São Pedro Damião
No alvorecer do século XI, quando as trevas da simonia, da impureza e da tibieza ameaçavam a Igreja, Deus suscitou um varão de fogo: São Pedro Damião, Doutor da Igreja, Cardeal-Bispo de Óstia, que pregou contra os clérigos devassos e defendeu o celibato sacerdotal. Sua memória é celebrada no dia 21 de fevereiro.

Foto: Wikipedia
Redação (21/02/2026 09:53, Gaudium Press) Nascido por volta de 1007 em Ravena, na Itália, Pedro veio ao mundo em meio à pobreza e ao sofrimento. Órfão de pai e mãe ainda na infância, foi acolhido por um irmão mais velho que o tratou com dureza extrema, reduzindo-o à condição de guardador de porcos. Descalço na neve, mal alimentado, humilhado, o menino parecia destinado ao esquecimento humano. Mas o olhar divino repousava sobre ele. Outro irmão, o arcipreste Damião, compadeceu-se do sofrimento do pequeno e o resgatou, dando-lhe educação e afeto. Em gratidão, Pedro acrescentou ao seu nome o do benfeitor, passando a chamar-se Pedro Damião.
Um dia, dois beneditinos da reforma de São Romualdo apareceram em sua casa e, após fazer algumas perguntas, ele decidiu ingressar nessa comunidade, os camaldulenses.
Seu primeiro biógrafo, São João de Lodi, narrou episódios significativos da juventude de Pedro Damião. Certo dia, o rapaz encontrou uma moeda valiosa no campo e, em vez de comprar comida para si, resolveu mandar celebrar uma Missa pela alma do pai falecido, gesto de fé e desprendimento que marcou toda a sua vida.
Outra vez, em um gesto de caridade que marcaria para sempre sua vida, o jovem Pedro Damião decidiu partilhar o almoço com um pobre cego, um mendigo necessitado que Deus colocara em seu caminho. Num impulso egoísta do coração ainda jovem e imperfeito, reservou para si o pedaço de pão branco, mais macio e apetitoso, enquanto ofereceu ao hóspede um pedaço mais escuro e áspero. Mal começou a mastigar seu quinhão escolhido, uma casquinha dura encravou-se em sua garganta, causando-lhe sufocante angústia e dor aguda. Imediatamente, o remorso invadiu sua alma como um raio de luz divina. Reconhecendo o egoísmo que o havia dominado, arrependeu-se profundamente e, sem hesitar, trocou seu pedaço de pão branco pelo do cego. No instante em que o fez, a casquinha desapareceu milagrosamente, o incômodo cessou por completo.
Esse episódio extraordinário, narrado por seus biógrafos como um sinal da Providência, convenceu-o definitivamente de que Deus o chamava a uma vida de maior desapego, pureza e dedicação total. Foi o empurrão decisivo para que abandonasse as vaidades do mundo, as honras acadêmicas e o conforto passageiro, consagrando-se inteiramente ao Senhor e abraçando a austera vida monacal.
Dotado de inteligência prodigiosa, o jovem destacou-se rapidamente nos estudos de teologia e direito canônico em Ravena, Faenza e Parma. Aos vinte e cinco anos, já era um famoso professor, admirado por sua erudição. No entanto, seu coração não se deixou seduzir pelas honras mundanas. A alma sedenta de Deus clamava por solidão, meditação e oração. Por volta de 1035, abandonou tudo e ingressou no mosteiro de Fonte Avellana, Ordem Camaldolense (uma das Congregações que compõe a Ordem de São Bento), onde os monges viviam em austera solidão, oração e busca de Deus.
Ali, São Pedro Damião tornou-se chama viva de oração e mortificação. Vestia-se com rude pano, jejuava rigorosamente, disciplinava-se com frequência, velava longas noites em oração. Escrevia com pena de fogo: tratados, cartas, sermões, hagiografias – entre elas a vida de São Romualdo, seu pai espiritual. Sua pena era espada de dois gumes: cortava os vícios com denodo profético e inflamava os corações com o amor à pureza e à Igreja.
Contra sua vontade, a Providência o arrancou da amada solidão. Os Papas da Reforma Gregoriana – Leão IX, Estêvão IX, Nicolau II, Alexandre II – reconheceram nele o instrumento escolhido por Deus. Em 1057, foi sagrado Bispo de Óstia e criado Cardeal. Tornou-se o braço direito dos Pontífices na luta contra a simonia e o nicolaísmo.
Pedro Damião esteve ao lado do Papa Gregório VII na luta contra as investiduras: o imperador Henrique IV apoderou-se do direito de nomear bispos e abades, sendo excomungado pelo Papa. Após alguns anos da morte de Pedro Damião, o imperador, vestido como penitente, ajoelhou-se aos pés do Papa no castelo de Canossa, em 28 de janeiro de 1077, pedindo perdão.
Assim que tomou posse, como Cardeal Bispo de Óstia, enviou uma carta a todos os cardeais na qual afirmava:
“O sacerdócio profanado tornou-se o escândalo dos povos; as leis canônicas são pisadas aos pés; o ministério sacerdotal passou do serviço de Deus ao das vergonhosas concupiscências.”
Suas cartas eram trovões: repreendia bispos tíbios, exortava reis, advertia o próprio clero romano, apontando seus pecados, sem contemporizações, mas sempre com o ardor de quem ama a Igreja e deseja vê-la imaculada.
Indignado com a decadência moral de elementos do clero, que se afundavam em pecados contra a castidade, ele escreveu o “Livro de Gomorra” e o enviou ao Papa São Leão IX.
Sua coragem era tão grande quanto sua humildade. Apesar das altas dignidades, conservava o coração de eremita camaldulense: dormia em chão duro, usava cilício, chorava pelos pecados do mundo. Escrevia: “Eu sou o mais vil dos monges”, e assim se considerou até o fim.
No dia 21 de fevereiro de 1072 (ou 22, segundo algumas fontes), retornando de uma missão de paz em Ravena, foi acometido de febre em Faenza. Reunidos os monges ao seu redor, recitou com eles o Ofício divino. Ao terminar, entregou sua alma puríssima a Deus, aos 65 anos de idade. Seu corpo, trasladado várias vezes, repousa hoje na Catedral de Faenza, onde continua a irradiar bênçãos.
Em 1828, o Papa Leão XII proclamou-o Doutor da Igreja, reconhecendo a profundidade de sua doutrina e o brilho de sua santidade. São Pedro Damião é invocado como patrono dos reformadores da Igreja e daqueles que sofrem de insônia, pois suas vigílias eram tão longas quanto seu amor a Cristo.





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