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Mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026

Em sua mensagem para a Quaresma de 2026, publicada nesta sexta-feira, 13 de fevereiro, o Papa Leão XIV convida os fiéis a colocarem Deus no centro de suas vidas, por meio da escuta da Palavra de Deus e do jejum, e a vivenciarem este tempo litúrgico como um caminho de conversão interior e comunitária.

Foto: Vatican Media

Foto: Vatican Media

Redação (13/02/2026 08:59, Gaudium Press) “A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro de nossas vidas”, escreveu o Papa. Diante das “inquietações e distrações diárias” que dispersam o coração, este tempo litúrgico se torna uma ocasião propícia para “renovar a decisão de seguir a Cristo”, caminhando com Ele rumo a Jerusalém, onde “o mistério de Sua paixão, morte e ressurreição” se realiza.

Para Leão XIV, todo caminho de conversão começa com uma atitude fundamental: “deixar-nos alcançar pela Palavra” e “acolhê-la com docilidade de espírito”, porque existe “um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza”.

 Escutar

O Santo Padre enfatiza que “a disposição para escutar é o primeiro sinal pelo qual se manifesta o desejo de entrar em relacionamento com os outros”. Ele recorda que o próprio Deus, revelando-se a Moisés na sarça ardente, mostra que a escuta é uma característica distintiva do seu ser: “Eu bem vi a opressão do meu povo no Egito e ouvi o seu clamor” (Ex 3,7). Essa escuta do clamor dos oprimidos é, segundo o Papa, “o início de uma história de libertação”.

Escutar a Palavra na liturgia nos educa para uma escuta mais verdadeira da realidade. Entre “as muitas vozes que permeiam nossa vida pessoal e social”, as Sagradas Escrituras nos permitem reconhecer “aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta”. Adentrar essa disposição interior, insiste Leão XIV, significa aprender a escutar como o próprio Deus escuta: “Eu vi a opressão do meu povo no Egito e ouvi o seu clamor”, até reconhecermos que “a condição dos pobres é um clamor que, ao longo da história da humanidade, constantemente interpela a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e econômicos e, sobretudo, a Igreja”.

Jejuar

Se a Quaresma é um tempo de escuta, “o jejum constitui uma prática concreta que nos prepara a acolher a Palavra de Deus”. A abstinência de alimentos, lembra-nos o Papa, é “uma prática ascética muito antiga e insubstituível no caminho da conversão”. Precisamente por envolver o corpo, torna mais evidente aquilo de que “temos fome” e o que consideramos essencial à nossa subsistência, e nos ajuda a discernir o que realmente desejamos e a ordenar os nossos “apetites, para manter vigilantes a fome e a sede de justiça, subtraindo-as à resignação, educando-as para que se tornem oração e responsabilidade para com o próximo”.

Citando Santo Agostinho, Leão XIV sublinha que a humanidade experimenta uma tensão entre o desejo de justiça e a sua plena realização: “Esta inclinação ao desejo dilata a alma, aumentando a sua capacidade”. O jejum permite-nos, assim, purificar o desejo, “torná-lo mais livre, mas também ampliá-lo para que se volte para Deus e se oriente para o bem”.

Contudo, o Santo Padre adverte: “Para que o jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade”. “Ninguém jejua verdadeiramente se não souber alimentar-se da Palavra de Deus”, escreve ele, recordando que jejum é “como sinal visível do nosso compromisso interior de, com o apoio da graça, nos afastarmos do pecado e do mal”, devendo “incluir também outras formas de privação destinadas a fazer-nos assumir um estilo de vida mais sóbrio, pois só a austeridade torna a nossa vida cristã autêntica e forte”.

Abstinência de palavras que ferem o próximo

O Papa propõe também uma forma concreta de jejum pouco apreciada: “a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo”. Leão XIV convida-nos a “desarmar a linguagem”, a renunciar a “palavras mordazes, juízos temerários e calúnias”. Em vez disso, ele incentiva o cultivo da bondade: “Esforcemo-nos para aprender a medir as nossas palavras e cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social e nas comunidades cristãs”. Em seguida, afirma: “as palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz”.

Um caminho para vivermos juntos

Por fim, Leão XIV ressalta a dimensão comunitária da Quaresma: “A Quaresma realça a dimensão comunitária da escuta da Palavra e da prática do jejum”. Tal como o povo de Israel que se reunia para ouvir a Lei e jejuar (cf. Ne 9,1-3), as paróquias, as famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer “um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum e o jejum suporte um verdadeiro arrependimento”.

Sob essa perspectiva, a conversão não toca apenas a consciência pessoal, mas também “o estilo das relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de se deixar interpelar pela realidade e de reconhecer o que realmente orienta o desejo, tanto nas nossas comunidades eclesiais como na humanidade sedenta de justiça e reconciliação”.

O Papa conclui pedindo a graça de uma Quaresma que torne “nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos mais vulneráveis” e que faça das comunidades cristãs “lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação”, contribuindo para a construção da “civilização do amor”. Enfim, que “a força de um jejum também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro”. 

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