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Rei da Inglaterra não transmitiu mensagem de Páscoa

Rei não deseja “Feliz Páscoa”: a ambígua relação de Carlos III com o Cristianismo. O monarca britânico parece apreciar o Islã e outras religiões mais do que o Cristianismo.

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Redação (07/04/2026 08:43, Gaudium Press) Desde o reinado de Henrique VIII, o soberano inglês acumula o título de Cabeça Suprema da Igreja da Inglaterra, resultado da ruptura com Roma que deu origem ao anglicanismo. Além disso, carrega o título de Defensor da Fé (Defender of the Faith), ironicamente concedido pelo próprio Papa Leão X a Henrique VIII, antes da cisão, por um livro em que o rei defendia os sacramentos católicos — um texto que, em grande parte, contraria as doutrinas anglicanas atuais.

Diante dessa posição única como líder da religião protestante oficial da Inglaterra, seria razoável esperar que o monarca demonstrasse, no mínimo, um interesse especial pelo Cristianismo, fé professada pela maioria de seus súditos ingleses. Há décadas, porém, isso não acontece com a mesma naturalidade de outrora.

Não é costume antigo na Inglaterra que o rei ou a rainha envie felicitações públicas pela Semana Santa ou pela Páscoa, havendo mensagens ocasionais ao longo dos anos. A rainha Elisabeth II só o fez uma única vez, durante a pandemia de covid-19. Já o rei Carlos III enviou uma mensagem de Páscoa no ano passado (2025), publicada na Quinta-Feira Santa.

No texto, o monarca destacou que “na Quinta-Feira Santa, Jesus se ajoelhou e lavou os pés de muitos daqueles que o abandonariam” e que “seu gesto humilde foi uma demonstração de seu amor, que não tinha limites nem fronteiras e é fundamental para as crenças cristãs”.

Curiosamente, o rei não afirmou que o amor de Cristo é fundamental em si, mas sim “para as crenças cristãs”, como se distanciasse pessoalmente dessa convicção. Mais reveladora ainda foi a continuação: “O amor que [Jesus] mostrou quando esteve nesta terra refletia a ética judaica de cuidar dos estrangeiros e dos necessitados, um profundo instinto humano que encontra eco no islamismo e em outras tradições religiosas, bem como no coração de todos os que buscam o bem dos outros”.

O contraste com o Ramadã

Parece que, no discurso da família real britânica, não se pode mencionar o cristianismo sem citar também outras religiões, especialmente o judaísmo e o islamismo. O contraste fica evidente quando comparamos com a mensagem enviada pela família real aos muçulmanos por ocasião do fim do Ramadã, há poucas semanas.

Neste ano de 2026, a família real desejou “a todos os muçulmanos do Reino Unido, da Commonwealth e do mundo um bendito e tranquilo Ramadã”, acompanhado de um gráfico com a expressão “Ramadan Mubarak” (bendito Ramadán), muito semelhante àquele publicado este ano na Espanha pela Diocese de Almería. Não houve qualquer menção aos cristãos ou ao cristianismo na mensagem.

Após esse cumprimento ao Ramadã, muitos cristãos britânicos esperavam uma mensagem semelhante para a Páscoa — ainda que com as habituais inclusões plurirreligiosas. O deputado Richard Tice escreveu nas redes sociais: “Depois de suas simpáticas mensagens pela Festa do Cordeiro e pelo Ramadã, esperamos ansiosamente uma calorosa mensagem de Páscoa do Rei Carlos III em seu papel de Defensor da Fé da Igreja da Inglaterra”.

A ironia não passou despercebida. Recentemente, o Palácio de Buckingham confirmou que o Rei Carlos não publicará mensagem de Páscoa este ano. O mais significativo é que o esforço para confirmar oficialmente a ausência da mensagem poderia ter sido usado para redigir um simples “Feliz Páscoa”. Essa decisão deliberada de não dizer sequer uma frase curta revela uma escolha intencional, especialmente num momento em que as tensões migratórias e culturais atingem níveis elevados nas ilhas britânicas.

Um rei que não parece compartilhar as crenças cristãs

Antes mesmo de subir ao trono, Carlos III já dava sinais claros de que não adere plenamente às “crenças cristãs” mencionadas em sua mensagem do ano passado. Em 1994, ao falar sobre o título de Defensor da Fé, ele declarou preferir ser visto como “defensor de fé” (defender of faith), sem o artigo definido, “porque isso significaria uma interpretação particular do que é a fé”.

A agência cristã britânica Christian Enquiry Agency limita-se a dizer, educadamente, que o monarca “compartilha alguns aspectos da fé”. Ele costuma falar do cristianismo em termos secularizados (“a fé nas pessoas”, por exemplo) ou colocando outras religiões em pé de igualdade.

Essa relação ambivalente com o anglicanismo que teoricamente preside gerou ao longo dos anos inúmeras interpretações e rumores. Em 1996, o Grande Mufti de Chipre, Nazim Al-Haqqani, chegou a afirmar que o então príncipe Carlos havia se convertido secretamente ao islamismo durante uma visita à Turquia. “Sabia que o príncipe Carlos se converteu ao Islã? Sim, sim. Ele é muçulmano”, declarou. O Palácio de Buckingham descartou as afirmações como absurdas.

Seja qual for a verdade sobre as convicções pessoais do rei, o que se observa é uma clara preferência pela abordagem inter-religiosa e pluralista. No exercício do cargo de “Defensor da Fé”, Carlos III parece mais à vontade defendendo a fé em geral do que a fé cristã em particular — mesmo sendo, constitucionalmente, o governador supremo da Igreja da Inglaterra.

Num país onde o cristianismo ainda é a religião majoritária, a ausência intencional de uma simples mensagem de Páscoa diz mais do que muitos discursos. É o silêncio eloquente de um monarca que, ao que tudo indica, prefere ser visto como ponte entre todas as fés do que como guardião de uma em especial.

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