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Espanha: vida consagrada perdeu mais de 25 mil religiosos em uma década

A 55ª Semana Nacional dos Institutos de Vida Consagrada reuniu em Madri centenas de religiosos para refletir sobre o assunto, também em tempos de crise: nos últimos dez anos, a Espanha perdeu praticamente metade de seus consagrados.

Foto: itvr.org

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Redação (10/04/2026 09:56, Gaudium Press) Centenas de religiosos e religiosas se reuniram em Madrid, entre os dias 8 e 11 de abril de 2026, na 55ª Semana Nacional para Institutos de Vida Consagrada. O encontro, organizado pelo Instituto Teológico de Vida Religiosa (ITVR), dos Missionários Claretianos, teve um lema direto e desafiador: “Afrontar a redução. Caminhando e habitando no deserto”.

O tema não foi escolhido por acaso. A vida consagrada na Espanha enfrenta uma das crises mais graves de sua história recente: em apenas dez anos, o país perdeu praticamente metade de seus religiosos.

Em 2013, os institutos religiosos e sociedades de vida apostólica ligados à Conferência Espanhola de Religiosos (CONFER) somavam 57.986 membros. Em 2023, esse número havia caído para 32.531 — sendo 24.740 religiosas e 7.791 religiosos —, distribuídos em 4.111 comunidades. A perda supera 25 mil consagrados em pouco mais de uma década.

Os números de entrada não compensam as saídas e as mortes. Em 2022, havia apenas 1.279 pessoas em formação (noviços e religiosos de votos temporais), uma quantidade insuficiente para repor as baixas naturais.

Uma pirâmide demográfica invertida

Hoje, na maior parte das congregações europeias, a maioria dos religiosos em atividade já passou da idade de aposentadoria. Em muitas comunidades, a pirâmide etária está completamente virada: a faixa mais numerosa é a dos que se aproximam ou ultrapassam os 80 anos.

Noviciados quase vazios, abandono da vida religiosa, projetos apostólicos que vão sendo reduzidos ou fechados e que, em outros tempos, pareciam sólidos, e uma sensação de envelhecimento acelerado marcam o dia a dia de muitas congregações. O próprio ITVR descreve a situação com clareza: a vida consagrada no mundo ocidental sofre de “mal-estares diversos”, entre os quais se destaca a redução progressiva de membros e atividades, ligada à crise das comunidades de fé e ao “inverno vocacional” que atinge as Igrejas nessas latitudes.

O contexto social que explica o declínio

Os dados de prática religiosa ajudam a entender o cenário. Segundo o barômetro do CIS de abril de 2025, apenas 18,7% dos espanhóis se declararam católicos praticantes — contra os cerca de 70% que cumpriam o preceito dominical em 1973. Entre os jovens de 18 a 24 anos, 58,4% se identificaram como não crentes, ateus ou agnósticos, enquanto apenas 34,2% dizem ser católicos.

O número de batismos de bebês e de crianças que fazem a Primeira Comunhão já está abaixo de 50%, com tendência de queda. Em contraste, em 1971, o Anuário Pontifício registrava 99,4% de espanhóis batizados.

Antonio Bellella, diretor do ITVR, resumiu o diagnóstico na abertura do encontro: “Nos estamos quedando en los huesos” (Estamos ficando só pele e osso). Segundo ele, o processo atinge todos os âmbitos da vida consagrada: a fé, a vocação, a missão e a fraternidade.

Entre os fatores apontados estão:

– A secularização acelerada da sociedade;

– A baixa natalidade (as famílias veem como “perda” um filho que escolhe a vida consagrada);

– A crise do compromisso vitalício;

– O abandono da vida religiosa;

– E a perda de credibilidade institucional associada aos casos de abusos.

Obras sociais e educativas em risco

A Conferência Episcopal Espanhola e as principais congregações alertaram para as consequências desse declínio, que coloca em risco a sustentabilidade de muitas obras sociais e educacionais promovidas por comunidades religiosas. O fenômeno não é exclusivo da Espanha, mas o caso espanhol é um dos mais acentuados da Europa, especialmente devido à rapidez com que o declínio ocorreu.

A redução drástica de efetivos já obriga muitas congregações a repensar sua presença. “Já não podemos estar em todos os lugares nem animar como antes”, reconhecem os religiosos. Muitas obras precisam ser deixadas ou assumidas com menor protagonismo, para não fragmentar as comunidades e perder a vida em comum.

Ainda assim, os 403 institutos religiosos ligados à CONFER mantêm presença ativa nos campos de educação, saúde e assistência social. Além disso, existem cerca de 690 mosteiros de vida contemplativa, com aproximadamente 7.449 monjas e monges de clausura.

Uma mensagem de esperança

Na homilia de abertura, o bispo de León e missionário claretiano, Mons. Luis Ángel de las Heras, presidente da Comissão Episcopal para a Vida Consagrada, ofereceu um tom de esperança:

 “A Igreja precisa de uma vida consagrada menos preocupada em contar casas, religiosos e obras, e mais decidida a aprender a seguir a Cristo, mesmo que seja com passo lento e com bengala.”

O bispo agradeceu ao ITVR por criar espaços de discernimento e comunhão, e convidou as comunidades a viverem esta etapa “sem pressas nem nostalgias”, com profundidade espiritual e fidelidade ao carisma próprio.

A 55ª Semana Nacional deixou claro que a vida consagrada na Espanha não está diante de um “desastre”, mas de um processo de remodelação. O desafio agora é discernir o que deve ser deixado, o que deve ser reinventado e, sobretudo, redescobrir o essencial — seguir a Cristo no mundo de hoje.

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