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Queda acentuada do número de católicos na América Latina durante os anos do Papa Francisco

A recente pesquisa do Pew Research Center foi realizada nos seis países latino-americanos mais populosos: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru. Os dados abrangem o período de 2013 a 2024, coincidindo exatamente com o pontificado de Francisco.

(03/03/2026 09:58, Gaudium Press) Segundo o Annuarium Statisticum Ecclesiae, publicado anualmente pela Secretaria de Estado do Vaticano, quase metade dos católicos do mundo — exatamente 47,8% — vive nas Américas. A grande maioria deles, 40% do total mundial, está na América Latina, desde o México até a Terra do Fogo.

No entanto, o Annuarium considera católicos todos os batizados. Esse número é bem maior do que o de pessoas que se declaram católicas de fato.

Para efeito de comparação, pode-se tomar como ponto de referência a recente pesquisa do Pew Research Center, de Washington, realizada em seis dos países latino-americanos mais populosos: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru. Os dados cobrem o período de 2013 a 2024, coincidindo com o pontificado de Francisco, o primeiro papa sul-americano.

Na Argentina, onde os batizados representam 94% da população, segundo o Annuarium, em 2013, os que se declaravam católicos eram 71% e, em 2024, 58% — uma queda de 13 pontos em 11 anos.

Na Colômbia, com 93% de batizados, os católicos eram 79% em 2013 e 60% em 2024, com perda de 19 pontos percentuais.

No México, diante de 91% de batizados, os católicos representavam 81% em 2013 e 67% em 2024, queda de 14 pontos.

No Peru, com 89% de batizados, os católicos representavam 76% em 2013 e 67% em 2024, queda de 9 pontos.

No Brasil, com 84% de batizados, os católicos eram 61% em 2013 e 46% em 2024, queda de 15 pontos.

No Chile, com 74% de batizados, os católicos eram 64% em 2013 e 46% em 2024, queda de 18 pontos.

A diminuição no número de católicos nesses países corresponde a um crescimento do número de protestantes de diversas denominações. Em 2024, eles representavam 29% da população no Brasil, 19% no Chile, 18% no Peru, 16% na Argentina, 15% na Colômbia e 9% no México. Porém, esses aumentos foram moderados em comparação com 2013: apenas 3 pontos percentuais no Brasil e ainda menores nos outros países.

Quem está crescendo de forma mais forte são os “não afiliados”, ou seja, aqueles que se declaram ateus, agnósticos ou, na maioria dos casos, simplesmente não pertencentes a nenhuma religião. No Chile, eles passaram de 16% em 2013 para 33% em 2024; na Argentina, de 11% para 24%; na Colômbia, de 6% para 23%; no México, de 7% para 20%; no Brasil, de 8% para 15%; no Peru, de 4% para 12%.

Muitos desses “não afiliados” são ex-católicos que nasceram e foram criados na Igreja, mas posteriormente a abandonaram. No Chile, 19% dos que eram católicos passaram a ser “não afiliados” e 6% se tornaram protestantes; no México, 15% e 4%; na Colômbia, 13% e 8%; na Argentina, 12% e 8%. Brasil e Peru são exceções, sendo que aqueles que passaram para o protestantismo superaram os que foram para os “não afiliados”. No Brasil, 13% se tornaram protestantes contra 7% que passaram a ser “não afiliados”; no Peru, 9% contra 7%.

Nestes seis países, 90% ou mais da população afirma crer em Deus. Mas só no Brasil, Peru, Colômbia e México uma ampla maioria dos católicos (85%, 68%, 64% e 57%, respectivamente) considera a religião “muito importante” para sua vida pessoal. No Chile, esse índice é de 48% e na Argentina, de 37%.

Essa diferença também se reflete na prática religiosa: a frequência semanal à missa entre os católicos é de 41% no México, 40% na Colômbia, 36% no Brasil, 27% no Peru, mas apenas 12% na Argentina e 8% no Chile.

Por outro lado, tanto a importância pessoal da religião quanto a prática semanal são bem mais altas entre os protestantes. Isso vale inclusive na Argentina e no Chile, onde a frequência semanal aos cultos protestantes é cinco vezes maior que a dos católicos.

A passagem de tantos católicos para as fileiras dos “não afiliados” faz a América Latina se assemelhar à Europa. Como comenta o sociólogo uruguaio especializado em religião, Néstor Da Costa, em entrevista a Mauro Castagnaro na edição mais recente da revista Il Regno: “Um caminho fora das instituições permite uma interioridade percebida como mais livre, e isso leva muitos a abandonarem as Igrejas e outros a permanecerem nelas, mas em lugares marginais e com uma atitude semelhante à daqueles que saíram. Também nas Igrejas históricas, na verdade, registra-se esse individualismo espiritual, pelo qual, no máximo, 10% dos fiéis aceitam todos os dogmas”.

O que diferencia a América Latina da Europa é a forte presença, no subcontinente, das Igrejas protestantes de nova denominação, as pentecostais, nascidas dos movimentos de avivamento ocorridos nos Estados Unidos no início do século XX, e as mais recentes neopentecostais e evangélicas, que penetraram na América Latina a partir dos anos 70 e são portadoras de uma “teologia da prosperidade” em sintonia com o espírito da época: individualismo, utilitarismo e busca por soluções imediatas.

Já as Igrejas protestantes históricas — luteranas, calvinistas, metodistas, batistas —, segundo Da Costa, “vivem a mesma crise que a Igreja católica, mas, por serem menores, sentem-na mais”. No passado, “elas representaram figuras de grande qualidade, basta pensar que da pequena Igreja Metodista do Uruguai veio o pastor Emilio Castro, secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas de 1985 a 1992”; “embora ainda hoje tenham excelentes pastores, não são capazes de mobilizar”.

Por outro lado, “as que reúnem o maior número de fiéis são as Igrejas pentecostais tradicionais, como as Assembleias de Deus no Brasil, que concentram metade de todos os evangélicos”. Já nas neopentecostais, “a pertença é bem mais fraca, o que facilita divisões”: a Igreja Universal do Reino de Deus foi fundada em 1977 por Edir Macedo ao se separar de seu cunhado Romildo Soares, que formou a Igreja Internacional da Graça de Deus. Há aqui um tipo de “nomadismo religioso”, com pessoas que se deslocam de uma Igreja para outra. “Mais uma vez, tudo recai sobre o indivíduo”.

E dentro da Igreja Católica? Com as comunidades ligadas à teologia da libertação quase desaparecidas e os movimentos internos, marcados pelo surgimento de denúncias de abuso sexual, enfrentando sérias dificuldades, a maior parte dos católicos latino-americanos se divide entre conservadores mais ou menos combativos e, sobretudo, católicos que “navegam à vista”, adotando elementos de diferentes experiências e sensibilidades, sob o signo de um acentuado individualismo espiritual.

Na visão de Da Costa, são justamente esses últimos que constituem “talvez a maioria” dos que hoje se dizem católicos na América Latina. Na fronteira com esses “não afiliados” — cada vez mais numerosos —, os ateus e agnósticos declarados são minoria; a grande maioria é indiferente ou continua crendo em Deus, mas sem pertencer a uma Igreja.

Artigo de Sandro Magister, publicado em diakonos.be, 03-03-2026. Tradução Gaudium Press.

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