaudium Press) Dom Juan Abelardo Mata Guevara, bispo emérito de Estelí e figura respeitada na Igreja nicaraguense, foi detido pela polícia do regime de Daniel Ortega nesta segunda-feira, 29 de junho. O prelado, que acabara de completar 80 anos, passou várias horas sob custódia antes de ser liberado e retornar à sua residência em Tisma, no departamento de Masaya.
O incidente ocorreu um dia após ele presidir uma missa na Igreja La Cruz del Calvario, em Estelí. Durante a celebração, Dom Abelardo pediu orações pela Igreja perseguida no país, mencionando especialmente os sacerdotes exilados, o bispo Rolando Álvarez —hoje em Roma após mais de um ano preso— e o padre Frutos Constantino Valle Salmerón, idoso e restrito ao seminário local.
Detalhes da detenção
O bispo havia chegado a Estelí na quinta-feira anterior para um check-up médico de rotina, pois usa marcapasso. Enquanto estava em uma clínica local, agentes policiais o levaram para o Centro de Investigación del Complejo Policial Evaristo Vásquez Sánchez, conhecido como “El Nuevo Chipote”, sede da Direção de Auxílio Judicial. Ele foi liberado ainda no mesmo dia, mas permanece sob vigilância.
De acordo com relatos, Dom Mata teria restrições para celebrar missas em Estelí e viajar à diocese que pastoreou por décadas. A detenção reforça o padrão de assédio contra líderes eclesiais que manifestam solidariedade com as vítimas da repressão sandinista.
Contexto de uma Igreja sob pressão
A pesquisadora Martha Patricia Molina, autora de relatórios detalhados sobre a perseguição religiosa na Nicarágua, classificou o episódio como mais um exemplo da intolerância do regime: “O bispo emérito Monsenhor Juan Abelardo Mata tem sido um pastor próximo ao povo e que falou com a verdade sobre as ações que a ditadura sandinista não tolera”. Ela destaca que qualquer opinião crítica, mesmo óbvia, é vista como ofensa, e muitos sacerdotes sofrem assédio constante sem denunciar publicamente por medo de retaliações piores.
Desde 2018, especialmente após as manifestações populares reprimidas com violência, a Igreja Católica nicaraguense vive um dos períodos mais difíceis de sua história recente. Relatos apontam centenas de ataques a igrejas, paróquias fechadas, sacerdotes expulsos, desterrados ou presos, e um controle rigoroso sobre as atividades religiosas. Um sacerdote que falou anonimamente à imprensa em abril passado descreveu o cotidiano de vigilância: policiais fotografam celebrações dominicais, exigem relatórios de todo deslocamento e ameaçam com prisão ou exílio quem menciona problemas sociais nas homilias.
Monsenhor Rolando Álvarez, ex-bispo de Matagalpa, tornou-se um dos símbolos mais fortes dessa perseguição. Preso por mais de um ano, foi libertado e enviado ao Vaticano em 2024. O Pe. Frutos Valle, com mais de 80 anos, permanece confinado no seminário Nossa Senhora de Fátima, sem permissão para sair.
Reações dentro da Igreja
Do exílio em Miami, o bispo auxiliar de Manágua, Monsenhor Silvio Báez, manifestou indignação: “Indigna-me profundamente e reprovo de modo absoluto a agressão cometida pela polícia do regime contra meu irmão Monsenhor Juan Abelardo Mata. Essas ações covardes só demonstram a fraqueza e a irracionalidade de uma ditadura criminal”.
Dom Abelardo Mata tem histórico de coragem. Durante os protestos de 2018, atuou como mediador e defensor dos direitos humanos, o que lhe rendeu acusações infundadas do governo e até um atentado contra seu veículo.
Um alerta para a liberdade religiosa
O caso de Dom Abelardo Mata, um idoso com problemas de saúde detido enquanto recebia atendimento médico, ilustra a fragilidade das liberdades fundamentais na Nicarágua atual. Organizações internacionais de direitos humanos acompanham com preocupação o crescente autoritarismo contra a Igreja, uma das poucas instituições que ainda ousam levantar a voz em defesa dos mais vulneráveis.
Enquanto o regime mantém um controle férreo sobre a sociedade, a oração e a solidariedade de católicos ao redor do mundo se tornam ainda mais importantes.
Com informações Aciprensa





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