Católicos vietnamitas mantêm tradição de oferendas florais à Virgem Maria durante mês de maio
“Ao oferecer flores, a Igreja não oferece apenas flores físicas, mas o próprio coração humano”, explicou um sacerdote. “As flores simbolizam vidas que se purificam, se transformam e se oferecem a Deus”.

Foto: gpbuichu.org
Redação (25/05/2026 08:09, Gaudium Press) No Vietnã, o mês de maio transforma-se em um verdadeiro festival de devoção à Virgem Maria. Nas paróquias de todo o país, especialmente nas regiões centrais como Hue, fiéis se reúnem todas as noites para rezar o terço, cantar hinos, oferecer flores e fortalecer laços comunitários. Essas celebrações, conhecidas como dâng hoa kính Đức Mẹ (Oferenda de Flores à Santíssima Virgem), vão muito além de um simples ritual; representam resistência, esperança e a viva inculturação da fé católica em solo vietnamita.
Em uma noite típica de maio na paróquia de Mai Vinh, em Hue, após o terço vespertino, um grupo de devotos carrega uma imagem de Nossa Senhora até a casa de Barnabas Nguyen Van Lan, de 75 anos. A sala modesta se enche de flores coloridas, velas acesas e o aroma suave de incenso. Vizinhos, familiares e religiosas se acomodam para cantar hinos marianos, compartilhar histórias e, ao final, desfrutar de uma refeição simples preparada pelo anfitrião, muitas vezes acompanhada de chá ou cerveja local. Lan conta que essa tradição em sua comunidade remonta a maio de 1978, período logo após a guerra, quando os católicos reconstruíam suas vidas em meio à pobreza e à reconstrução de igrejas danificadas. “Éramos pobres, mas dividíamos o pouco que tínhamos”, recorda ele. Uma família trazia as flores, outra preparava o chá e todos se uniam nas orações.
Essas reuniões noturnas no mês mariano não são exclusividade de uma paróquia. Em todo o Vietnã, as comunidades organizam procissões, danças florais e momentos de oração coletiva. Grupos de jovens, associações de mulheres e bandas musicais ensaiam por semanas para apresentar coreografias sincronizadas com áo dài — o tradicional traje feminino vietnamita elegante e colorido. Em uma celebração recente na paróquia de Tuong Le, na diocese de Bac Ninh, mais de 700 mulheres vestidas com esses trajes participaram de uma grandiosa cerimônia. Em outros lugares, como Hoa An, os fiéis descrevem o evento como um “jardim vivo”, onde as “flores” são os corações humanos oferecidos com amor.

Foto: Arquidiocese de Hanói
Raízes Históricas e Inculturação
A devoção mariana chegou ao Vietnã no século XVII, trazida principalmente por missionários da Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris (MEP). Os vietnamitas, com sua rica cultura de respeito à maternidade, à família e à perseverança, abraçaram Maria de forma natural e criativa. Com o tempo, a prática das oferendas florais deixou de ser uma simples importação ocidental e se tornou uma expressão autêntica da fé local, incorporando música folclórica, percussão tradicional, danças e símbolos vietnamitas.
Os líderes da Igreja vietnamita destacam isso como um belo exemplo de inculturação: a fé católica dialogando com a cultura local. O Pe. Joseph Dao Huu Tho, especialista em devoção mariana, explica que as oferendas não são cópias de tradições europeias, mas um processo histórico em que a universalidade da Igreja se veste com cores, movimentos e sons vietnamitas. Hoje, imagens de Nossa Senhora com traços faciais asiáticos e vestes tradicionais são comuns em frente às casas católicas e nas grutas das igrejas.
Um marco central dessa devoção é o Santuário Nacional Mariano de La Vang, perto de Hue. Segundo a tradição, em 1798, durante uma severa perseguição anticatólica, a Virgem Maria apareceu para fiéis refugiados na selva, trazendo consolo e cura. Reconhecido como santuário nacional em 1961 e elevado a basílica menor, La Vang atrai centenas de milhares de peregrinos anualmente, especialmente em agosto. A imagem da Santíssima Virgem Maria como mãe amorosa, perseverante e protetora ressoa profundamente na cultura vietnamita, que valoriza o papel da maternidade como base da família e da sociedade. Até mesmo muitos não católicos sentem atração por ela.
Fé, Comunidade e Resiliência
O catolicismo no Vietnã, que hoje conta com cerca de 7,2 milhões de fiéis (aproximadamente 7% da população), cresceu apesar de períodos difíceis de perseguição, guerras e restrições. Após 1975, muitos católicos perderam empregos nas cidades e retornaram aos vilarejos, reconstruindo igrejas e comunidades. As devoções marianas, realizadas muitas vezes sem sacerdote residente, ajudaram a manter a fé viva nos lares.
O Pe. John Baptist Bui Quang Sang, de Hai Phong, destaca o valor comunitário dessas celebrações: os grupos não apenas se apresentam juntos, mas aprendem uns com os outros, fortalecendo a comunhão entre paróquias e gerando amizade e solidariedade. As danças e procissões tornam-se espaços de encontro geracional, onde idosos transmitem a fé aos jovens e crianças.
Ao oferecer flores à Virgem, os vietnamitas católicos simbolizam algo mais profundo: a entrega do próprio coração a Deus, purificado e transformado. Como explica o arcebispo de Hanói, Joseph Vu Van Thien, a Virgem Maria representa valores caros ao povo vietnamita — amor incondicional, sacrifício e resiliência.
Em um país onde a primavera traz flores abundantes nos arrozais e jardins, o mês de maio torna-se uma bela metáfora espiritual. A devoção mariana não apenas floresce nas igrejas e casas, mas continua a enraizar a fé católica vietnamita, unindo passado de sofrimento, presente de vitalidade e futuro de esperança.
Com informações Ucanews





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