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Leão XIV: Equilíbrio de Poder(es)

Leão XIV trabalha para restaurar o equilíbrio e criar uma nova comunhão, como delineou desde o início de seu pontificado.

Foto: Vatican News/ Vatican Media

Foto: Vatican News/ Vatican Media

Redação (09/03/2026 09:39, Gaudium Press) Todos estão aguardando que Leão XIV reestruture a Cúria Romana. Cinco chefes de dicastérios já passaram dos 75 anos e, até o fim do ano, serão seis. Os vaticanistas também acompanham de perto o Arcebispo Edgar Peña Parra, o sostituto – algo como o “chefe de gabinete do Papa” –, que teve um mandato controverso em seu atual cargo, e há rumores de que está de saída, possivelmente destinado a ser núncio na Itália.

Grandes mudanças estão por vir; em outras palavras, a única pergunta é “quando?” E a resposta é basicamente uma questão de timing.

Dito isso, muita coisa tem acontecido nos bastidores – talvez eu deva dizer que tem passado despercebido –, incluindo algumas nomeações realmente cruciais que demonstram como Leão XIV está trabalhando para reequilibrar o poder dentro do Vaticano.

Outro exemplo dessas nomeações menos visíveis é a recente escolha de Anton Kappler como adjunto da segunda câmara (o ajudante, valet, pessoal do Papa). Embora possa parecer insignificante, essa mudança provavelmente terá um impacto profundo.

Kappler serviu na Guarda Suíça por 25 anos, chegando ao posto de tenente, e é fluente em italiano, francês e alemão. É relativamente jovem e largamente considerado uma figura confiável. É provável que estivesse se preparando para retornar à Suíça após um quarto de século de serviço na Guarda.

O contexto da nova função de Kappler fica mais claro ao considerar a decisão do Papa de colocá-lo ao lado de Piergiorgio Zanetti, o fiel ajudante de câmara do Papa Francisco.

A presença de um ex-guarda suíço no entorno papal tem um significado profundo. Ela também representa um reequilíbrio das forças que governam as relações internas dentro do Vaticano. Zanetti chegou ao palácio vindo da gendarmerie – a força policial da Cidade do Vaticano –, uma organização que passou a deter um poder significativo durante os anos de Francisco.

A Guarda Suíça tem a tarefa específica de defender o Papa e guardar o Palácio Apostólico do Vaticano. Durante os anos de Francisco, porém, o entorno papal e a Guarda Suíça pareciam cada vez mais distantes, mesmo que fosse pela “alergia” do falecido pontífice a contextos ou estruturas institucionais.

Leão XIV não só faz a aproximação entre as instituições, como incorpora um ex-guarda à sua casa papal, coloca-o ao lado de um mordomo com vasta experiência e torna esse cargo não apenas eficiente, mas também voltado para o bem da instituição.

A cooperação mútua parece ser um tema central para Leão XIV. Isso fica evidente em outro detalhe. Espera-se que o novo Prefeito da Casa Pontifícia seja o Arcebispo Petar Rajič, atualmente núncio na Itália e anteriormente na Angola e nos países bálticos. Rajič, canadense de origem croata, tem vasta experiência diplomática. Na Prefeitura da Casa Pontifícia, ele serviria como elo de ligação entre a Secretaria de Estado e o Apartamento Papal, atuando como diplomata dentro da família do Papa.

Caso a escolha de Rajič como Prefeito da Casa Pontifícia seja confirmada, isso seria mais uma demonstração da preferência de Leão XIV por figuras que possam atuar como pontes, em vez de criar distâncias, refletindo seu desejo de ver as instituições do Vaticano colaborarem entre si.

Ilustrando ainda mais essa ênfase na colaboração, algumas decisões governamentais seguem a mesma estratégia.

Por exemplo, a decisão de revogar a determinação do Papa Francisco de que todos os investimentos do Vaticano deveriam passar pelo IOR (Instituto para as Obras de Religião, o chamado “Banco do Vaticano”) por meio de um quirógrafo, o qual faz precisamente referência ao princípio da “cooperação mútua” entre os dicastérios.

A corrida contra o tempo de Leão XIV para restaurar o equilíbrio dentro do Vaticano levou as diversas instituições a colaborar.

Nesse reequilíbrio, vale recordar a audiência do Papa, em 1º de fevereiro, com os gentis-homens de Sua Santidade, adidos de antecâmara e os sediários pontifícios. Também o lembrete de 24 de maio de 2025 ao pessoal da Cúria e do Governatorato: “Os Papas passam, a Cúria permanece.”

A escolha de um ajudante de câmara vindo da Guarda Suíça é apenas o mais recente de uma série de pequenos passos dados por Leão XIV para harmonizar os ministérios.

Essas não são medidas burocráticas. Pelo contrário, elas constroem uma vida comunitária em que a desconfiança entre os corpos é superada por meio da compreensão pessoal e do trabalho em comunidade.

Em última análise, o Papa continua sendo um frade e acredita profundamente na vida comunitária. Tanto é assim que ele costuma jantar na Primeira Loggia com os agostinianos que cuidam da Sacristia de São Pedro, mantendo esse vínculo forte, porém discreto, com sua comunidade – que também serve como uma ligação direta com a realidade.

As próximas viagens internacionais do Papa nos dirão mais. O Papa Francisco nunca levava secretários em suas viagens, apenas um ajudante de câmara, que basicamente atuava como “carregador de malas”. Leão XIV poderia – e deveria – levar um de seus secretários, em particular o Monsenhor Edgard Rimaycuna, o primeiro secretário, restaurando assim uma certa normalidade. O secretário atuaria como filtro para o Papa, apoiando-o nas reuniões e acompanhando-o o tempo todo.

Não sendo mais um Papa com comando exclusivo, Leão XIV agora conta com as pessoas com quem trabalha.

Ele manteve um perfil claro em suas nomeações. Com efeito, as nomeações visíveis e importantes seguem um critério: buscam pessoas discretas, competentes em seu trabalho e leais à instituição. Elas não precisam ser consideradas “amigas” do papa; basta que sejam competentes. Por exemplo, o Arcebispo Filippo Iannone, Prefeito do Dicastério para os Bispos, encaixa-se nesse perfil. Outro exemplo poderia ser Rajič, se confirmado como Prefeito da Casa Pontifícia ou mesmo, como também se especula, como sostituto.

No âmbito internacional, uma escolha semelhante foi Roland Hicks como Arcebispo de Nova York.

Leão XIV, entretanto, também chamou pessoas em quem sabia que podia confiar plenamente. Uma delas foi o Pe. Edgard Rimaycuna, que não tinha experiência na Cúria. Outra foi o Pe. Marco Billeri, seu segundo secretário, recomendado pelo bispo Paccosi, de San Miniato. Leão XIV havia sido missionário no Peru com o Bispo Paccosi. Havia também todo um mundo de pessoas semelhantes ao redor do Papa, desde seu cozinheiro peruano até os agostinianos na sacristia.

É assim que Leão XIV trabalha para restaurar o equilíbrio e criar uma nova comunhão, como delineou desde o início de seu pontificado. Após o pontificado disruptivo do Papa Francisco, que ampliou divisões e concentrou o foco na figura do Papa, agora é o momento de encontrar uma nova comunhão. Provavelmente, todos os dicastérios se adequarão a essa escolha.

Poderá haver pequenos ajustes adicionais à reforma da Cúria para avançar este plano antes que as “grandes mudanças” cheguem, mas – vistas sob a perspectiva correta – as pequenas mudanças já são bem grandes.

Artigo de Andrea Gagliarducci, publicado originalmente em inglês em Monday Vatican, 09-03-2026. Tradução Gaudium Press.

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