Terroristas destroem histórica igreja católica em Cabo Delgado, Moçambique
Uma igreja incendiada, a casa dos Padres Escolápios e a creche também foram atacados. A violência jihadista continua em Cabo Delgado, em Moçambique, onde uma guerra se arrasta há mais de oito anos e já causou mais de 6.200 vítimas e mais de 1,3 milhão de deslocados.

Foto: Diocese De Pemba/ Facebook
Redação (03/05/2026 18:10, Gaudium Press) A Diocese de Pemba, no norte de Moçambique, foi mais uma vez alvo da violência jihadista. Na tarde de quinta-feira, 30 de abril, terroristas atacaram o vilarejo de Meza, no distrito de Ancuabe, incendiando a histórica Paróquia de São Luís de Montfort, a casa dos Padres da Ordem Religiosa das Escolas Pias, conhecidos como Padres Escolápios, e a creche local. O ataque causou grande comoção na comunidade católica da região.
De acordo com o bispo de Pemba, Dom António Juliasse Ferreira Sandramo, os terroristas chegaram por volta das 16h, invadiram a igreja — símbolo da presença católica na região desde 1946 — e a destruíram completamente, reduzindo o templo a escombros. “Uma cena de verdadeiro terror. Tudo foi reduzido a ruínas”, relatou o prelado em mensagem enviada à fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN).
Durante o ataque, civis foram capturados e obrigados a ouvir discursos de incitação ao ódio. Os missionários Escolápios foram alertados a tempo e conseguiram deixar o local antes da chegada dos insurgentes, estando todos em segurança. No entanto, a comunidade local permanece em estado de choque.
A religiosa italiana Irmã Laura Malnati, provincial das Missionárias Combonianas em Moçambique, confirmou os fatos ao jornal católico italiano Avvenire. “Eles incendiaram os edifícios do vilarejo”, contou a irmã, ainda abalada. Além da igreja, várias residências e estruturas paroquiais foram destruídas.
Mais de oito anos de terror
A insurgência jihadista em Cabo Delgado, protagonizada principalmente pelo grupo Ahlu al-Sunna wa al-Jama’a — afiliado ao Estado Islâmico —, perdura desde outubro de 2017. Em mais de oito anos de conflito, a violência já deixou mais de 6.200 mortos e mais de 1,3 milhão de deslocados, segundo dados atualizados. Apenas em 2025, mais de 110 mil pessoas foram forçadas a abandonar suas casas, conforme o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
Desde o início da crise, pelo menos 117 igrejas e capelas foram destruídas na Diocese de Pemba. O ataque à Paróquia de São Luís de Montfort soma-se a essa trágica lista. Em dezembro de 2025, durante a visita do Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, Dom Juliasse revelou que mais de 300 católicos foram assassinados na região, muitos por decapitação, incluindo catequistas e leigos.
Apelo à solidariedade internacional
Dom António Juliasse fez um forte apelo à comunidade internacional: “Pedimos atenção e solidariedade com as vítimas de Meza. Desde há quase nove anos, capelas e igrejas são atacadas, destruídas e incendiadas na nossa diocese”.
Apesar da gravidade da situação e da quase indiferença da opinião pública mundial, o bispo manifestou esperança na resiliência da fé do povo moçambicano: “A fé deste povo de Deus nunca será queimada; reconstrói-se cada dia!”.
Contexto regional: pobreza e riqueza natural
Cabo Delgado é uma das províncias mais pobres de Moçambique — país que figura entre os últimos colocados no ranking do Banco Mundial. Paradoxalmente, a região é rica em minerais e possui grandes reservas de gás natural, atraindo empresas ocidentais para a exploração de recursos. No entanto, a persistente violência tem impedido o desenvolvimento local e agravado a crise humanitária.
A insurgência, inicialmente motivada por questões socioeconômicas e religiosas, evoluiu para uma ramificação africana do Estado Islâmico, com táticas de extrema violência contra civis, forças de segurança e símbolos religiosos.
A destruição sistemática de templos cristãos visa não apenas aterrorizar a população, mas também apagar sinais visíveis da presença cristã numa região de maioria muçulmana, onde os católicos representam uma minoria.
A Igreja Católica continua sendo uma das principais instituições presentes na região, oferecendo assistência espiritual, material e psicológica às populações afetadas, mesmo sob constante ameaça.





Deixe seu comentário