A engrenagem e a sabedoria
Respeitar a função de cada um consiste em reconhecer que a ordem da criação é uma harmonia onde ninguém precisa ser tudo, basta ser o que nasceu para ser, exatamente como Deus imaginou que seríamos.
Redação (02/05/2026 15:10, Gaudium Press) Eu nasci no interior, mas ainda bem jovem alcei voo para a capital, e me embrenhei tanto na selva de pedra quase a ponto do cimento e da sombra dos arranha-céus me fazerem esquecer as lições da origem. Quase, porque raiz de berço a gente nunca esquece.
Hoje, ao escrever estas linhas, revelo a vocês que, finalmente, rompi as minhas correntes metropolitanas. A solidão, companheira insistente na capital, começava a cobrar seu preço no autocuidado e no espírito. Foi quando recebi um convite: mudar-me para uma comunidade rural, um ecossistema de vida e palavras no interior de São Paulo.
Um refúgio acolhedor
Vivo agora entre amigos de longa data – almas que, como eu, já cruzaram a barreira dos sessenta anos com o vigor de quem ainda tem muito a semear. Há também a presença revigorante de um jovem assistente que, com sua energia e domínio das novas ferramentas técnicas, nos auxilia nos trabalhos e garante que o conhecimento dos mais velhos não se perca no tempo. Até um grupo musical nós formamos, permitindo-me realizar um sonho antigo que ficou adormecido.
Neste lugar, o despertador é o canto do galo, seguido pelo coro do cacarejo das galinhas, e o cardápio é ditado pelo que o pomar e a horta nos oferecem. Não vim em busca do ócio, mas para atuar como escritor e crítico literário de uma editora nascente. Assim, o repouso necessário permanece aliado ao trabalho que dá sentido à vida.
Neste recanto escondido, numa rua de terra batida, recuperei algo que a metrópole me havia roubado: o ritmo da luz. Aqui acordo com a aurora, trabalho enquanto o sol brilha e me recolho quando o dia finda, com tempo de sobra para uma boa prosa ao cair da noite e para o silêncio necessário para a oração.
Um novo aroma
Apesar de minhas raízes serem rurais, como mencionei no início, a cidade havia me tornado um homem “asfaltado”. Agora, estou aprendendo de novo a ler os sinais da terra, a conviver com a simplicidade e a intelectualidade que brotam do mesmo chão. Não sou mais um homem sozinho na multidão; sou parte de uma engrenagem que produz livros, colhe laranjas e abacates, cultiva quiabo, alface e girassóis e saboreia o valor das boas amizades.
Aos meus leitores fiéis, saibam que as palavras que lerão daqui por diante têm um novo aroma: o de café fresco passado no fogão de lenha e o de terra molhada após a chuva. Estou começando de novo, e nunca me senti tão em casa.
Outro dia, enquanto o sol insistia em brilhar entre as nuvens passageiras, vi-me em uma cena que, para muitos, pareceria banal, mas que, para um escritor em busca de sentido, tornou-se uma epifania. Eu ajudava minha anfitriã e amiga – que fundou esta oficina de palavras e afeto onde hoje resido – a recolher as roupas do varal. Entre lençóis que ainda guardavam o frescor do vento, iniciamos uma dessas conversas que só o ritmo do interior permite florescer.
As lavadeiras dos rios
Ela me confessava, com aquele sorriso de quem compreende as entranhas da vida prática, sua relação com a tecnologia doméstica. Contava-me que observa, ainda hoje, muitas mulheres que dedicam horas a esfregar punhos e colarinhos, deixando roupas de molho em bacias antes de entregá-las à máquina de lavar. Com uma lógica que me desarmou, ela sentenciou:
– Seu Afonso, eu não faço isso. Tiro a roupa do cesto e entrego diretamente à máquina. Eu sei fazer muitas coisas: sei lavar, passar, cozinhar, administrar uma empresa, cuidar da terra. Mas esta máquina, coitada… ela só sabe lavar roupa! Como eu poderia fazer a desfeita de tirar dela a única coisa que ela foi criada para fazer?
Rimos juntos, mas o riso logo deu lugar ao silêncio reflexivo. Naquela simplicidade, havia uma profunda teologia da função. Ali, no corredor onde o limo da chuva teima em esverdear as paredes, percebemos que nada se perde, tudo se ilumina. Seguimos para a mesa, o café fumegando em xícaras de bordas finas, e a prosa se estendeu para as margens dos rios de antigamente.
Recordamos as mulheres que carregavam trouxas pesadas sobre a cabeça, equilibrando a vida e o cansaço enquanto batiam o pano nas pedras. Em menos de um século, o esforço hercúleo de um dia inteiro foi reduzido ao girar de um botão. É aqui que a tecnologia se revela não como uma senhora tirana, mas como uma aliada da alma.
A tecnologia não possui moral
No entanto, como bem discutíamos à mesa, a tecnologia é um vetor sem moral própria; o sentido quem dá é a mão que a conduz. Um automóvel, que nos permite percorrer em minutos distâncias que nossos avós levariam dias a cavalo ou em charretes, é um instrumento de liberdade. Contudo, em mãos desatentas ou mal-intencionadas, torna-se um projétil capaz de ceifar vidas. O problema nunca foi o motor, mas a responsabilidade de quem segura o volante.
O mesmo se aplica ao pequeno dispositivo que carrego no bolso. Ele pode ser a grade de uma cela invisível, onde o homem se escraviza em algoritmos de ódio e futilidade, ou pode ser a ponte que me permite, em plena zona rural, acessar o conhecimento universal e partilhar estas crônicas com vocês. A diferença entre o “uso” e o “mau uso” reside na assertividade e, acima de tudo, na intenção.
A função de cada um
A grande armadilha da metrópole é nos fazer acreditar que somos engrenagens. Aqui, aprendi o contrário: a engrenagem é a máquina. Eu sou o agente que a faz funcionar, poupando tempo para as coisas que só o espírito pode realizar.
A vida no ritmo da luz não é uma fuga do progresso, mas o encontro do cansaço com a paz. E se a máquina sabe lavar a roupa, que ela lave com perfeição, enquanto nós nos ocupamos da tarefa muito mais árdua e gloriosa de lavar a alma com a beleza da vida das palavras partilhadas.
Na simplicidade da vida no campo, aprendemos que cada criatura e cada ferramenta possui sua própria função. Uma máquina de lavar, em sua insistente e solitária dança de águas, não realiza apenas um serviço doméstico; ela cumpre sua função.
Assim como o homem deve encontrar seu propósito, as coisas do mundo encontram seu repouso na utilidade. Respeitar a função de cada um consiste em reconhecer que a ordem da criação é uma harmonia onde ninguém precisa ser tudo. Basta ser o que nasceu para ser, exatamente como Deus imaginou que seríamos.
Por Afonso Pessoa





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