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Leão XIV recebeu em audiência a Arcebispa de Canterbury

A visita de Sarah Mullally a Roma acontece em um momento de grave crise interna no Anglicanismo.

Foto: Vatican Media

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Redação (27/04/2026 09:45, Gaudium Press) O Papa Leão XIV recebeu em audiência privada, nesta segunda-feira, 27 de abril, a arcebispa Sarah Mullally, primaz da Comunhão Anglicana e primeira mulher a ocupar o cargo de Arcebispo de Canterbury.

Ao dar as boas-vindas à líder anglicana, o Santo Padre destacou a importância de um testemunho dos cristãos em unidade. “Nosso mundo que sofre tem grande necessidade da paz de Cristo, e as divisões entre os cristãos enfraquecem nossa capacidade de sermos portadores eficazes dessa paz”, afirmou o Pontífice.

No início de seu discurso, o Papa relembrou o encontro histórico entre Paulo VI e o Arcebispo Michael Ramsey, ocorrido há exatamente sessenta anos, que marcou o início do diálogo ecumênico moderno entre católicos e anglicanos.

“Desde então, os arcebispos de Canterbury e os bispos de Roma têm continuado a se encontrar e a rezar juntos. Alegro-me que hoje perpetuemos essa tradição”, disse Leão XIV. Ele também saudou o trabalho do Centro Anglicano em Roma, fundado na mesma época, e cumprimentou especialmente o diretor, Monsenhor Anthony Ball, que a arcebispa nomeará como seu representante junto à Santa Sé.

Foto: Vatican Media

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 “A paz desarmada” de Cristo Ressuscitado

O Papa refletiu sobre as primeiras palavras de Jesus após a Ressurreição: “A paz seja convosco” (Jo 20,19). Para Leão XIV, essa saudação não é apenas um convite para os cristãos acolherem o dom da paz do Senhor, mas também um chamado para se tornarem mensageiros dessa paz.

“Tenho repetido com frequência que a paz de Jesus ressuscitado é ‘desarmada’. Ele sempre respondeu à violência e à agressão de modo desarmado, convidando-nos a fazer o mesmo”, ressaltou o Pontífice, citando sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano.

Unidade como condição para a evangelização

O Papa enfatizou que, para que o mundo leve a sério a pregação cristã, os fiéis precisam perseverar na oração e no esforço para remover todos os obstáculos que impedem a proclamação do Evangelho.

Essa insistência na unidade como serviço à evangelização tem sido um tema constante em seu ministério, refletido inclusive em sua divisa episcopal: “In Illo uno unum” – “No Único – isto é, em Cristo – somos um”, inspirada em Santo Agostinho.

Realismo diante das divergências

A audiência ocorre em um contexto marcado por profundas divergências doutrinais dentro da própria Comunhão Anglicana, especialmente em torno da figura controversa de Sarah Mullally. Como primeira mulher a ocupar o cargo, ela simboliza avanços na ordenação de mulheres e posições em questões doutrinais sensíveis, o que gera forte oposição interna e externa.

Diante dessa realidade, o Papa Leão XIV adotou um tom sóbrio e realista, sem esquivar as dificuldades. Ele reconheceu explicitamente que “nas últimas décadas, surgiram novos problemas, tornando mais difícil discernir o caminho rumo à plena comunhão”. O Pontífice também afirmou: “Eu sei que a Comunhão Anglicana está enfrentando muitas dessas mesmas questões no presente”.

Embora reconheça os progressos em algumas questões históricas de divisão, Leão XIV admitiu que esses novos desafios complicam o diálogo. Ainda assim, ele exortou: “Não devemos deixar que esses desafios constantes nos impeçam de aproveitar todas as oportunidades possíveis para proclamar juntos Cristo ao mundo”.

O Papa citou as palavras de seu predecessor, o Papa Francisco, ao primaz anglicano em 2024: “Seria um escândalo se, por causa de nossas divisões, não cumpríssemos nossa vocação comum de dar a conhecer Cristo”. E acrescentou que também seria “um escândalo também se não continuássemos a trabalhar para superar as nossas diferenças, por mais insuperáveis que possam parecer”.

Um apelo ao Espírito Santo

Ao final do encontro, o Santo Padre desejou que o Espírito Santo, o mesmo que Jesus soprou sobre os discípulos na noite da Ressurreição, guie os passos de católicos e anglicanos “na oração e na humildade, em busca da unidade que é vontade do Senhor para todos os seus discípulos”.

Leão XIV agradeceu à Arcebispa Sarah Mullally pela visita e rezou para que o Espírito Santo a acompanhe sempre, tornando seu serviço fecundo.

Assim, por trás do tom sóbrio e equilibrado, o Papa Leão XIV não ignorou as críticas nem as dificuldades existentes. O encontro se configura como um delicado exercício de equilíbrio: manter vivo o diálogo ecumênico necessário, ao mesmo tempo em que recorda, com discrição, mas com firmeza, a realidade das divergências doutrinais que ainda marcam as relações entre católicos e anglicanos.

Polêmica

Foto: Catolicfluencers Influencers Catolicos/ Facebook

Foto: Catolicfluencers Influencers Catolicos/ Facebook

A visita de Sarah Mullally a Roma, organizada como uma peregrinação de quatro dias (de 25 a 28 de abril), foi marcada por polêmica desde o início. Imagens e vídeos divulgados nas redes sociais mostraram a arcebispa anglicana dando uma bênção na Capela Clementina, exatamente abaixo do altar-mor da Basílica de São Pedro e considerado o ponto mais próximo da tumba do apóstolo Pedro.

Nas imagens, é possível ver um bispo se persignando ao receber a bênção da líder anglicana, um gesto que intensificou o debate sobre o significado teológico do ocorrido. A cena provocou uma forte repercussão e intensos debates em meios católicos conservadores.

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