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Por essa você não esperava…

Ambos se utilizam de uma falha do nosso cérebro, mas, enquanto um visa o entretenimento, o outro tende à manipulação …

Redação (11/03/2026 09:54, Gaudium Press) A mágica é fascinante! É difícil encontrar alguém que não se agrade com a apresentação de um prestidigitador. Apraz-nos vê-lo fazer levitar uma pessoa ou desaparecer; tirar um pombo de dentro de um lenço ou esconder um coelho dentro da cartola; sumir com uma moeda de suas mãos e fazê-la aparecer no bolso do espectador; enfim, demonstrar uma abundância de efeitos desprovidos de causas coerentes.

Quanto mais inexplicável, tanto mais nos dispomos a pagar para assistir. E este é o maior truque dos mágicos: transformar em dinheiro a curiosidade alheia. Isto não é uma crítica; pelo contrário, é um elogio, pois só com muita arte se faz os outros pagarem para serem enganados. Nem mesmo os políticos de outrora conseguiram imitar tal habilidade e, por isso, optaram pelo método contrário: enganar para serem pagos — não me refiro aos hodiernos, que a ninguém enganam… e que, paradoxo, continuam sendo pagos.

Assim sendo, gostaríamos hoje de comunicar ao nosso caro leitor uma boa notícia: você tem uma demonstração de mágica bem perto de sua casa — a bem dizer, dentro de sua casa; quem sabe, ela está ao seu lado; eu diria até que está em suas mãos. Exatamente, estou falando do seu celular…

Por essa você não esperava, não é mesmo?

Da atração à manipulação

A comparação estabelecida entre um show de mágica e nosso celular não é uma brincadeira. A semelhança é intensa, se bem que não tão evidente. Tanto a mágica quanto o celular jogam com o mesmo meio de atração; a diferença está nas finalidades que visam. Ambos se utilizam de uma falha mental. O motivo pelo qual somos persuadidos por um truque de mágica que não conseguimos explicar é a mesma inexplicável razão pela qual somos arrastados pelo toque de uma notificação. Os dois usam de uma fraqueza de nosso cérebro. Porém, enquanto um propicia o mero entretenimento, o outro tende à manipulação.

O que significa usar de uma fraqueza do cérebro no caso do celular? Poderemos entender este fenômeno, mostrando o funcionamento dos grandes aplicativos de internet e redes sociais, como Google, Facebook, Twitter, TikTok e companhia ilimitada.

Grande parte das postagens, notificações, resultados de pesquisas, notícias, sugestões de compras, vídeos, fotos e as milhares de outras possibilidades oferecidas pela rede é movida por algoritmos numéricos. Ora, através das pesquisas e acessos efetuados por você, esses algoritmos constroem, pouco a pouco, um “avatar” de sua personalidade, conhecendo seus gostos, suas opiniões, suas propensões culinárias, seus laços de amizade, bem como uma série de características inerentes ao seu caráter. Isso quer dizer que, em poucos acessos, essa rede “conhece” você quase ou tanto quanto você mesmo se conhece.

A partir desse “avatar”, as respostas e sugestões da internet passam a se adaptar à sua pessoa, com vistas a mantê-la conectada o máximo possível. Esta é a razão pela qual, às vezes, passamos horas diante da tela sem nem mesmo perceber, pois ela está jogando com as nossas fraquezas mentais particulares. Esta adaptação se verifica de tal maneira que, geralmente, as páginas resultantes de suas pesquisas são diferentes da pesquisa de outros, ainda que ambos busquem pelo mesmo objeto.

Catástrofes esperadas

O resultado dessa equação matemática realizada pelos algoritmos é uma atração quase irresistível exercida por estes e aqueles aplicativos, deixando-nos abertos a qualquer influência — como uma criança diante de um passe de mágica. Isso seria ótimo se levasse à restauração da sociedade de acordo com os princípios da moralidade, da decência, da fé e da Igreja. Entretanto, tenho a leve impressão de que não é assim…

Não queremos com isto dar a entender que devemos deixar de usar a internet, mas que ela deve deixar de usar-nos. Pois, se as coisas continuarem como estão, só nos resta esperar mais catástrofes. E, visto ser fútil falar de reforma sem apresentar a forma do problema a ser reformulado, foi feita esta digressão, começando pelo truque do mágico e terminando na manipulação da humanidade.

Enfim — nunca é demais recordar —, a formação das futuras gerações depende, em grande escala, da forma como hoje utilizamos a internet.

Por Diego Pistoresi

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