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A Igreja floresce: ordenações em sigilo em meio à perseguição na Nicarágua

Enquanto o regime de Ortega tenta sufocar a Igreja dentro das fronteiras nicaraguenses — com prisões, expulsões, confiscos de templos, vigilância constante e até alterações constitucionais para interferir na vida religiosa —, o exílio se transforma em solo fértil para novas vocações.

Redação (12/02/2026 09:36, Gaudium Press) Em uma cerimônia solene, mas extremamente discreta, dois sacerdotes nicaraguenses foram ordenados no dia 7 de fevereiro, na Costa Rica. A celebração, de caráter clandestino e simbólico, aconteceu na Diocese de Limón, sob rigorosas medidas de sigilo, sem a presença de familiares, sem anúncio público e sem transmissão oficial. O motivo: o medo de represálias por parte do regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo.

Uma fonte eclesiástica confirmou que a identidade dos novos presbíteros está sendo mantida em sigilo por razões de segurança. Tanto eles quanto seus familiares e amigos que permanecem na Nicarágua correm risco de perseguição. Essa decisão reflete o clima de repressão sistemática contra a Igreja Católica no país centro-americano, onde dezenas de padres, seminaristas, religiosas e bispos foram presos, expulsos ou forçados ao exílio.

Uma obra de Deus

Na homilia, Dom Javier Gerardo Román Arias, bispo da Diocese de Limón, destacou o profundo significado espiritual daquela ordenação vivida em sigilo: “Não estamos aqui para celebrar um acontecimento humano, mas para contemplar uma obra de Deus; uma obra que não se apaga com a perseguição, que não para diante de fronteiras, que não se quebra com o exílio. Hoje a Igreja reza em silêncio, porque sabe que, quando Deus chama, até o silêncio se torna fecundo”.

Dirigindo-se diretamente aos recém-ordenados, o bispo lembrou o sofrimento do desterro e a fidelidade à vocação: “Vocês chegam a este momento com uma história marcada pela cruz. Não deixaram sua pátria por escolha, mas por fidelidade. Hoje são ordenados longe da família, sem o abraço dos seus, em uma celebração sóbria, quase escondida. Mas nada disso é estéril. Pelo contrário, esta ordenação vivida no silêncio já é um poderoso testemunho de fé, pois proclama que a vocação não depende das circunstâncias, mas da fidelidade de Deus”.

Citando o profeta Jeremias, Dom Román lembrou que, antes do medo, antes do exílio e antes da dor, Deus já havia pronunciado o nome deles. E acrescentou: “Vocês caminharam por vales escuros: a incerteza, o desenraizamento, a separação. No entanto, hoje podem afirmar que o Senhor os conduziu até aqui, que preparou esta mesa e ungiu sua cabeça com óleo santo, mesmo em terra estrangeira que já não é estranha”.

O bispo também agradeceu a acolhida do povo costarriquenho: “A Costa Rica não é apenas um lugar geográfico; é uma casa que abriu suas portas, uma Igreja que os acolheu como irmãos, um povo que ofereceu refúgio sem fazer muitas perguntas. Aprendam a amar esta terra não como substituto da pátria perdida, mas como um dom providencial de Deus. Sirvam a este povo com amor pastoral, respeito e gratidão”.

Por fim, exortou-os a perseverar com fidelidade até o fim: “Que um dia possam dizer, com o coração em paz e a vida entregue: não vivi para mim, vivi para Cristo e para o seu povo”.

Uma Igreja sob assédio

Desde a crise sociopolítica de abril de 2018, o regime de Ortega e Murillo desencadeou uma perseguição sem precedentes contra a Igreja Católica na Nicarágua. Padres, religiosas e bispos são vigiados, ameaçados ou presos. Suas homilias são gravadas por agentes do Estado, e muitos templos, escolas, universidades católicas, clínicas médicas, lares de idosos e meios de comunicação ligados à Igreja foram confiscados.

O assédio chegou até o mais alto nível diplomático: um núncio apostólico foi expulso do país, e inúmeros religiosos foram forçados a abandonar seu ministério ou buscar refúgio no exterior. A maioria dos sacerdotes teme sair da Nicarágua, com medo de não poder retornar.

Recentemente, o governo modificou a Constituição para permitir a intervenção estatal na criação de grupos religiosos estrangeiros, tornando-se uma autoridade paralela — e de fato superior — à Igreja. Analistas interpretam isso como uma tentativa de controlar as vocações, a formação de seminaristas e a vida pastoral.

Vocação no exílio

As ordenações em Limón são um sinal claro de resistência da fé. Enquanto o regime tenta sufocar a vida eclesial dentro do país, o exílio se transforma em um novo solo fértil para o florescimento das vocações.

Mesmo longe da terra natal e sem o abraço dos entes queridos, os novos sacerdotes receberam o óleo sagrado em um altar improvisado — símbolo de uma Igreja viva que, mesmo ferida, continua a dar frutos.

Como bem disse Dom Román: “Quando Deus chama, nem o exílio nem o silêncio conseguem apagar sua voz”.

Com informações Religión en Libertad

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