Apóstolo dos Sagrados Corações de Jesus e Maria
Atuando no clero, na corte de Luís XIV e junto ao povo, São João Eudes suscitou diversos movimentos destinados a combater a decadência moral e religiosa e, assim, evitar a Revolução Francesa.
Redação (26/06/2026 08:28, Gaudium Press) Nascido numa cidade da Normandia – Noroeste da França –, em 1601, São João Eudes recebeu ótima formação católica de seus pais e estudou num colégio dos jesuítas em Caen.
No início de sua adolescência, fez a primeira Comunhão e passou a comungar mensalmente. Ardente devoto de Nossa Senhora, desposou-A misticamente colocando um anel num dedo de uma imagem que representava a Santíssima Virgem. Aos 14 anos, pronunciou o voto de virgindade e resolveu dedicar-se totalmente a Deus.
Tornou-se membro da Sociedade do Oratório de Jesus e Maria, fundada pelo Cardeal Pierre de Bérulle, e foi ordenado sacerdote aos 24 anos, em Paris. Dotado de grande talento oratório, enviaram-no a várias cidades onde pregava em grandes praças públicas que ficavam repletas de pessoas.
Preocupado com a tibieza em que haviam caído os padres e seminaristas, desejou fundar uma instituição para os afervorar, mas encontrou muitas oposições especialmente de membros da Sociedade à qual estava filiado.
Em Coutances conheceu Marie des Vallées, uma camponesa que tivera visões sobrenaturais, à qual expôs seu projeto. Após ter recebido uma comunicação celeste, ela respondeu-lhe que a Divina Providência aprovou seu plano. Alguns anos depois, o Santo escreveu o livro “Vida admirável de Marie des Vallées e os fatos prodigiosos que se passaram com ela”.
Devoção própria dos contrarrevolucionários
Ele desligou-se da Sociedade do Oratório da qual fora membro durante vinte anos e fundou, em 1643, a Congregação de Jesus e Maria cujo objetivo era a formação doutrinária e espiritual de padres e seminaristas. Seus membros tinham tal união com o Fundador que passaram a ser chamados “eudistas”.
Erigiu diversos seminários os quais “eram destinados a tirar os seminaristas das respectivas famílias e educá-los num ambiente fervoroso, de maneira tal que, quando eles fossem padres, tivessem verdadeiro entusiasmo, verdadeira consagração à sua vocação e não ficassem presos às coisas do mundo.
Os eudistas “constituíram um elemento realmente admirável para a formação do clero, e uma das grandes alavancas para a restauração religiosa da Europa”.[1]
Nosso Santo promoveu a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e Maria que “suscitou, nos séculos XVII e XVIII, toda espécie de movimentos destinados a evitar a Revolução Francesa. No século XIX, e durante uma parte do XX, foi também a devoção própria de todos os contrarrevolucionários”.[2]
Tal é a união entre Nosso Senhor e sua Mãe Santíssima que Monsenhor João Clá escreveu:
“Junto a seu Filho Jesus e formando com Ele um só Coração, a Virgem foi estabelecida como eixo da História e, desse modo, dividiu os homens em dois imensos conjuntos: o dos réprobos e o dos Bem-Aventurados”.[3]
Censurou os escândalos da corte de Luís XIV
Em 1671, fez pregações sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo no Castelo de Versailles, às quais estava presente o Rei Luís XIV. Numa delas, censurou com tanta energia os escândalos da corte, que os amigos de São João Eudes temiam que ele fosse enviado para a Bastilha.
Ana d’Áustria, mãe de Luís XIV, ao ter conhecimento desses comentários, mandou-lhe dizer que fizera bem e, desde então, tornou-se sua protetora.
“Ela era uma soberana que, embora tivesse um oratório em seu palácio, absolutamente não se distinguia por uma piedade saliente nem deu uma educação muito piedosa a seus filhos. Entretanto, quando toma conhecimento de que São João Eudes falou fortemente na corte contra a imoralidade, ela o apoia e manda dizer-lhe que gostou. Ela mesma tinha como seu conselheiro São Vicente de Paula.
“É uma atitude completamente diferente do afastamento sistemático de todo contrarrevolucionário, de todo aquele que reage e procura ser séria e sinceramente católico, nos dias de hoje.
“Quer dizer, não havia o boicote completo do católico verdadeiro, como existe atualmente. O que indica, exatamente, que o vício, o erro, o mal ainda estavam num estado de debilidade, e não se permitiam as insolências, os despotismos que se permitem hoje.
“Noutra ocasião, estava celebrando Missa na corte, quando percebeu que Luís XIV estava ajoelhado, mas que a nobreza não se comportava convenientemente. Depois do Evangelho, voltou-se para o Rei e o cumprimentou pela piedade com que assistia à Missa, acrescentando: ‘Admiro-me, no entanto, de que, estando Vossa Majestade prostrado diante do Criador do Céu e da Terra, vossos cortesãos estão longe de imitar tão belo exemplo.’ Luís XIV olhou para trás e imediatamente todos os homens se ajoelharam.
“Era óbvio que Luís XIV sabia o que estava se passando ali, pois eram esses os costumes da corte precedida pelo monarca.
“Havia, portanto, ao lado do modo cortês de começar por elogiar o rei, uma verdadeira censura. E, de fato, o mal que podia ser ali removido, de tal forma dependia do soberano, que bastou o rei olhar para os fidalgos que todos se ajoelharam.
“Mas não é este o único fato da vida de Luís XIV em que ele ouviu — humildemente, como filho da Igreja — uma porção de verdades do alto do púlpito. Ele era, sem dúvida, um pecador público e prestou à Igreja, ao lado de alguns serviços, alguns desserviços insignes. Mas a profundidade e o modo de ser do pecado — e até do pecado grave — nas almas daquele tempo, não tinha a profundidade nem o modo de ser do pecado nas almas de hoje em dia.”[4]
Bossuet o considerava modelo dos oradores sacros
Devido a uma hernia que lhe causava dores intensas, regressou a Caen. Atingido por forte febre, recebeu os últimos Sacramentos circundado de seus filhos espirituais e, pronunciando serenamente os nomes de Jesus e Maria, entregou sua nobre alma ao Criador, em 19 de agosto de 1680.
Além das obras que escreveu, São João Eudes realizou 110 missões populares para extirpar a tibieza dos católicos e neles infundir a combatividade, o fervor. Cada missão durava um mês e meio. A rainha da França e o celebérrimo Bossuet o consideravam modelo dos oradores sacros.
Foi beatificado por São Pio X, em 1909, que o chamou pai, doutor e apóstolo da devoção aos Sagrados Corações de Jesus e Maria.[5] E canonizado por Pio XI, em 1925.
Por Paulo Francisco Martos
Noções de História da Igreja
[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. São João Eudes: Combate à tibieza e à heresia. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XVII, n. 197 (agosto 2014), p.30.
[2] Idem, ibidem. p.26.
[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio, EP. Maria Santíssima! O Paraíso de Deus revelado aos homens. São Paulo: Arautos do Evangelho. 2020, v. III, p. 17.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. São João Eudes: Combate à tibieza e à heresia. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XVII, n. 197 (agosto 2014), p.28-31.
[5] Cf. SÃO PIO X. Carta apostólica Divinus Magister, 11-4-1909.






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