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Cardeais Sarah e Müller condenam ordenações cismáticas da FSSPX

A convergência entre Sarah e Müller indica a preocupação comum com o risco de cristalização de uma estrutura eclesial paralela.

Cardeal Sarah recebera titulo de Honoris Causa pela Universidade Catolica de Valencia 1

Redação (23/02/2026 10:24, Gaudium Press) A anunciada intenção da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) de realizar novas sagrações episcopais sem mandato pontifício provocou reação imediata de dois cardeais de peso na Cúria Romana e no cenário teológico internacional: Robert Sarah e Gerhard Müller. Ambos se manifestaram de forma clara contra a iniciativa, qualificando-a como desobediência grave e advertindo para suas implicações eclesiológicas e canônicas.

A controvérsia remete inevitavelmente às sagrações de 1988, quando Dom Marcel Lefebvre ordenou quatro bispos sem autorização do Papa João Paulo II, ato que configurou cisma formal e resultou em excomunhões posteriormente levantadas por Bento XVI. O atual anúncio reacende o debate sobre os limites da resistência interna na Igreja e sobre a natureza da comunhão hierárquica.

Em artigo publicado em 22 de fevereiro, o Cardeal Robert Sarah afirmou ter recebido a notícia com “profunda preocupação e tristeza”. Ele reconheceu a existência de crise interna na Igreja, inclusive no plano doutrinal: “Vejo com dor a covardia de cristãos e até de prelados que renunciam a ensinar o depósito da fé”. Acrescentou ainda: “Sei muito bem que muitas vezes, mesmo dentro da Igreja, há lobos disfarçados de cordeiros.”

A análise de Sarah parte do reconhecimento de que há tensões reais em torno da Tradição, da liturgia e da moral católica. No entanto, ele rejeita a tese de que tais dificuldades justifiquem um ato unilateral de ruptura. “A fé jamais pode nos levar a renunciar à obediência à Igreja”, escreveu. A frase sintetiza sua posição: a fidelidade doutrinal não pode ser dissociada da submissão à estrutura hierárquica instituída por Cristo.

O Cardeal enfrenta diretamente o argumento frequentemente invocado pela FSSPX, segundo o qual a “salvação das almas” (suprema lex, salus animarum) justificaria medidas extraordinárias. Para Sarah, essa formulação não pode ser utilizada contra a própria constituição visível da Igreja. “Mas a salvação é Cristo, e Ele só é dado na Igreja. Como podemos pretender conduzir as almas à salvação por meios diferentes daqueles que Ele mesmo nos indicou?”, questiona.

A argumentação desloca o debate do plano disciplinar para o plano teológico. Para Sarah, a Igreja não é mero instrumento organizacional da graça, mas o lugar ordinário da mediação salvífica. Uma sagração episcopal sem mandato pontifício não é apenas infração jurídica; é um ato que atinge a comunhão visível com o sucessor de Pedro.

Outro ponto central do texto é a questão da garantia da ortodoxia. A FSSPX sustenta agir em fidelidade ao Magistério anterior, especialmente pré-conciliar. Sarah rebate: “Somos informados de que isto é feito por fidelidade ao Magistério anterior, mas quem pode nos garantir isso senão o próprio sucessor de Pedro?” A pergunta sugere que a interpretação autônoma da Tradição, desvinculada do Papa, introduz elemento de subjetividade que compromete a pretensão de continuidade.

O Cardeal utiliza uma imagem de forte conteúdo simbólico: “Deixar a barca de Pedro e organizar-nos autonomamente e em círculo fechado é entregar-nos às ondas da tempestade.” A metáfora indica que, mesmo em meio a crises internas, a comunhão com o Papa permanece critério de estabilidade e unidade.

O Cardeal Gerhard Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, adotou linha convergente. Ele advertiu que a FSSPX deve permanecer “dentro da Igreja” para exercer um “efeito positivo”. A declaração aponta para uma dimensão estratégica e pastoral: a influência teológica e litúrgica da Fraternidade, segundo Müller, só pode produzir frutos autênticos se estiver integrada à plena comunhão canônica.

A posição de Müller tem peso particular por sua trajetória doutrinal. Conhecido por críticas a ambiguidades teológicas contemporâneas, ele não pode ser classificado como representante de setores progressistas. Sua oposição às sagrações indica que a resistência a tais medidas não se restringe a um campo ideológico, mas se fundamenta numa concepção clássica de eclesiologia.

Sob o aspecto canônico, o Código de Direito Canônico é explícito ao exigir mandato pontifício para a ordenação episcopal. A realização do ato sem tal autorização implica sanções automáticas. Ainda que a discussão atual envolva nuances jurídicas e o estatuto peculiar da FSSPX, o princípio permanece: a comunhão episcopal está intrinsecamente ligada ao reconhecimento do Papa como princípio visível de unidade.

Teologicamente, a questão central é a relação entre Tradição e autoridade. A FSSPX sustenta agir para preservar a integridade da fé diante de supostas rupturas pós-conciliares. Sarah e Müller respondem que a Tradição não é uma realidade paralela à autoridade petrina, mas uma realidade vivida no interior da sucessão apostólica. A ruptura prática com o Papa, ainda que justificada por apelos à ortodoxia, cria tensão estrutural com a própria noção católica de Igreja.

Sarah reforça esse ponto ao citar Santa Catarina de Sena: “Obedecei sempre ao pastor da Igreja, pois ele é o guia que Cristo estabeleceu para conduzir as almas.” Ao recorrer à santa, conhecida por sua franqueza na crítica a papas e cardeais, o cardeal sublinha que a correção fraterna e a reforma interna não equivalem à ruptura institucional.

Ele também menciona São Padre Pio que, apesar de sanções disciplinares consideradas injustas por muitos, permaneceu em obediência. “A obediência é a única coisa que agrada ao Senhor”, recorda Sarah, citando o santo. O exemplo é utilizado para ilustrar que a fidelidade à Igreja se expressa, em última instância, na submissão mesmo em contextos de tensão.

A convergência entre Sarah e Müller indica a preocupação comum com o risco de cristalização de uma estrutura eclesial paralela. A realização de novas sagrações poderia consolidar uma sucessão episcopal independente, dificultando futuras negociações com a Santa Sé e ampliando a distância jurídica e pastoral.

O debate não se limita a aspectos disciplinares. Trata-se de definir se a preservação da identidade doutrinal pode ocorrer fora da plena comunhão com o Papa. Para os dois cardeais, a resposta é negativa. A unidade visível, mesmo atravessada por crises, permanece elemento constitutivo da Igreja Católica.

Ao condenarem as ordenações cismáticas anunciadas, Sarah e Müller reafirmam um princípio tradicional: a comunhão com o sucessor de Pedro não é elemento secundário, mas critério objetivo de pertença eclesial. A controvérsia, portanto, recoloca no centro da discussão a tensão permanente entre reforma, resistência e obediência — tensão que, na visão dos cardeais, só pode ser resolvida dentro da estrutura hierárquica da própria Igreja. A saída para este impasse passa pelo diálogo, não pela ruptura. O escândalo é sempre parte do problema, nunca da solução.

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