Um Deus que é Cordeiro, Bom Pastor e Porta do Redil
Se a voz do Maligno levou nossos primeiros pais a sair do Paraíso Terrestre, a voz de Cristo nos permite cruzar novamente as portas do Paraíso Celeste.

Foto: Francisco Lecaros
Redação (26/04/2026 10:26, Gaudium Press) Qualquer ação do Salvador, por mais ínfima que fosse, teria sido suficiente para satisfazer completamente a pena devida ao pecado original; não, porém, o seu amor por nós. E por isso reza o Cântico do Cânticos: “O amor é forte como a morte” (Ct 8,6).
Com feito, que outra coisa poderia saciar esta ardente chama de amor que é o Sagrado Coração de Jesus, senão a sua morte redentora? O amor não é senão exagero, e só ama verdadeiramente aquele que está disposto a fazer tudo pelo seu amado. Eis a razão pela qual o Criador quis fazer-se em tudo igual ao homem, exceto no pecado.
Assim sendo, neste 4º Domingo do Tempo Pascal, a Santa Igreja desvenda-nos um pouco mais desta, por assim dizer, demasiada caridade de um Deus que, por amor dos homens, quis fazer-se Cordeiro para resgatar as ovelhas desgarradas de seu redil.
“Hoje, se ouvirdes a voz do Senhor…”
Sem sombra de dúvida, podemos afirmar que, nas breves linhas do Evangelho de hoje, encontra-se sintetizada toda a História da Salvação:
“Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10,2-4).
Sabemos, com efeito, que Deus, após ter criado o homem com o húmus desta terra, introduziu-o no Paraíso, e fê-lo participante de sua amizade através da graça. Desejando, porém, conceder-lhe não apenas os benefícios de uma vida pacífica, mas também heroica, outorgou-lhe ainda a Providência uma ocasião de mostrar sua fidelidade, fazendo-o passar por uma prova: “não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás” (Gn 2,17).
Oh! Que infeliz momento este de nossa história, em que o primeiro casal, desobedecendo ao mandato divino, optou por seguir a voz do pérfido tentador! O preço de sua ganância seria imediatamente pago: até o advento do Redentor, as portas das mansões celestes lhes estariam irremediavelmente vetadas. Por consequência, a humanidade, durante milhares de anos, erraria por entre as sombras da morte, à espera d’Aquele que seria a “luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem” (Jo 1,9).
Quem mais anelava por este momento, no entanto, não era um ser humano, mas o próprio Sagrado Coração de Jesus, a quem poderiam se aplicar as palavras da Escritura: “Meu coração se revolve dentro de mim, eu me comovo de dó e compaixão” (Os 11,8). Com efeito, se é verdade que o amor torna o amante semelhante ao amado, é igualmente verdade que o amor levou Nosso Senhor Jesus Cristo a tomar nossa carne mortal, fazendo-se Cordeiro no meio das ovelhas.
Há mais ainda: foi pela Encarnação que o Cordeiro de Deus se tornou o Bom Pastor, caminhando à nossa frente, conforme diz o Evangelho: Ele “caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz”. Mas Cristo não é apenas Cordeiro e Pastor, Ele é também a Porta do Redil. Por Ele, os Pórticos do Céu, fechados pelo pecado, foram novamente abertos para nós.
Tais considerações enchem-nos de admiração e gratidão para com o nosso Salvador. Contudo, não podemos deixar de lado uma pergunta de máxima importância: qual é a condição para cruzarmos estas portas? Ora, apenas uma: escutar a voz de Deus.
Com efeito, no início da narração do Gênesis, o pecado de Adão e Eva se deveu justamente ao fato de eles terem dado ouvidos à voz do tentador. O resultado? Permaneceram insensíveis quando Deus os chamou pelo nome. E por que ficaram insensíveis à voz Deus? Porque, apesar de a terem ouvido, não a escutaram. Não se trata aqui de um mero jogo de palavras. Para obedecer à voz do Pastor, não basta ouvi-la; é preciso escutá-la, ou seja, que lhe demos atenção.
Por conseguinte, narram as Sagradas Escrituras que o primeiro casal, após ter ouvido a voz de Deus, escondeu-se no jardim porque estava nu (Cf. Gn 3,10). O mesmo fenômeno sói acontecer com as pessoas em nossos dias. Vendo-se despidas da túnica batismal pelo pecado mortal, preferem esconder-se neste estado nefando durante anos a pedir perdão a Deus. Quanto mais o Bom Pastor as chama pelo nome, tanto mais elas se mostram indiferentes ao seu amor, optando por dissimular sua culpa.
Neste 4° Domingo da Páscoa, a Providência nos dirige um amoroso convite, pedindo que nos confiemos ao seu infinito amor. Para isso, basta fazer, em primeiro lugar, uma boa Confissão, sem ocultar nenhuma culpa Àquele que diz: “não darei curso ao ardor de minha cólera, porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti, e não gosto de destruir” (Os 11,9).
Em segundo lugar, somos chamados a nos afastarmos das ocasiões de diálogo com o Maligno, que procura sempre fechar nossos ouvidos à voz de Deus impondo a sua. Esta, por sua vez, pode se apresentar de várias formas: modas, más amizades, revistas, programas de televisão, lugares indecentes, músicas. Não permitamos que as seduções diabólicas nos endureçam o coração, induzindo-nos ao ódio contra Aquele que, por amor de nós, se fez Cordeiro, Pastor e Porta do Céu.
Por Valter Gonçalves





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