Até quando abusareis da nossa paciência?
Milhares de africanos são mortos por amor a Cristo, e os “amantes dos homens” onde estão? Onde os altruístas declamadores? Onde os que alardeiam uma filantropia que desconhece raça, classe ou religião?

Foto: Wikipedia
Redação (05/06/2026 16:04, Gaudium Press) Que o nosso caro leitor da Gaudium Press não se ofenda com as palavras do título; evidentemente, não é a você que as dirigimos.
Embora, por vezes, você as quisesse jogar na nossa cara, a nós, redatores, também não fazemos referência a esta queixa.
Aludimos, sim, às palavras inaugurais do famoso discurso recriminatório do ainda mais famoso orador romano Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), discurso esse feito para acusar a conspiração armada em Roma pelo político Lúcio Sergio Catilina: “quousque tandem abuteris patientia nostra?” – “até quando abusareis da nossa paciência?”
Entretanto, ao tomar contato com esta sentença, não pude deixar de sentir certa identificação, como se Cícero houvesse arrancado as palavras de minha boca. Talvez também você tenha provado algo análogo.
Desta forma, esta frase nos inspira a um breve colóquio, visto que com certeza você também terá algo a dizer no decorrer destas linhas. Pois, apesar de não gozarmos em nada da oratória ciceroniana, padecemos de problemas muito maiores do que um simples levante de armas.
Você sabia?
Coloco um desses problemas, que espantaria tanto Cícero quanto Catilina, recorrendo a quatro recortes de órgãos da imprensa internacional, alguns com informações gerais, outros dando o suco concreto e real da calamidade:
● “De acordo com a Lista Mundial de Vigilância, o número de países com um nível de perseguição anticristã que pode ser descrito como ‘extremo’ aumentou de 13 para 15. A Coreia do Norte continua sendo o país onde é mais perigoso ser cristão. A lista de países com um nível alarmante de perseguição também inclui Somália, Eritreia, Líbia, Afeganistão, Iêmen, Sudão, Mali, Nigéria, Paquistão, Irã, Índia, Arábia Saudita, Mianmar e Síria. A Nigéria é confirmada como o epicentro da violência, com 3.490 vítimas, cerca de 70% do total global de pessoas mortas.”[1]
● “Dezenas de milhares de cristãos nigerianos foram massacrados por muçulmanos nigerianos. Quando a cobertura da imprensa não tem sido inexistente, ela recorre a uma explicação simplista sobre as ‘mudanças climáticas”[2]
● “As Forças Democráticas Aliadas (ADF) mataram pelo menos sete cristãos durante um ataque ocorrido durante a madrugada de 30 de maio em Beni, localizada na província de Kivu do Norte, no leste da República Democrática do Congo. […] Testemunhos de sobreviventes indicam que os agressores impediram qualquer tentativa de fuga dos civis antes de executá-los. ‘Quase morri naquele ataque’, disse um morador cristão. ‘Eles chegaram sem que percebêssemos. Acordaram-nos e, com um grito islâmico, ‘Allahu Akbar’, os tiros começaram, e as pessoas começaram a ser massacradas como animais. […] Somos pigmeus. Não sabemos nada de política, mas eles estão nos matando”.[3]
● “Na Nigéria, os cristãos sofrem uma perseguição significativa e severa — a tal ponto que, há vários anos, o país é considerado o lugar mais violento do mundo para os seguidores de Jesus. No norte da Nigéria, 12 estados adotaram a lei islâmica, criando um sistema em que os cristãos vivem como cidadãos de segunda classe e a conversão ao islamismo pode ser severamente punida.”[4]
Paradoxos, perguntas e uma oração
Engana-se quem pensasse que os martírios terminaram. Aí estão eles. Evidentes. Terrivelmente evidentes. Terrivelmente conhecidos.
A diferença é que não são reconhecidos…
Diante destas notícias, sobreveio-me a seguinte pergunta: não é verdade que, se fossem milhares de africanos morrendo de fome, organizações das mais variegadas nações unir-se-iam, por amor à vida humana, para socorrê-los?
Entretanto, curioso paradoxo, milhares de africanos são mortos por amor a Cristo, e os “amantes dos homens” onde estão? Onde os altruístas declamadores? Onde os que alardeiam sua filantropia universal que desconhece raça, classe ou religião?
Se tanta é a dignidade da pessoa humana, ao menos salvem aqueles que são assassinados em seu próprio país por consideração à sua natureza. Se não os honram por serem filhos de Deus, protejam-nos ao menos por serem filhos dos homens.
Mais paradoxos saltam à vista… Se o erro não é punido, que se reconheça então o mérito dos perseguidos. Tanta palma de martírio enterrada junto com o torturado; tanta auréola de sangue espezinhada pelo esquecimento… Mas sobre este particular preferimos calar.
As considerações, aliás, poderiam ampliar-se aos milhares, mas receamos abusar de sua paciência; a nossa já está esgotada.
No entanto, como para Deus não existem heróis anônimos, ainda que ninguém os reconheça, Ele os conhece.
Tudo passa, mas a memória dos justos permanece eternamente.
Rezemos por eles. Que eles rezem por nós.
Por Dante Arruda
[1] Trecho extraído de um artigo da página Open Doors: World Watch List 2026 · Serving Persecuted Christians Worldwide.
[2] Trecho extraído de um artigo da página: Do the Nigerian Massacres Matter? – Religion & Liberty Online.
[3] Trecho retirado de um artigo na página: ADF Kills At Least 7 Christians in Beni – International Christian Concern.
[4] Trecho extraído de um artigo da página: Nigeria · Serving Persecuted Christians Worldwide.





Deixe seu comentário