Apóstolos da verdadeira paz
Se a miséria humana é capaz de dissimular a fuga de suas responsabilidades sob um falso rótulo de paz, o Homem-Deus demonstra, contudo, que a verdadeira paz só se alcança pela generosa doação de si mesmo.
Redação (23/05/2026 15:23, Gaudium Press) A paz. A verdadeira paz. O nosso século a procura, mas não a encontra, seja porque a procura no lugar errado, seja porque recorre a meios equivocados. Entretanto, ela se encontra tão próxima de nós! A liturgia de hoje nos mostra como encontrar essa paz e nos convida a transmiti-la aos demais por meio do exemplo.
Paz ou comodismo?
Antes de meditarmos sobre as leituras que nos apresenta a liturgia da solenidade de Pentecostes, convém considerar uma cena que, com tristeza, se tornar cada vez mais comum em nossos dias.
Todos já fomos importunados pelo choro de uma criança que, em atitudes próprias à sua idade, reclama a presença ou o auxílio materno. Não se sabe se trata de fome, de algum incômodo ou se é a manifestação de um capricho infantil que precisa ser corrigido pela sabedoria da mãe; às vezes será simplesmente um apelo ao carinho e aos afagos familiares. Ora, quem possui a capacidade natural de “discernir” o que ela está precisando é, naturalmente, a mãe.
Contudo, as sábias e delicadas soluções que, nesses momentos, sempre indicou o instinto materno são hoje substituídas por uma que parece ter eficácia imediata: entregar para a criança um celular… De fato, com o aparelho na mão, o pequeno fica inteiramente distraído, de modo que o ambiente volta à “paz” e a mãe retoma suas ocupações.
Poderíamos, verdadeiramente, denominar isso de paz autêntica?
Santo Agostinho, em famosa e feliz passagem, define a paz como a tranquilidade da ordem.[1] Na sociedade, há uma ordem posta por Deus, da qual faz parte o cuidado carinhoso e atento da mãe para com o bem-estar de seu filho. Ora, quando um aparelho qualquer é utilizado para suprir o zelo maternal, a ordem natural é substituída por uma medida paliativa que não atende às necessidades afetivas da alma, gerando nela um vazio que, se não for preenchido pelo amor materno, poderá constituir-se em obstáculo à experiência do amor divino.
Se a miséria humana é capaz de encobrir a fuga de suas obrigações sob um falso rótulo de paz, o Homem-Deus demonstra, porém, que a verdadeira paz só se alcança pela doação de si mesmo.
A paz verdadeira
Neste sentido, o Evangelho narra que, no domingo da Ressureição, as portas do recinto onde se encontravam os apóstolos estavam fechadas por medo dos judeus, até que, subitamente, o Divino Ressuscitado se apresentou no meio deles disse: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19).
Ao mostrar-lhes as chagas das mãos e do lado, o Bom Pastor não teve apenas a intenção de dar sinais indiscutíveis da realidade da aparição, Ele também quis transmitir o ensinamento de que a verdadeira paz provém da obediência à voz de Deus, do amor à cruz e, sobretudo, da conformidade da nossa vontade com a de Deus.
No entanto, sabemos que tal realização ultrapassa as forças meramente humanas. De modo que, sem o auxílio do Espírito Santo, nos é realmente impossível.
Apóstolos da paz
Como se não bastasse a desproporção entre as forças naturais do homem e a prática estável do bem, Nosso Senhor Jesus Cristo confia aos apóstolos uma missão ainda mais elevada: “como o Pai me enviou, também Eu vos envio”. Quem é digno de envio tão elevado? Quem está à altura de ser representante do Salvador? A fim de dignificar e robustecer seus arautos, Nosso Senhor soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,21-22).
Aqui as desproporções deixam de ser empecilho para a obra de Deus, e passam a ser um sinal de que os homens são instrumentos, e é Deus quem opera.
Por isso, só seremos transmissores da paz de Cristo se contarmos com o auxílio do Paráclito. Assim daremos exemplo de uma vida conforme os princípios da fé, da prática dos Mandamentos e do cumprimento dos deveres de nosso estado.
Que o Divino Paráclito, o Espírito da paz, por intermédio de sua Esposa Fidelíssima, Maria Santíssima, envie do Céu um raio de sua luz que acenda os nossos corações no seu fogo divino e nos torne exemplos de abnegação e obediência à voz de Deus, a fim de sermos, junto aos nossos irmãos, embaixadores da verdadeira paz de Cristo.
Por Nicolás Forero
[1] Cf. SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. A Cidade de Deus. XIX,13,1. Edição digital. Petrópolis: Vozes, 2017, p.573.






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