2º Consistório Extraordinário convocado por Leão XIV: o que foi tratado até agora
O consistório extraordinário, que teve início na sexta-feira, 26 de junho, convocado por Leão XIV tem por objetivo de discutir, refletir e aprofundar, juntamente com os cardeais, temas atuais relativos à Igreja e ao mundo.
Foto: Vatican News/ Vatican Media
Redação (27/06/2026 07:17, Gaudium Press) Reunidos no Vaticano para o 2º Consistório Extraordinário convocado por Leão XIV, os cerca de 178 cardeais fizeram uma reflexão sobre a encíclica Magnifica Humanitas, com ênfase nos temas da guerra, da paz, da legítima defesa e da responsabilidade dos cristãos diante dos conflitos atuais.
Na tarde de sexta-feira (26 de junho), a Sala Paulo VI acolheu a segunda sessão do dia, dedicada ao tema “A cultura do poder e a civilização do amor”, a partir do quinto capítulo da encíclica de Leão XIV. A jornada começou com uma oração pela “dolorosa situação da Venezuela” e pelas vítimas do recente terremoto no país. A sessão foi moderada pelo Cardeal Pablo Virgilio Siongco David, que cedeu a palavra ao Cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, responsável pela conferência introdutória. O Papa Leão XIV esteve presente na abertura dos trabalhos e retornou ao final da tarde para a assembleia plenária, presidindo ele mesmo a oração conclusiva por volta das 19h30.
Em sua intervenção, o Cardeal Fernández defendeu que “a própria noção de guerra justa deve ser revista e aprimorada”, considerando que os critérios tradicionais dessa doutrina precisam ser relidos à luz dos conflitos contemporâneos. Ele defendeu ainda que “a noção de legítima autodefesa deve ser melhor especificada, para ser compreendida em seu sentido mais estrito”. O purpurado argentino alertou contra as “guerras preventivas baseadas em suposições” e denunciou intervenções militares justificadas por ameaças não comprovadas. Citando Gaudium et Spes, lembrou que “todo ato de guerra que vise indiscriminadamente à destruição de cidades inteiras ou de vastas regiões com seus habitantes é um crime contra Deus e contra a humanidade”, mencionando explicitamente situações como Gaza e o sul do Líbano.
Fernández denunciou também o clima cultural que prepara o terreno para os conflitos: “As bases que permitem iniciar e continuar uma guerra sem oposição eficaz são preparadas por uma batalha cultural”, que relativiza os princípios morais e concede “ampla liberdade aos dirigentes violentos”. Ele lamentou o nível de “violência, cinismo e ataques verbais maldosos de certos líderes políticos”.
Onze grupos (oito do primeiro bloco e três do segundo) apresentaram suas conclusões em plenário. Segundo o comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé, todos manifestaram uma “grave consciência das dificuldades do tempo presente”, marcadas pela “força desumanizadora da cultura do poder”. Os cardeais alertaram contra a normalização da guerra e da polarização, que “rebaixam o limiar de tolerância da sociedade ante a violência” e favorecem “soluções perigosamente simplistas”.
Diante desse diagnóstico, os participantes insistiram na responsabilidade da Igreja e de cada cristão na construção da paz e de uma “civilização do amor”. Defenderam um linguajar de escuta, perdão, reconciliação e justiça restaurativa, que deve começar dentro da própria Igreja. Enfatizaram ainda a unidade interna como condição de credibilidade, o diálogo com outras confissões cristãs e, em particular, com o islamismo. Vários grupos citaram o trabalho da Igreja em Terra Santa e na Europa Oriental como exemplos de situações que, muitas vezes, “só podem ser resolvidas com a intervenção de Deus”.
Um ponto delicado foi a discussão sobre a doutrina da guerra justa. Diversos grupos propuseram ir além dessa lógica — lembrando que “o Evangelho não se impõe pela força” — para falar de um “direito à legítima defesa proporcionada”. Essa reflexão, de grande alcance teológico, marca um giro significativo no debate dentro do Colégio Cardinalício.
Os cardeais expressaram profunda gratidão ao Papa Leão XIV pela encíclica, pela condenação dos conflitos armados e pelos apelos à paz. Mencionaram também o munus petrino como garantia da independência da Igreja diante do poder político, a importância da diplomacia da Santa Sé e a necessidade de gestos simbólicos de paz. Alguns agradeceram as palavras do Papa sobre o “atraso” da Igreja na condenação da escravidão, que “abriram corações”.
Ao final, os purpurados reafirmaram que Magnifica Humanitas é um chamado à responsabilidade do Colégio Cardinalício na construção da paz, inclusive por meio de iniciativas como a Jornada Mundial de Oração pela Paz convocada por São João Paulo II em Assis (1986).
Sábado (27 de junho) – Terceira sessão da manhã
Na manhã deste sábado, após a Missa presidida pelo cardeal decano Giovanni Battista Re, a terceira sessão —moderada pelo cardeal tanzaniano Protase Rugambwa— abordou o tema “Construir para o bem: as obras de nosso tempo”, com introdução do cardeal sul-africano Stephen Brislin. O Papa Leão XIV esteve presente na abertura, retornou antes dos relatos dos grupos e presidiu o Angelus ao final.
Os cardeais destacaram a necessidade de reforçar o impacto dos apelos à paz do Papa, tornando-os “ainda mais eficazes” nas dioceses e regiões de origem, para que haja “um apelo unânime”. Refletiram sobre as “profundas fraturas do nosso tempo entre os povos, as nações, no seio das sociedades e das próprias famílias”, que geram “falta de sentido e de relações significativas,” e alimentam um individualismo “exacerbado”, agravado por alguns desenvolvimentos problemáticos da inteligência artificial.
Muitos grupos alertaram que a perda de identidade pode favorecer “atitudes tribais” e que o individualismo cria a ilusão de que “os outros existem para o nosso sucesso”. Questionaram como orientar a IA para o bem da humanidade, sem reduzir a pessoa a “números e estatísticas”.
Reafirmaram o bem comum como remédio às divisões — valor que a política muitas vezes não busca — e que nasce da fé, levando à solidariedade com os pobres e à verdadeira catolicidade. Destacou-se também como é necessária uma linguagem do coração para superar o conformismo, a corrupção e a sensação de impossibilidade gerada pela constatação de que as propriedades e os recursos para alcançá-los estão nas mãos de poucos. O antídoto contra o individualismo e as fraturas, como muitos grupos concordaram, é o Evangelho, uma Igreja que transmita um senso de pertencimento, capaz de aliviar as feridas do nosso tempo, renovada para evitar formas de integralismo e polarização, que torne visível seu rosto samaritano; cristãos que não sejam meros espectadores de uma ruína social, mas arquitetos sábios que reconstruam a cidade de todos.
Os cardeais reafirmaram o papel da política na aplicação da Doutrina Social da Igreja, o valor da sinodalidade como caminho de escuta, diálogo e corresponsabilidade, e o testemunho dos cristãos como “arquitetos sábios que reconstroem a cidade de todos”, em vez de meros espectadores da ruína social.
Intervenções pessoais agradeceram as recentes viagens apostólicas do Papa e seu empenho pela paz.
O Consistório prosseguirá com a quarta sessão (implementação do Sínodo) e será encerrado na segunda-feira (29 de junho) com a Missa Solene de São Pedro e São Paulo.





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