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Aos 95 anos, Cardeal Ruini fala sem filtro: “Bento errou, tive dificuldade com Francisco”

A repercussão da entrevista não se deve apenas ao conteúdo, mas ao tom. Sem fogos de artifício, sem polêmicas inflamadas, apenas com clareza e sobriedade, Ruini revelou o que muitos sussurram nos corredores do Vaticano há anos.

Screenshot/ Salvini Premier/ Facebook/ 2021

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Redação (24/02/2026 11:50, Gaudium Press) Aos 95 anos, o Cardeal Camillo Ruini prova que lucidez não tem prazo de validade — e que, quando se chega a essa idade, talvez a única prestação de contas que importa seja com Deus. Em entrevista franca ao Corriere della Sera, repercutida pelo site Cruxnow.com, o veterano purpurado italiano fez um balanço direto — e, por vezes, desconcertante — dos últimos pontificados.

Ruini, que foi durante quase duas décadas vigário de São João Paulo II para a Diocese de Roma e presidente da Conferência Episcopal Italiana, não é uma voz qualquer. É um homem que atravessou o século XX “não apenas porque viveu nele, mas porque esteve lá”, como destacou o Crux. Quando fala, Roma escuta — mesmo que alguns prefiram tossir discretamente.

Sobre João Paulo II, não economizou elogios: foi “maggiore”, isto é, maior — um verdadeiro líder no cenário mundial. Também incluiu Pio XII, João XXIII, Paulo VI e Bento XVI entre os grandes papas de um período que classificou como “afortunado” para a Igreja.

Mas, ao tratar dos pontificados mais recentes, Ruini deixou claro que aposentadoria não significa silêncio.

Sobre Bento XVI, afirmou com todas as letras que a renúncia em 2013 foi “uma decisão errada — ao menos assim me parece”. Fez a ressalva elegante de que o papa alemão conhecia melhor suas próprias circunstâncias, mas não voltou atrás na avaliação. Para Ruini, Bento foi “sobretudo um grande teólogo”, embora reconheça que o governo tenha sido seu ponto fraco.

Já em relação a Francisco, a palavra escolhida foi reveladora: “surpresa”. O cardeal admitiu ter tido dificuldade com o pontificado do argentino. “A mudança foi grande demais e repentina”, disse. Questionado se o saldo foi mais positivo ou negativo para a Igreja, respondeu com prudência: trata-se de uma avaliação complexa, com aspectos muito positivos e outros “bem menos”. E concluiu: “É cedo demais para julgar qual prevalece.”

Ou seja: nem aplauso automático, nem condenação sumária — mas também nada de meias-palavras.

Sobre o atual Papa, Leão XIV, Ruini foi mais breve e otimista; teve “excelente impressão” e declarou-se feliz com a escolha, ainda que tenha tido apenas um encontro com ele.

A repercussão da entrevista não se deve apenas ao conteúdo, mas ao tom. Sem fogos de artifício, sem polêmicas inflamadas, apenas com clareza e sobriedade, Ruini revelou o que muitos sussurram nos corredores do Vaticano há anos: que a renúncia de Bento deixou cicatrizes e o pontificado de Francisco não foi simples para a Igreja.

O próprio Crux destacou que suas palavras mostram ser possível tratar temas delicados com franqueza e equilíbrio. Em tempos de polarização e rótulos rápidos, a combinação de firmeza e medida chama atenção.

No fim das contas, Ruini parece ter alcançado aquele raro estágio da vida em que a liberdade interior supera qualquer cálculo político. Aos 95 anos, ele fala com a serenidade de quem já viu papas subirem e descerem, impérios ruírem e modas teológicas passarem.

E talvez seja essa a maior autoridade de todas: quando o currículo já está completo, o medo de desagradar se aposenta antes do dono. Afinal, depois de nove décadas e meia, o único “núncio” que realmente preocupa é o do Juízo Final e, nesse momento, pouco importará o que pensam os leitores do Corriere ou os membros do Colégio Cardinalício.

Por Rafael Ribeiro

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