Itália: ninguém inscrito para a catequese em Bolonha
“Este ano, em uma população de cerca de 9 mil habitantes, não tivemos nem uma única criança inscrita na catequese para a Primeira Comunhão”.
Redação (04/03/2026 09:56, Gaudium Press) O centro histórico de Bolonha está passando por uma transformação profunda e preocupante, que vai muito além de questões econômicas ou turísticas; ele está perdendo, aos poucos, sua alma comunitária, especialmente nas paróquias tradicionais. Uma reportagem, publicada recentemente pelo jornal Il Resto del Carlino, trouxe à tona um dado alarmante: em algumas das paróquias mais centrais da cidade, como San Giuliano, Santíssima Trindade e Santa Caterina di Strada Maggiore, não houve sequer uma única criança inscrita na catequese para a Primeira Eucaristia neste ano.
Don Giovanni Bonfiglioli, pároco dessas três comunidades, declarou com palavras carregadas de angústia: “Este ano, em uma população de cerca de 9 mil habitantes, não tivemos nem uma única criança inscrita na catequese para a Primeira Comunhão. As famílias foram embora. Isso significa que não há mais nenhum compromisso real em manter a cidade viva. Seria preciso favorecer as pessoas. Temos uma cidade esvaziada de moradores. Entendo que estudantes e turistas tragam dinheiro, mas uma cidade, desse jeito, morre”.
Esse quadro desolador não é pontual. A investigação do jornal revelou que, na área entre Santo Stefano e Strada Maggiore, três paróquias registraram zero inscrições na catequese pela primeira vez na história recente. Antigamente, cada uma delas recebia entre 15 e 20 crianças por ano. Hoje, as famílias jovens simplesmente não conseguem mais se estabelecer no centro histórico, empurradas para fora por uma combinação de fatores.
O Cardeal Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha e presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), analisou o fenômeno em entrevista ao mesmo veículo. Para ele, não se trata primordialmente de uma crise de fé, mas de uma mudança radical no tecido social e territorial da cidade. Os elementos centrais desse processo são:
– O declínio demográfico generalizado, que atinge toda a Itália e grande parte da Europa;
– A substituição progressiva das famílias por estudantes universitários, atraídos pela proximidade das faculdades, mas impulsionados pelos aluguéis altíssimos que excluem os núcleos familiares;
– A posterior conversão desses imóveis em escritórios e Bed & Breakfast (B&Bs), transformando apartamentos residenciais em acomodações turísticas ou espaços comerciais.
Zuppi resume com clareza: “Estudantes, escritórios e B&Bs; quando os párocos vão abençoar as casas, não encontram mais ninguém. Precisamos ser nós a guiar essas mudanças, e não o contrário. O risco é que Bolonha perca sua identidade”. O centro histórico, alerta o cardeal, corre o perigo de se tornar uma “vetrina vuota” — uma vitrine bonita, mas vazia por dentro: sem famílias, sem crianças brincando nas ruas, sem raízes vivas.
Em contrapartida, Don Paolo Paganini, pároco de Santa Maria della Misericordia, ainda conta com cerca de 60 crianças na catequese. Mas a maioria vem de bairros periféricos, fora do centro histórico. Isso reforça a tese de que o problema é particularmente grave dentro das antigas muralhas, na área da ZTL (Zona de Tráfego Limitado), onde as restrições de mobilidade e os custos elevados pesam ainda mais.
Mas será que a crise se resume apenas a barreiras materiais — a alta dos aluguéis, dificuldade de estacionamento, trânsito complicado? Ou há algo mais profundo em jogo? Don Paganini toca em um ponto delicado ao notar que, hoje em dia, muitas pessoas verificam antes se há vaga fácil para estacionar o carro para decidir se vão a uma igreja. “Quando algo não interessa de verdade”, observa ele, “as dificuldades se tornam insuperáveis”.
Essa observação convida a uma reflexão mais ampla. Em diversas regiões do mundo, cristãos enfrentam perseguições violentas e arriscam a própria vida apenas para participar de uma Missa. Diante disso, as “barreiras” em Bolonha — ZTL, custo de vida, busca incessante por comodidade — parecem triviais. Será que, de alguma forma, Deus foi “expulso” do centro histórico não só por forças externas, mas também por nossas próprias escolhas, nem sempre sábias, no exercício do livre-arbítrio?
As soluções sugeridas por Zuppi e pelos párocos passam necessariamente por tornar Bolonha mais acolhedora para as famílias: regulamentar os aluguéis excessivos, incentivar moradias acessíveis no centro, criar praças, playgrounds e espaços de convivência para pais e crianças, e fortalecer comunidades que deem sentido à vida paroquial. Só assim as igrejas podem deixar de ser meros monumentos históricos e voltar a ser pontos vivos de encontro e transmissão da fé.
Bolonha é uma das cidades mais belas e culturalmente ricas da Itália, com seus pórticos milenares, suas torres e sua universidade centenária. Mas, sem famílias e sem o som de crianças correndo pelas ruas antigas, ela corre o sério risco de virar um museu a céu aberto: encantador para turistas, lucrativo para alguns setores, porém desprovido de vida verdadeira e de futuro. Como alertam os sacerdotes ouvidos pelo jornal, uma cidade que não se compromete com as gerações vindouras é uma cidade que, lenta mas inexoravelmente, morre.
Agora cabe à sociedade, à Igreja local e aos poderes públicos decidir: reverter esse rumo ou aceitar, em silêncio, a perda gradual daquilo que faz de Bolonha não só uma cidade bonita, mas uma comunidade viva e com fé? O tempo urge, e o vazio nas salas de catequese já soa como um grito de alerta.






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