Testemunho de Dom Georg Gänswein sobre a renúncia de Bento XVI
O secretário pessoal de Bento XVI revela os momentos mais íntimos da renúncia, em entrevista com Ezio Mauro para o documentário sobre o pontificado de Francisco.
Redação (20/04/2026 17:28, Gaudium Press) No docufilm “Francesco – Cronache di un papato”, dirigido pelo jornalista italiano Ezio Mauro, o arcebispo alemão Dom Georg Gänswein — secretário particular de Bento XVI e atual núncio apostólico nas Repúblicas Bálticas — oferece um depoimento de primeira mão sobre um dos momentos mais singulares da história recente da Igreja Católica: a renúncia do Papa Joseph Ratzinger, em fevereiro de 2013.
Com emoção contida, Dom Gänswein recorda o instante em que deixou para sempre o Palácio Apostólico, residência oficial dos papas. Ele foi o último a sair do apartamento papal.
“A primeira coisa que lembro é a despedida do Palácio Apostólico. Eu fui o último a deixar o apartamento, apaguei as luzes — isso já foi para mim um ato muito comovente, mas também muito triste. Fechei a porta. E depois saímos”, contou o arcebispo.
Ele não escondeu as lágrimas: “Eu me comovi, e quando vi o Cardeal Comastri chorando, algo se rompeu dentro de mim. Tentei me conter, mas a pressão era grande demais, uma espécie de tsunami por cima, por baixo, dos lados. Eu já não sabia mais onde estava.”
Quando soube da decisão
Gänswein revelou que Bento XVI lhe comunicou a intenção de renunciar ainda no final de setembro de 2012, em Castel Gandolfo. A reação do então prefeito da Casa Pontifícia foi imediata e sincera:
“Santo Padre, é impossível, isso simplesmente não é possível.” E foi além: “Eu disse diretamente, como estou falando agora com o senhor: Santo Padre, não. Pode-se e deve-se pensar em reduzir os compromissos, isso sim. Mas renunciar é impossível.”
Com serena firmeza, o Papa Ratzinger respondeu que não se tratava de uma tese a ser debatida, mas de uma decisão já tomada. “Não é uma quaestio disputanda, está decidida”, teria dito.
Olhando para trás, o arcebispo admite que houve sinais que ele não soube interpretar na época. “No início de julho, percebi que o Papa estava muito fechado, muito pensativo. Achei que era concentração no terceiro volume sobre Jesus, que ele estava terminando. Quando, no final de setembro, ele me revelou a decisão, entendi que eu tinha me enganado: não era o livro que o preocupava, mas a luta interna dessa decisão, um verdadeiro desafio.”
O dia do anúncio histórico
No dia 11 de fevereiro de 2013, festa de Nossa Senhora de Lourdes, Gänswein acompanhou o Papa até o Consistório em silêncio absoluto. “Não falamos nada. O silêncio era total, porque não era o momento das palavras.”
Bento XVI leu o anúncio de sua renúncia em latim — uma escolha deliberada, pois, segundo o próprio Papa, “um anúncio assim deve ser feito na língua da Igreja, a língua mãe”. Na sala, os cardeais ficaram confusos até que as palavras do Cardeal Angelo Sodano, que falou de “um raio em céu sereno”, tornaram o fato plenamente compreensível para todos.
O Papa que se ajoelha diante da história
Questionado se a renúncia de Ratzinger tornou o papado “mais humano”, Gänswein refletiu:
“O sagrado é sagrado e também tem aspectos humanos. Acho que, com sua renúncia, o Papa Bento demonstrou que o Papa, sendo sempre o sucessor de Pedro, continua sendo uma pessoa humana, com todas as suas forças, mas também com suas debilidades. E são necessárias as duas coisas. Porque é preciso força para aceitar a própria debilidade.”
A primeira impressão de Ratzinger
O prelado também recordou o primeiro encontro pessoal com Joseph Ratzinger, em 10 de janeiro de 1995, no Colégio Teutônico do Vaticano. Sua impressão inicial permanece viva:
“Uma personalidade forte, mas muito natural. Manso, mas muito, muito decidido.”
Três papas, três dimensões
No contexto do docufilm dedicado a Francisco, Gänswein teve a oportunidade de refletir sobre os três pontífices que conheceu de perto: João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Quando lhe sugeriram identificar João Paulo II com a alma, Ratzinger com a razão e Francisco com o coração, ele respondeu com elegância e cautela:
“As três palavras são corretas, mas também são simples demais.”
O testemunho de Dom Georg Gänswein no docufilm de Ezio Mauro não é apenas um relato histórico. É o registro emocionado de um homem que viveu de perto um dos gestos mais radicais e humildes da modernidade eclesial: um Papa que, reconhecendo seus limites, escolheu se retirar para que a Igreja pudesse continuar seu caminho.






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