Homilia do Cardeal Damasceno na ordenação de 26 novos sacerdotes dos Arautos do Evangelho
“Vocês não receberão hoje, simplesmente, uma função na Igreja, longa e pacientemente esperada, mas, ao serem configurados a Cristo Sacerdote, serão inseridos na missão do próprio Cristo”.
Redação (11/04/2026 16:47, Gaudium Press) No segundo domingo da Páscoa, conhecido como Domingo da Misericórdia Divina, a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, em Caieiras (Grande São Paulo), tornou-se palco de uma celebração repleta de solenidade e esperança. Durante a ordenação presbiteral de 26 diáconos da Sociedade Apostólica Virgo Flos Carmeli – ramo clerical dos Arautos do Evangelho –, o Cardeal Raymundo Damasceno Assis, Arcebispo Emérito de Aparecida, proferiu uma profunda homilia centrada no mistério pascal e no coração do sacerdócio ministerial.
Partindo do Evangelho de São João (Jo 20,19-31), o Cardeal destacou que a Ressurreição de Cristo revela, antes de tudo, a Misericórdia como o próprio modo de Deus vir ao encontro do homem ferido, amedrontado e fechado em si mesmo. “Não se trata apenas de um atributo de Deus, mas do próprio modo como Ele vem ao encontro do homem ferido, escondido, trancado, temeroso, como estavam os discípulos”, afirmou.
Configurados a Cristo Sacerdote
O Cardeal chamou a atenção para a cena em que, “estando fechadas as portas, Jesus entrou e pôs-se no meio deles”. Esta é a primeira imagem do Cristo Ressuscitado que devemos guardar: Ele não espera que criemos condições favoráveis; Ele mesmo toma a iniciativa, atravessa nossas barreiras, vence nossos medos e coloca-se no centro de nossa vida. Suas primeiras palavras são sempre de paz: “A paz esteja convosco”.
Essa paz, porém, não é mero consolo. Ela restaura a fé e transforma-se imediatamente em missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, dirigindo-se diretamente aos ordenandos, o Cardeal enfatizou o cerne do sacerdócio: “Vocês não receberão hoje, simplesmente, uma função na Igreja, longa e pacientemente esperada, mas, ao serem configurados a Cristo Sacerdote, serão inseridos na própria missão de Cristo”. Uma missão que se concretiza especialmente no poder de perdoar os pecados: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”.
Permanecer na misericórdia
O Cardeal recordou que o sacerdócio brota “do coração de Deus, das entranhas de Sua misericórdia”. Para que esse ministério permaneça vivo e frutuoso, os novos sacerdotes devem manter sempre a consciência de sua origem divina e “permanecer no âmbito da misericórdia”. Isso significa deixar que a misericórdia modele toda a vida: nos pequenos gestos, nas atitudes concretas, no modo de celebrar, de acolher e de falar. A graça interior deve “transparecer exteriormente como reflexo da beleza de Deus que se comunica ao mundo”.
A primeira leitura (At 2,42-45) foi apresentada como um “ícone luminoso” a Igreja nascente: perseverança na doutrina dos apóstolos, comunhão fraterna, fração do pão e oração. Essa imagem não deve ser um ideal distante, mas o fruto concreto da presença do Ressuscitado nas comunidades que serão confiadas aos novos presbíteros. A eficácia do sacerdócio não se medirá tanto pelo que se organiza ou realiza exteriormente, mas pelo que se ajuda a nascer: comunhão, fé, vida sacramental e caridade concreta.
Fidelidade que gera futuro
Citando a Carta Apostólica Uma fidelidade que gera futuro, do Papa Leão XIV (8 de dezembro de 2025), o Cardeal Damasceno reforçou que a renovação da Igreja depende em grande parte do ministério sacerdotal animado pelo espírito de Cristo — espírito de misericórdia que cria comunhão, e “essa comunhão, quando é verdadeira, torna-se também bela, luminosa, atraente”. O cardeal ressaltou que a vida cristã deve ser vivida com autenticidade para tocar os corações. “Por isso, há um profundo valor em cultivar, inclusive nas expressões externas da fé, uma dignidade, uma ordem, uma beleza que elevem as almas a Deus”.
Da segunda leitura (1Pd 1,3-9), destacou a “esperança viva” nascida da Ressurreição. O sacerdote é aquele que crê antes de ver e ama antes de possuir, como Jesus ensinou a São Tomé: “Felizes os que creram sem ter visto”. Ele é homem das bem-aventuranças escondidas, que vive da fé, sustenta-se na esperança e irradia uma alegria que não depende das circunstâncias, mas da comunhão com Cristo. “A busca da santidade não se limita ao interior, mas tende a envolver toda a pessoa, fazendo com que cada gesto, cada atitude, cada expressão da vida seja, de algum modo, reflexo da perfeição a que o Senhor nos chama: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.” (Mt, 5,48), acrescentou Dom Damasceno.
O Cardeal insistiu ainda na importância da comunhão eclesial. Tomé não estava com a comunidade quando Jesus apareceu, e por isso demorou a crer. “A fé nasce e cresce na comunhão”. O sacerdote é, por vocação, homem de comunhão: com a Igreja universal, com o Santo Padre, com o Magistério, com o carisma de sua família espiritual e com as Igrejas locais.
“Antes de conduzir o rebanho, o pastor deve recordar constantemente que ele próprio é discípulo”, citou o Papa Leão XIV. Por isso, os novos sacerdotes jamais devem deixar de responder diariamente à pergunta de Jesus: “Tu me amas?”.
Amor misericordioso que se dá sem medidas
Encerrando sua homilia com tom paternal, o Cardeal exortou os ordenandos a serem homens da misericórdia: generosos no confessionário, disponíveis para ouvir e acompanhar, zelosos em ir ao encontro das pessoas em suas realidades concretas. Tudo deve ser feito com espírito de fé, zelo apostólico e dignidade, manifestando aquela beleza autêntica que é reflexo da verdade: “a mais alta revelação da verdade que se encontra no rosto, no corpo desfigurado de Nosso Senhor, cravado na cruz por nossos pecados. Aí está a beleza suprema: o amor misericordioso que se dá sem medidas”.
“Jamais deixem de contemplar como Cristo se manifesta”, concluiu. Mostrando as mãos feridas e o lado aberto, o Senhor revela as “portas de entrada de Sua misericórdia”. O sacerdote não anuncia uma teoria, mas testemunha um amor ferido, entregue e vivo. Como repetia o Santo Cura d’Ars: “O sacerdócio é o amor do coração de Jesus”.
Que o Senhor conceda a esses novos presbíteros a graça de permanecerem nesse amor. “Permanecendo no amor de Jesus, a fidelidade de cada um de vocês será verdadeiramente fecunda, será uma fidelidade que gera futuro. E, assim, nessa mesma medida, serão felizes em Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, Bom Pastor e Mestre da verdadeira humanidade, transfigurada em Seu amor”.
Dom Raymundo Cardeal Damasceno Assis










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