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São Vicente de Paulo, pugnaz e misericordioso

A combatividade e a compaixão são virtudes que se completam, e todo verdadeiro católico deve possuí-las. 

Foto: arquivo GP

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Redação (08/03/2026 19:11, Gaudium Press) Filho de família de pobres camponeses, São Vicente nasceu numa aldeiazinha do Sudoeste da França, em 1576, e desde menino pastoreava ovelhas. Inteligente e sempre voltado para os aspectos mais elevados da existência, estudou Teologia em Toulouse e foi ordenado sacerdote aos 24 anos de idade.

Escravizado na África, cantava hinos religiosos

Algum tempo depois, viajando de barco no Golfo do Leão, Mar Mediterrâneo, corsários turcos atacaram a embarcação desencadeando luta sangrenta. Houve mortos e ele recebeu uma flechada. Conduzido para Túnis, Norte da África, foi vendido como escravo a um homem que apostatara da Igreja e se tornara maometano.

Uma de suas mulheres, ouvindo o varão de Deus cantar hinos religiosos tais como a Salve Rainha, ficou tão maravilhada que se converteu e trouxe o renegado para a verdadeira Fé, o qual deu liberdade ao Santo.

Tendo regressado à França, tornou-se preceptor dos filhos de Felipe Emanuel de Gondi, Conde de Joigni e General dos galeotes de todo o país. Durante quatro anos, ele proporcionou excelente formação religiosa e moral aos jovens, um dos quais foi posteriormente Duque de Retz – Oeste da França – e o outro Cardeal de Retz. E o Conde de Joigni, após enviuvar, entrou para a Congregação do Oratório, fundada por São Felipe Néri.

Em 1617, partiu para Chatillon – Sudeste da França –, pois fora nomeado pároco de uma igreja que estava abandonada havia 40 anos. Fruto de seu apostolado, as danças e espetáculos lascivos foram banidos, e houve grande número de conversões.

O Conde de Rougemont, esgrimista e um dos mais terríveis duelistas da França, abandonou sua vida mundana, vendeu as terras que possuía a fim de que se fundassem mosteiros, e o enorme castelo onde vivia transformou-se em hospital para religiosos e pobres. Até o fim de seus dias, ele foi modelo de oração e penitência.

O Rei Luís XIII, em 1619, nomeou São Vicente Capelão Mor dos remadores nas galés da França.

Grave situação do clero

Devido ao espírito e mentalidade renascentista que se espalhava inclusive nos ambientes religiosos, grave era a situação do clero. Citemos dois exemplos.

Um bispo escreveu uma carta ao Santo, dizendo que, em sua diocese, havia muitos padres impudicos os quais, entretanto, celebravam Missas todos os dias.

Henrique de Bourbon, filho adulterino do Rei Henrique IV, sem ter sido ordenado sacerdote, foi Bispo de Metz – Leste da França –, abade de cinco mosteiros dos mais ricos e acabou por casar-se.[1]

Como consequência, a vida religiosa e moral do povo decaíra imensamente. Para combater essa situação, ele fundou a Congregação das Missões que efetuou fecundo apostolado na sociedade temporal e muito beneficiou o clero.

Em 1633, juntamente com Santa Luísa de Marillac, o homem de Deus instituiu a Congregação das Filhas da Caridade, que depois passou a chamar-se Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, ou vicentinas. Ela era nobre e, depois de enviuvar, resolveu dedicar totalmente sua vida à Igreja.

Antes do Concílio Vaticano II, as vicentinas usavam um hábito negro até os pés e, na cabeça, uma bela cobertura da qual saíam diversas abas em forma de losango alvas como a neve. A religiosa assim vestida tinha um aspecto nobre, digno e puro.

Membro do Conselho de Consciência

O Rei Luís XIII faleceu em 14 de maio de 1643. Poucos dias depois, Ana d’Áustria – Regente durante a minoridade de Luís XIV – nomeou São Vicente membro do Conselho de Consciência, cujo objetivo era examinar as designações de bispos e outros importantes assuntos eclesiásticos.

Explica Dr. Plinio Corrêa de Oliveira que o Conselho de Consciência era uma instituição existente em quase todas as monarquias católicas daquele tempo, e tinha uma função muito delicada.

O Estado era sempre unido à Igreja nos países católicos, e os bispos possuíam muitas vezes poderes temporais. A diocese era senhora feudal destas ou daquelas terras; dessa forma, o provimento das dioceses que se vagassem cabia ao Papa por princípio, porque só o Sumo Pontífice pode nomear e demitir livremente bispos, mas mediante indicação do rei.

Os membros do Conselho eram pessoas de maior confiança e virtude do reino, mais perspicazes e inteligentes, para estudar quais os padres que, por sua vida e doutrina ortodoxa, cultura e atividade, saúde e influência pessoal, eram capazes de serem bispos.

Como é sabido, toda a vida de uma diocese gira em torno do bispo, e uma das coisas mais importantes para a Igreja é a designação de bons bispos. Podemos assim compreender quanto um país deve ter empenho em que seja escolhido o creme dos sacerdotes para ser bispo.[2]

São Vicente impediu que fosse publicada a tradução do Corão para o francês e “combateu os jansenistas com meticulosidade, política, tática e estratégia. Ele os combateu em Roma, na corte do Rei da França, na nobreza, no clero, no povo, de todos os modos possíveis, com sua imensa influência pessoal.

“Além da combatividade intelectual ele também quis armar uma Cruzada contra Túnis e, nesse sentido, dirigiu-se ao Rei de França”.[3]

Indomável combatividade e dulcíssima compaixão

Após uma vida plena de lutas e atos de misericórdia, no dia 27 de setembro de 1660, em Paris, São Vicente entregou sua alma a Deus.

A combatividade e a compaixão são virtudes que se completam, e todo verdadeiro católico deve possuí-las.  Afirma Dr. Plinio:

 “Uma indomável, feroz e tremenda combatividade pode e deve coexistir com uma dulcíssima e meticulosa compassividade, desde que esta não signifique pactuar com o mal, consentindo que ele continue quando deve morrer, ou que continue atuando, pelo menos ferido e incompleto, quando ele deve ser exterminado radicalmente.

“Contra o mal, a ofensiva deve ser inteira para desarmá-lo por completo. Eliminado até em suas sementes, arrasado o mal e negados a ele todos os quartéis, humilhado, destroçado, privado de todos os meios de ação e de todo o prestígio em toda a medida em que seja possível neste vale de lágrimas, o resto é tarefa da compaixão.”[4]

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja


[1] Cf. ROHRBACHER, René-François. Vida dos Santos. São Paulo: Editora das Américas. 1959, v. 17, p. 75.

[2] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio.  São Vicente de Paulo, perfeita harmonia de espírito. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XIV, n. 162 (setembro 2011), p. 15-16.

[3] Id. O bom espírito, causa da união entre os membros da Igreja. Dr. Plinio. Ano XXVIII, n. 330 (setembro 2025), p. 23

[4] Id. Ibidem. p. 24.

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