Eles já estão entre nós
Não basta termos gênios que saibam calcular a rota para Marte ou decifrar idiomas extintos se não tivermos homens e mulheres que saibam o que é a caridade, a honra e o temor a Deus.
Redação (17/03/2026 09:58, Gaudium Press) Observando o teatro repetitivo das aflições humanas, confesso que me causa certa tristeza ver tanta gente depositar suas esperanças na ingênua ilusão de que a salvação do amanhã virá empacotada em cabos de fibra ótica ou nas linhas de código de uma Inteligência Artificial. Esquecem-se, porém, de que para o mundo sobreviver e se tornar um ambiente verdadeiramente salutar, quem precisa mudar é o próprio ser humano.
Felizmente, a grande e silenciosa verdade é que a Providência Divina, cuja sabedoria está acima de todas as coisas, há tempos vem preparando o terreno e já começou a enviar as sementes desse novo mundo. Os construtores do amanhã já caminham entre nós.
Eles continuam chegando, calçando sapatos infantis e brincando com bolas e bonecas, mas portando dotações específicas e intelectos que desafiam a nossa compreensão. Refiro-me às crianças com altas habilidades e superdotação, cujas mentes fervilham com uma atividade metabólica intensa, processando a realidade a uma velocidade que nos deixa atônitos.
A miopia clínica
No entanto, o que faz a nossa sociedade moderna, tão orgulhosa de sua “ciência”, diante desses pequenos prodígios? Ela se assusta. Tenta enquadrá-los, medicá-los e rotulá-los a qualquer custo. Em vez de cultivar essas habilidades, nossos olhares clínicos costumam escorregar na miopia, confundindo genialidade com distúrbio e correndo o risco de se deixar levar por diagnósticos precipitados que parecem seguir uma tendência generalizada de encaixar tudo no transtorno do espectro autista.
Felizmente, há pais e profissionais sensíveis; alguns desses pequenos conseguem ser vistos como o que realmente são: algo que não entendemos e que reflete uma glória específica de nosso Criador. Vejamos o caso de um pequeno notável do interior de São Paulo.
Com tenros três anos de idade, uma fase em que a maior vitória costuma ser o ato de deixar as fraldas, este menino já brinca com o alfabeto grego e o russo, domina sete idiomas e ostenta um impressionante QI de 132, o que lhe rendeu um lugar na prestigiada sociedade internacional Mensa.
Porém, essa criança chegou a ser avaliada para autismo, até que a obviedade de sua superdotação saltasse aos olhos.
Mães atentas
No meio dessa tempestade de genialidade, a reação mais autêntica partiu de sua mãe, que vive a lembrar ao garoto e aos outros familiares que ele é tão criança quanto as demais, adora brincar na praça e torce fervorosamente para um time de futebol.
Essa mesma infância, por vezes esquecida por nós, adultos, resiste bravamente no Ceará, onde um garoto de apenas 12 anos viu seu nome figurar na lista de aprovados do vestibular para Matemática em uma universidade estadual. A mente desse menino voa tão rápido pelas equações que os pais enfrentam um desafio que beira o cômico: precisam impor limites e dar lembretes diários para que ele pare de estudar e vá viver o lazer típico de sua idade.
Na mesma toada, conhecemos histórias como a do jovem Enzinho, também de 12 anos, que já se debruça sobre apostilas de cursinhos preparatórios com a inabalável decisão de cursar Medicina.
O desafio pedagógico
Como podemos observar, essa genialidade não se restringe aos números ou aos idiomas. A sensibilidade estética também floresce de maneira surpreendente e precoce. Há crianças com altas habilidades musicais que, antes mesmo dos seis anos de idade, já possuem uma apreciação profunda por timbres, uma percepção rítmica refinada e a capacidade de passar longos períodos em absoluto hiperfoco, dedicando-se apenas a compor e a manipular sons. Da mesma forma, há aquelas que desenham e pintam com alto grau de refinamento e criatividade.
Mas a triste realidade é que as nossas instituições de ensino não sabem o que fazer com esses – hoje pequenos – virtuosos do amanhã. As escolas, que deveriam ser celeiros do saber, transformaram-se em linhas de montagem padronizadas, revelando um doloroso despreparo. Mães e pais padecem peregrinando de colégio em colégio, assistindo a seus filhos adoecerem mentalmente em ambientes que simplesmente não conseguem acolher a sua grandeza, gerando imenso sofrimento e inadaptação.
A bússola moral e o nó da questão
Contudo, o buraco é muito mais profundo. Se o sistema educacional é uma barreira evidente, o grande nó dessa nossa era reside mesmo nos pais e nos educadores. A inteligência é como uma espada forjada no mais puro aço: ela cortará impiedosamente tudo o que lhe for apresentado, na tentativa de dissecar os significados.
Se essas mentes fantásticas não receberem uma sólida formação moral e espiritual, correm o risco de se perderem. A genialidade desprovida de virtude é um barco veloz, porém à deriva, em mar revolto. Se as famílias não forem um porto seguro — oferecendo afeto e limites e ensinando os valores do Alto —, essas crianças poderão facilmente se perder nos labirintos de suas próprias mentes.
Sem o norte inegociável da moralidade e da fé, correm o perigo de atrofiar suas habilidades raras ou, o que é infinitamente pior, utilizá-las de forma egoísta e inadequada, servindo às vaidades e sucumbindo às tentações de um mundo que já está doente o bastante.
Não basta termos gênios que saibam calcular a rota para Marte ou decifrar idiomas extintos se não tivermos homens e mulheres que saibam o que é a caridade, a honra e o temor a Deus.
Como bem sabemos, uma sociedade que endeusa o intelecto puro, mas despreza a retidão da alma, pavimenta o seu próprio colapso. O perigo nunca residiu no silício das máquinas, mas na alma de quem lhes abre as portas.
Portanto, que tenhamos a humildade de aprender com esses arquitetos do amanhã, cuidando para não os esmagar com os nossos moldes medíocres. Que lhes demos as ferramentas acadêmicas de que tanto necessitam, mas que jamais nos esqueçamos de lhes nutrir o espírito com a solidez da vida familiar e da fé em Deus.
Afinal, para salvar este nosso velho e cansado mundo, não bastará apenas pensar mais rápido; será preciso, antes de tudo, saber amar e discernir o certo do errado. E essa é uma lição que nenhum algoritmo, por mais avançado que seja, será capaz de lhes ensinar.
Por Afonso Pessoa





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