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O Senhor precisa deles, mas logo os devolverá

“O justo é generoso e dá esmola”, diz a Escritura. Será que a esmola só pode ser oferecida aos pobres, ou pode ser também dada a Deus?

Foto: reprodução

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Redação (28/03/2026 18:07, Gaudium Press) No Domingo de Ramos, a Santa Igreja nos apresenta uma liturgia que parece paradoxal. De um lado, contemplamos a adorável figura de um Messias que é triunfalmente recebido na cidade Santa; de outro, a pungente efígie de um Redentor flagelado, entregue para ser crucificado. Naturalmente, uma pergunta se assoma à nossa mente: qual a relação entre o “Hosana” e o “Crucifica-o”?

Ora, é muito fácil dar uma resposta, ainda que não seja tão simples de compreendê-la: o triunfo, a cruz e a glória são, para qualquer cristão, conceitos indissociáveis.

Afinal, os membros desse Corpo Místico — que é a Igreja — não poderiam gloriar-se de outra coisa senão de terem sua cabeça coroada de espinhos. Por isso, afirma o Papa Pio XII: “isto mesmo já é prova evidente de que a verdadeira glória e grandeza não nascem senão da dor”.[1] Se Deus adornou o seu próprio Filho com esta coroa, que outro ornamento poderíamos desejar para nós, os coerdeiros de Cristo no Céu?

Assim sendo, caro leitor, cabe-nos agora saber como unir em nossa vida cotidiana estas três ideias aparentemente tão antagônicas, mas que, na realidade, são o fim último de todos católicos: configurar-se com aquele por quem foram redimidos. E o Evangelho da Procissão, no início da Missa, aponta-nos justamente o meio para isso.

“Per crucem ad lucem”

“Então Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: ‘Ide até o povoado que está ali na frente, e logo encontrareis uma jumenta amarrada, e com ela um jumentinho. Desamarrai-a e trazei-os a Mim! Se alguém vos disser alguma coisa, direis: ‘O senhor precisa deles, mas logo os devolverá’” (Mt 21,1-3).

Com efeito, Deus, em sua eterna sabedoria, quer depender da generosidade dos homens para realizar os seus insondáveis desígnios. Isso não se deve, contudo, a qualquer defeito ou lacuna em sua onipotência; antes, tal mistério de bondade explica-se unicamente pelo fato de ser Ele o Sumo Bem, que desejou desde sempre que a humanidade se associasse à sua imensa glória.

Mas qual o meio escolhido para fazê-la participar de sua perfeita felicidade? O mesmo com que presenteou o seu Filho: o sofrimento. Por isso, São Paulo afirma: “completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo” (Cl 1, 24).  De fato, o Salvador do gênero humano, por amor de nós, quis que fôssemos associados à sua missão redentora. Cada cristão é, pois, um outro Cireneu, capaz de oferecer alento ao Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo. É por esta razão que todo católico, ao longo de sua vida, se depara continuamente com a doce voz de Cristo, que lhe interroga: “estás disposto a ajudar-Me a carregar a cruz?”

Contudo — poderia inquirir o leitor —, como se apresenta esse divino sussurro? Cada homem é extremamente distinto dos demais, e goza de um chamado singular diante de Deus. Mas, para realizá-lo, o Todo-Poderoso outorga determinados dons, dos quais a pessoa deverá fazer uso para cumprir a sua vocação. Eles são, como que, os meios naturais de que Deus se servirá para realizar seus desígnios. Aperfeiçoá-los e devolvê-los ao Criador é, portanto, o melhor modo de a criatura honrar Aquele que a fez.

Dessarte, é patente que esse suavíssimo sussurro — presente na vida de todo fiel batizado — pede-nos especialmente uma coisa: que utilizemos destes dons, conferidos pelo mesmo Deus, para louvá-Lo e servi-Lo nesta terra.

Com efeito, vemos que Nosso Senhor manda dois de seus discípulos buscarem, na casa de uma pessoa anônima, uma jumenta, e com ela um jumentinho. Ora, este animal tão simples, para espanto da história, será a sede gestatória sobre a qual o Messias entrará triunfante em Jerusalém.

O mesmo ocorre conosco, pois esta frase, “o Senhor precisa deles, mas logo os devolverá”, também nos é continuamente repetida pelo Salvador. De que precisa Ele? De nossos dons, ainda que sejam tão ínfimos quanto uma jumenta. Quais dons?

Uma contribuição material, por exemplo, ou uma obra de misericórdia. Mas esse dom pode ser também um bom exemplo ou um bom conselho. Afinal, a nossa voz não foi dada por Deus para servi-Lo? São João Batista era a voz pela qual Cristo, a Palavra de Deus, era anunciado. Uma vez ouvida, a voz podia cessar, mas a Palavra permanecia. Estamos, pois, dispostos a ser a voz de Cristo, através da qual o Redentor poderá falar em nossa família ou em nosso trabalho?

Ademais, esse dom pode ser ainda uma qualidade natural ou até mesmo a própria vida, como é o caso dos clérigos e dos religiosos. Deus não lhes pede muitos dons: pede-lhes todos.

Não nos esqueçamos, porém, de que Nosso Senhor prometeu que logo os devolveria. Nesta terra? Sim, também. Basta ler a vida dos santos para medir o grau excelso de felicidade a que todos eles chegaram ainda neste vale de lágrimas. Mas, na Pátria Celeste, a “devolução” será incomparavelmente maior: o próprio Deus será a recompensa demasiadamente grande.

Portanto, que o nosso “Hosana” hoje não se faça ouvir apenas no meio da grande cidade de Jerusalém, mas também junto à Cruz. Somente assim seremos verdadeiros filhos da Santa Igreja Católica e de Nosso Senhor crucificado.

Por Valter Gonçalves


[1] Pio XII. Mystici Corporis, n.2.

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