O que dizer do encontro entre o Cardeal Fernandez e o superior da FSSPX?
O simples fato de o encontro ter ocorrido já diz muito. O conteúdo, por ora escasso, diz ainda mais pelo que silencia.
Redação (12/02/2026 09:36, Gaudium Press) A notícia do encontro entre o Cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e o Pe. Davide Pagliarani, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), deve ser lida menos como um avanço concreto e mais como um gesto carregado de ambiguidade e tensão contida. O simples fato de o encontro ter ocorrido já diz muito. O conteúdo, por ora escasso, diz ainda mais pelo que silencia.
A Santa Sé optou por uma comunicação sóbria, quase minimalista, confirmando o diálogo e reiterando a vontade de continuar as conversas. Não há anúncios, não há cronogramas públicos, não há concessões explícitas. Esse tom revela uma consciência aguda da delicadeza do momento. A FSSPX vive novamente sob a sombra de um possível gesto extremo: a eventual sagração episcopal sem mandato pontifício. E Roma sabe que qualquer palavra mal colocada pode empurrar a situação para um ponto de não retorno.
É aqui que a explicação do Pe. Gerald Murray, canonista da Arquidiocese de Nova Iorque, ajuda a colocar o debate nos trilhos corretos. Contra uma leitura apressada e emocional, Murray lembra que a sagração episcopal ilícita não é automaticamente um ato cismático no Direito Canônico. O caso de Dom Marcel Lefebvre foi tratado como cisma não apenas pelo ato em si, mas pelo contexto de advertências formais, desobediência consciente e explícita à autoridade do Papa. Houve uma vontade manifesta de agir contra Roma, e isso pesou tanto quanto o gesto sacramental.
A história recente da Igreja confirma essa complexidade. Durante o período comunista na Tchecoslováquia, bispos foram consagrados sem autorização romana para garantir a sobrevivência da vida sacramental. O mesmo ocorreu, em escala ainda maior, na China. Em nenhum desses casos, a Santa Sé declarou automaticamente um cisma. Pelo contrário, optou por regularizações posteriores, reconhecendo que a ilicitude jurídica não coincidia necessariamente com uma ruptura eclesial formal.
O problema da FSSPX, portanto, não é simples nem redutível a slogans. Canonicamente, é complicado. Eclesiologicamente, é explosivo. O ponto central não é apenas o ato, mas o espírito que o acompanha. Murray toca no nervo da questão ao falar do espírito de separatismo. Quando uma consagração ocorre em desafio direto à autoridade da Sé Apostólica, fora de qualquer situação extrema de perseguição ou impossibilidade objetiva de comunicação, o gesto passa a carregar um peso simbólico devastador.
É exatamente esse o risco que Roma tenta evitar ao manter canais abertos até julho. O tempo não é um detalhe; é parte da estratégia. Há uma janela real para negociação, mas ela exige algo que historicamente nem sempre esteve presente nas conversas com a Fraternidade: interesse ativo de ambos os lados em identificar e esclarecer os pontos ainda não resolvidos. Não se trata apenas de liturgia, nem apenas do Concílio Vaticano II. Trata-se de eclesiologia, de autoridade, de comunhão visível.
Sob o pontificado de Leão XIV, essa questão ganha contornos ainda mais sensíveis. O novo Papa herdou um dossiê inflamável, com precedentes contraditórios e expectativas opostas. De um lado, setores que esperam uma solução rápida, quase administrativa. De outro, vozes que temem qualquer gesto que pareça legitimar décadas de resistência prática à autoridade romana. O Papa sabe que uma decisão mal calibrada pode tanto empurrar a FSSPX para fora quanto provocar fraturas internas na Igreja.
A observação de Murray sobre o tamanho e a vitalidade da Fraternidade não é irrelevante. São mais de 600 sacerdotes, muitos seminários cheios, comunidades vivas, fiéis que frequentam os Sacramentos. Ignorar isso seria pastoralmente irresponsável. Ao mesmo tempo, normalizar uma situação irregular sem resolver o núcleo do problema seria institucionalmente suicida. A unidade católica não é apenas sociológica, ela é visível, jurídica e doutrinal.
O encontro entre Fernández e Pagliarani deve ser lido, portanto, como um gesto de contenção. Não é ainda reconciliação, mas tampouco é ruptura. É um esforço para manter o conflito dentro de um espaço negociável. Fernández, frequentemente criticado por setores tradicionais, aparece aqui menos como teólogo polêmico e mais como gestor de uma crise eclesial de longo prazo. Sua missão não é convencer, mas ganhar tempo e evitar o pior.
A FSSPX, por sua vez, encontra-se numa encruzilhada histórica. Avançar para uma sagração ilícita seria, mesmo que não automaticamente cismático no plano técnico, um sinal inequívoco de afastamento prático de Roma. Seria dizer, na prática, que a comunhão visível é secundária frente a uma autocompreensão própria da Tradição. Isso teria consequências que dificilmente poderiam ser revertidas com facilidade, mesmo à luz de precedentes históricos.
O que está em jogo não é apenas a regularização de uma fraternidade, mas a própria compreensão de como a Igreja lida com conflitos internos prolongados. O Direito Canônico oferece nuances. A pastoral exige paciência. A política eclesial pede prudência extrema. O encontro noticiado pelo Vatican News não resolve nada, mas evita que tudo se perca de uma vez.
Se um acordo for possível, dependerá menos de fórmulas jurídicas engenhosas e mais de uma mudança de atitude. Como disse Murray, é preciso identificar e esclarecer o que ainda está em aberto. Sem isso, qualquer solução será apenas provisória. A Igreja já viu esse filme antes. E sabe que finais apressados costumam cobrar um preço alto demais.





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