Papa Leão XIV encerra Consistório Extraordinário
O Pontífice traçou as linhas gerais do que deve ser o estilo eclesial no futuro.
Redação (28/06/2026 12:22, Gaudium Press) Ao final do Consistório Extraordinário realizado nos dias 26 e 27 de junho de 2026, o Papa Leão XIV dirigiu um significativo discurso aos membros do Colégio Cardinalício na Sala Nova do Sínodo. O Pontífice delineou as diretrizes para o estilo eclesial do futuro: uma Igreja que, unida, custodia o depósito da fé confiado por Cristo, aproxima-se das dores do mundo e se compromete firmemente com a construção da paz.
Solidariedade ao povo da Venezuela
Antes de iniciar sua reflexão teológico-pastoral, o Santo Padre expressou, em seu nome e de todo o Colégio Cardinalício, profunda proximidade com o povo venezuelano, duramente atingido por um violento terremoto.
“Desejo expressar a nossa solidariedade, minha e de todo o Colégio Cardinalício, à população da Venezuela, duramente atingida pelo violento terremoto dos últimos dias. Asseguramos a nossa oração pelas vítimas, por suas famílias e por todos aqueles que sofrem as consequências desta tragédia. Confiamos ao Senhor também todos aqueles que estão empenhados nos socorros e pedimos que não falte a solidariedade das comunidades internacionais para com essa querida Nação”, afirmou o Papa.
A sinodalidade como estilo espiritual
Tomando como ícones evangélicos o Bom Samaritano e os discípulos de Emaús, o Papa agradeceu a liberdade, a fraternidade e o espírito eclesial com que os cardeais trabalharam. Ele enfatizou que o verdadeiro sentido da sinodalidade não está em disputas de poder ou em “quem decide”, mas em “como guardar juntos o dom que o Senhor confiou à sua Igreja”.
Citando as contribuições do Cardeal Grech, Leão XIV recordou que a sinodalidade “não é um conjunto de reuniões, nem um método de trabalho. É um estilo espiritual. Nasce do encontro, cresce na escuta e amadurece no discernimento. A verdadeira questão não é quantas conversas conseguiremos organizar, mas qual será a qualidade evangélica dos nossos encontros. Quando nos ouvimos com humildade e liberdade, dando espaço ao Espírito, nossas conversas não se limitam a uma troca de ideias, mas se tornam um espaço de conversão, no qual crescemos juntos na fidelidade ao Senhor”.
Olhar para as feridas do mundo: jovens e famílias
O Papa valorizou o diagnóstico global feito pelos cardeais, que foi além da descrição de guerras e pobreza, identificando “sofrimento ainda mais profundo: a solidão, a crise nos relacionamentos, a perda da esperança, a dificuldade de reconhecer uns aos outros como irmãos e irmãs. É um olhar que não se desvia das feridas do mundo, mas busca suas raízes, reconhecendo, muitas vezes oculto nelas, um renovado desejo por sentido, autenticidade, espiritualidade e comunidade”.
Especialmente comovido com a situação dos jovens — cujas crises, por vezes, levam ao desespero extremo do suicídio —, o Santo Padre convidou a Igreja a reconhecer neles a ação do Espírito. “A busca deles por autenticidade, por relações verdadeiras e por sentido nos lembra que o Evangelho continua a atender às expectativas mais profundas do coração humano. Ouvir esses jovens e suas famílias com humildade é também um caminho pelo qual o Senhor continua a converter a Igreja”, sublinhou Leão XIV.
Sobre a família, ele ressaltou que, “quando ela é apoiada e acompanhada, surge uma escola de relacionamentos, de solidariedade e de esperança; quando é ferida ou isolada, toda a sociedade arca com as consequências”. O Papa adiantou que, em outubro, haverá um encontro com chefes de Igrejas orientais e presidentes de Conferências Episcopais para avaliar os passos dados após Amoris Laetitia, com a participação de famílias que compartilharão suas experiências.
Doutrina Social e não violência
O discurso abordou com firmeza o desafio da paz mundial. Leão XIV destacou que “a guerra surge dentro de nós, quando a suspeita substitui a confiança, o medo substitui a esperança e o outro é percebido como uma ameaça”. Porém, “de um coração reconciliado, podem nascer palavras desarmadas, novos relacionamentos e uma paz capaz de alcançar até os povos mais distantes”.
A resposta para a crise mundial “exige a reconstrução de uma cultura de cooperação e diálogo, capaz de dar novo fôlego também ao multilateralismo, para que os povos aprendam novamente a buscar juntos o bem comum de toda a família humana”. Em seguida, Leão XIV sublinhou que “a contribuição dos fiéis leigos engajados na vida pública é essencial: eles precisam da proximidade e do apoio da comunidade eclesial para viver a ‘caridade política’”.
Ele defendeu a resistência não violenta como uma “forma profundamente evangélica de habitar a história fruto da contemplação do modo de agir de Jesus. Não consiste na renúncia ao conflito nem em uma atitude passiva, mas em escolher enfrentá-lo sem reproduzir sua lógica. […] começa desarmando a si mesmo”.
Ele acolheu ainda a sugestão de aprofundar, com rigor teológico e pastoral, o conceito de “legítima defesa” diante das mudanças nos conflitos contemporâneos. Expressou o desejo de que a Doutrina Social da Igreja se torne patrimônio vivo das comunidades, formando consciências e discernimento pastoral.
“Enraizada em Cristo, a Igreja é chamada a preservar espaços de encontro, de escuta e de diálogo, nos quais possa amadurecer uma cultura renovada do bem comum. Isso exige também um trabalho educativo paciente, que ajude a reconhecer a dignidade inviolável de cada pessoa e a responsabilidade que nos une uns aos outros”, esclareceu Leão XIV.
Por fim, o Papa Leão XIV destacou “o significado mais autêntico do Consistório: a reunião do Colégio Cardinalício em torno do Sucessor de Pedro para que, na escuta mútua e no discernimento comum, o Espírito Santo ajude o Papa a guiar a Igreja. Não um parlamento, não um congresso em que prevalecem opiniões ou interesses, mas uma experiência de comunhão a serviço da missão”.
Leão XIV concluiu acolhendo um apelo unânime do Consistório e enviando-o a todos os bispos e povos da Terra:
“Digamos isso aos nossos irmãos bispos, às Igrejas confiadas ao nosso ministério e a todos os povos da terra: Deus deseja a paz para todas as nações e para todos os povos. Por isso, não devemos nos resignar à violência. A violência não terá a última palavra. Deus continua a abrir, ao longo da história, caminhos de reconciliação e de paz. Temos a responsabilidade de trilhá-los com coragem e de ajudar o mundo a reconhecê-los”.





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