Gaudium news > Ritos de admissão e degradação do estado clerical

Ritos de admissão e degradação do estado clerical

A partir desse momento, o clérigo renunciava a seu futuro no mundo para ser admitido na herança – em grego, kleros – do Senhor. Em que consiste essa herança? Nada menos que o próprio Deus.

Foto: Wikipedia

Foto: Wikipedia

Redação (09/05/2026 10:36, Gaudium Press) Uns são médicos, outros engenheiros, e alguns, enfim, decidem ser padres…” Insensato seria quem considerasse o sacerdócio como mera profissão. A realidade é bem outra.

Admitido a uma herança infinita

Um ritual antigo da liturgia católica, hoje em desuso, expressa muito bem o sentimento e a visualização da Igreja a este propósito. Trata-se do rito de “admissão ao estado clerical”.[1]

No momento de se realizar a tonsura naquele que fora escolhido para dedicar-se inteiramente ao serviço divino, recitavam – o Bispo e o futuro clérigo – em uníssono: “Dominus pars haereditatis meae et calicis mei; tu es qui restitues heareditatem meam mihi” — “O Senhor é a parte da minha herança e do meu cálice; sois Vós que me restituís a minha herança” (Sl 15,5).

A partir daquele momento, o clérigo renunciava ao seu futuro no mundo para ser admitido na herança – em grego, kleros – do Senhor. Em que consiste essa herança? Nada menos que o próprio Deus. Admirável comércio, no qual a criatura abdica de si mesma, e recebe em troca o Criador.

Para bem simbolizar esta verdade, cinco mechas de cabelo eram retiradas da cabeça do novo ministro, e o formato de cruz tomava seu lugar. A partir de então, a este mundo e a si mesmo ele já não pertencia mais. Revestido de graças e privilégios, abandonando o estado civil, ele passava a pertencer a Deus e à Igreja de forma íntima e singular.

Porém… tendo ascendido a esse patamar sacrossanto da vocação sacerdotal, qual será a sorte daquele que vive para si mesmo, esquecendo-se que seu ministério é um ato de escravidão a Deus? Ou pior, que faz de sua vocação altíssima — ser um alter Christus, outro Cristo — uma profissão, fazendo da Igreja e de sua própria alma uma “casa de comércio” (cf. Jo 2,16)?

A expulsão do estado clerical

A fim de compreendermos a indignação que tal atitude suscita no Céu, tomemos o eloquente Rito de degradação do estado clerical (Ibid, III, p. 94) também em desuso nos nossos tempos.

“Enquanto é retirada a sobrepeliz, o Bispo diz: Pela autoridade de Deus onipotente, Pai, e Filho, e Espírito Santo, e pela nossa, retiramos teu hábito clerical e desnudamos-te do ornato da religião, e depomos, degradamos, despojamos e destituímos-te de toda Ordem, benefício e privilégio clerical; e, considerando-te indigno da profissão que fizeste ao ingressar no estado clerical, reduzimos-te à servidão e ignomínia da condição e da veste laical.

“A cabeça é logo raspada a fim de remover a coroa imerecida da cruz do Senhor, enquanto se diz: lançamos-te fora da herança do Senhor, à qual foste chamado, como filho ingrato, e removemos a coroa de tua cabeça, régio signo do Sacerdócio, por causa da pravidade de tua conduta”.[2]

O Sacerdócio de Nosso Senhor é eterno, mas, para perpetuá-lo na terra, Ele constituiu para Si sacerdotes segundo o Seu Coração (Jr 3,15). Especialmente chamados à santidade, não há meio-termo para aquele que se decide ingressar pela via sacerdotal. Somente no sacerdote que a tudo está disposto a renunciar, resplenderá a cruz, ou seja, a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo, que diz: “Quem não toma sua cruz e não me segue não é digno de Mim. Aquele que tentar salvar a sua vida irá perdê-la. Aquele que a perder, por minha causa, irá reencontrá-la” (Mt 10,38-39).

Por Morgan Dunn


[1] Cf. PONTIFICALE ROMANUM. Editio Typica 1961-1962. Città del Vaticano: L.E.V., 2008, p.15-16.

[2] Ibid., p.94.

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas