“Tenho que pedir permissão ao meu abade?” pergunta novo bispo
Um monge beneditino à frente de uma diocese: a história de Dom Godfrey Mullen, OSB, novo bispo de Belleville, EUA. Ele surpreendeu o núncio apostólico com uma pergunta que refletia seu espírito de obediência e fidelidade à vida monástica.

Foto: The Message
Redação (24/06/2026 09:50, Gaudium Press) A Diocese de Belleville, no sul de Illinois, nos Estados Unidos, vive um momento histórico e inspirador com a nomeação e posse de Dom Godfrey Mullen, OSB, como seu 10º bispo. Nomeado pelo Papa Leão XIV em 13 de março passado e ordenado bispo em 1º de maio, o religioso traz para o episcopado uma rica bagagem de quase quatro décadas de vida monástica beneditina, marcada pela oração, simplicidade, vida comunitária e fidelidade à tradição de São Bento.
Diferentemente da maioria dos bispos, que geralmente vêm de carreiras diocesanas ou de ordens mais voltadas ao apostolado ativo, Mullen é um monge da Arquiabadia de Saint Meinrad, onde professou os votos em 6 de agosto de 1989 e foi ordenado sacerdote em 5 de junho de 1994. Os beneditinos são conhecidos pelo lema ora et labora (ora e trabalha), pela hospitalidade e pela estabilidade no mosteiro. Por isso, a escolha de um monge para governar uma diocese chama atenção e é considerada uma exceção nos Estados Unidos. Desde Jerome Hanus, que liderou a Diocese de St. Cloud entre 1987 e 1994, não se via um beneditino americano elevado ao episcopado. Na própria história de Saint Meinrad, com mais de 170 anos, apenas três monges haviam sido escolhidos para bispos antes dele.
A vocação de Mullen começou de forma discreta. Nascido em 22 de janeiro de 1966 em Salem, Illinois — justamente dentro da diocese que agora pastoreia —, ele estudava quando uma religiosa lhe perguntou se já havia pensado no sacerdócio. A resposta inicial foi negativa, mas a semente foi plantada. Entrou no seminário e, mais tarde, um monge sugeriu a vida beneditina. No início, a ideia não o atraiu, pois ele se via como uma pessoa extrovertida e conversadora, pouco compatível com o silêncio monástico. No entanto, o ambiente de oração, fraternidade e equilíbrio da Regra de São Bento o conquistou.
Ao longo dos anos em Saint Meinrad, Mullen exerceu diversas funções, incluindo docência e formação de futuros sacerdotes e religiosos. Ele também obteve doutorado em Estudos Litúrgicos na Catholic University of America, o que o tornou referência em liturgia. Nos últimos anos, retornou à sua diocese de origem como reitor da Catedral de São Pedro e, posteriormente, como administrador diocesano, ganhando a confiança e o carinho dos fiéis. Muitos o veem como “um dos nossos”, nas palavras de Kathleen Hunt, responsável pelas redes sociais da diocese.
A nomeação e a reação monástica
O momento da nomeação foi marcante. Ao receber a ligação do Cardeal Christophe Pierre, núncio apostólico nos Estados Unidos, Mullen reagiu com uma pergunta que arrancou risadas do representante do Vaticano: “Preciso pedir permissão ao meu abade?”. O cardeal respondeu que, a partir daquele instante, ele estava sob a autoridade do Papa, mas tranquilizou o novo bispo: ninguém esperava que ele deixasse de ser monge. “Continue sendo um homem de comunidade, de oração e de simplicidade.” Essas palavras se tornaram um guia para sua nova missão.
Em entrevistas, Mullen destaca que a espiritualidade beneditina tem muito a oferecer ao mundo atual. Diante de uma sociedade individualista, instável e marcada por corrupção moral, a Regra de São Bento — escrita há mais de 1.500 anos — propõe um caminho de paz baseado em disciplina espiritual, limites claros, oração comunitária e trabalho. Ele acredita que muitos jovens se sentem atraídos por esse equilíbrio centrado em Deus. Como bispo, seu foco será ajudar as pessoas a redescobrir Deus no centro da vida: “Amá-lo, segui-lo e abraçar seu caminho — isso é o que somos e o que nos define”.
Desafios da Diocese de Belleville
Belleville é uma diocese extensa, e conta com aproximadamente 99 paróquias e atende cerca de 70 mil católicos em uma população total de mais de 860 mil habitantes. O número de sacerdotes é desafiador: apenas cerca de 40 a 45 diocesanos residentes em paróquias, além de religiosos e outros. Mullen, que já atuava como administrador, conhece bem esses desafios e prioriza a formação do clero, a vida comunitária e a revitalização da liturgia com reverência e beleza.
Sua experiência monástica deve contribuir para fomentar a vida fraterna entre os sacerdotes, a oração comum e a fidelidade aos ensinamentos da Igreja. Ele menciona que, em seu ministério paroquial anterior, muitos conflitos surgiam quando as pessoas resistiam aos “limites” do Evangelho. A visão beneditina pode ajudar a construir uma diocese mais unida e orientada para a paz em meio às dificuldades contemporâneas.
Com a mesma humildade e bom humor que marcaram sua reação à nomeação, Dom Godfrey Mullen inicia esta nova etapa. Ele não pretende deixar para trás sua identidade de monge, uma vez que carrega consigo a oração, a simplicidade e o senso de comunidade cultivados por décadas. Para os fiéis de Belleville, representa um “regresso ao lar” de alguém que conhece a região e, acima de tudo, coloca Deus no centro. Sua trajetória mostra que a tradição milenar de São Bento continua viva e capaz de iluminar o pastoreio da Igreja hoje.
Com informações Religión en Libertad





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