“Conferência Sinodal Alemã” aprovada como mecanismo de controle sobre os bispos
O Caminho Sinodal alemão terminou com um golpe na estrutura apostólica da Igreja.
Redação (10/02/2026 17:34, Gaudium Press) Quem acompanhou o debate final da última assembleia do Caminho Sinodal alemão testemunhou o caos das propostas apresentadas. Até mesmo o Cardeal Reinhard Marx, visivelmente irritado, exclamou: “Eu não quero isso!”. O bispo Peter Kohlgraf, geralmente alinhado com as posições progressistas, também manifestou sua irritação.
A Conferência Sinodal alemã aprovou, entre outras medidas, a criação de um órgão de supervisão sobre os bispos por meio de uma votação polêmica que gerou forte rejeição interna e que pode enfrentar um veto de Roma. O Cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique, expressou abertamente sua oposição a esse sistema de controle, que obrigaria os bispos a prestarem contas a um grupo de leigos sobre a implementação das decisões do Caminho Sinodal alemão.
Na votação, decidiu-se que as dioceses serão obrigadas a monitorar quais resoluções sinodais foram aplicadas e quais não. Os resultados deverão ser comunicados à Conferência Sinodal, perante a qual cada bispo terá de se justificar. O mecanismo foi aprovado com 21 votos favoráveis entre os 47 bispos presentes — uma maioria que levanta sérias dúvidas sobre sua legitimidade.
Uma aritmética sinodal questionável
O jornalista Peter Winnemöller analisou a situação no portal kath.net. O processo de votação revelou as peculiaridades matemáticas do Caminho Sinodal alemão. Embora haja atualmente 59 bispos na Alemanha, apenas 47 compareceram à assembleia. Para uma maioria de dois terços, seriam necessários 32 votos. No entanto, apenas 33 bispos votaram efetivamente, o que elevaria o limiar para 22 votos favoráveis.
A direção sinodal adotou então um critério controverso: considerar as abstenções como votos não emitidos, permitindo atingir a maioria de dois terços com apenas 21 votos a favor — na prática, uma minoria do total. Essa manipulação aritmética, segundo o analista, revela o cerne do projeto sinodal alemão: “Enganar, manipular e trapacear para impor sua agenda”.
A rejeição do Cardeal Marx
A reação mais expressiva veio do próprio Cardeal Reinhard Marx, que declarou sem rodeios: “Eu não quero isso!”. O arcebispo de Munique rejeitou categoricamente a criação de uma “instância superior” na Alemanha que supervisionasse os bispos e interferisse nas dioceses. Ironicamente, foi exatamente isso o que acabou de ser aprovado.
O novo órgão funcionará com uma composição em que os bispos estarão permanentemente em minoria, com no máximo 27 representantes episcopais contra 54 leigos. Isso permitirá decisões judiciais ou administrativas que devem ser obrigatoriamente seguidas mesmo que sejam contra a aprovação dos bispos, já que eles perderam o direito de veto.
Um órgão sem precedentes no direito canônico
A Conferência Sinodal se configura como um conselho de supervisão eclesiástica sem precedentes na estrutura da Igreja. Entre suas competências está o controle sobre o orçamento da Associação das Dioceses Alemãs (VDD), que passaria para as mãos do Comitê Central dos Católicos Alemães (ZdK), um organismo leigo sem relevância no direito canônico.
O bispo de Limburgo, Georg Bätzing — presidente cessante da Conferência Episcopal Alemã (DBK) —, argumentou que, em sua diocese, ele também não elabora nem aprova pessoalmente o orçamento. No entanto, admitiu que nenhum orçamento entra em vigor sem sua assinatura, mantendo assim a responsabilidade final. O problema jurídico reside em como transferir a soberania orçamentária da VDD a um órgão de leigos sem violar os estatutos da associação.
A armadilha final do Caminho Sinodal
Segundo Winnemöller, o ponto 4.2 da ordem do dia funcionou, segundo a metáfora utilizada na análise, como a chicote do Balrog no filme O Senhor dos Anéis: quando os bispos pensavam terem se salvado devido à falta de vinculação das decisões sinodais, esse último acordo se enrolou em seus pés e os arrastou para o abismo do controle permanente por parte de um órgão de funcionários.
As resoluções do Caminho Sinodal não têm caráter vinculante. Algumas contradizem abertamente a doutrina da Igreja, e nenhum bispo é obrigado a implementá-las. A questão agora é: qual prelado estará disposto a enfrentar a tempestade midiática ao ser apontado como dissidente por um veredicto da Conferência Sinodal?
O obstáculo de Roma
Para a Igreja universal, essa decisão representa uma linha vermelha intransponível — ou pelo menos deveria. Ela desativa a estrutura apostólica da Igreja ao permitir que os bispos sejam submetidos a votação em um órgão onde são minoria. O Vaticano deixou claro que os órgãos sinodais são exclusivamente consultivos, destinados a assessorar os bispos com sua experiência, mas nunca órgãos decisórios com competências financeiras, muito menos conselhos de supervisão eclesiástica.
Os estatutos devem agora ser aprovados pela Conferência Episcopal Alemã, onde Dom Bätzing busca uma maioria de dois terços — embora não tenha esclarecido se essa maioria é necessária para a validade jurídica do texto, e se seria uma maioria real ou baseada no “estilo do Caminho Sinodal”. Posteriormente, os estatutos devem ser enviados a Roma, onde há esperança de que não sejam aprovados em sua forma atual.
O conceito de “monitoramento” como ponto de inflexão
Como observou Christian Geyer no Frankfurter Allgemeine Zeitung, agora trata-se da “vontade monitorada e não mais do desejo sem consequências”. O monitoramento representou para o Cardeal Marx uma espécie de revelação conceitual, capaz de provocar nele uma antecipação mental da cena romana, quando um órgão nacional (a Conferência Sinodal) pretender atuar como equivalente funcional de uma instância superior mundial (isto é, Roma) para supervisionar as dioceses alemãs. O que diriam os romanos, pergunta acertadamente Geyer, senão “nós não queremos isso!”?
O jurista canônico Norbert Lüdecke classificou o processo como um “avatar de participação”, enquanto Thomas Schüller foi mais contundente com sua tese de “nulidade”: “eles brincam de fazer sínodo, mas não é sínodo de verdade. O resultado das consultas e das decisões continua sem qualquer força vinculante”.
Um futuro incerto
Há um cenário em que Roma delimita canonicamente os estatutos existentes, suaviza as possibilidades de decisão e controle e, em seguida, os aprova — uma variante que parece ser assumida pelo bispo de Passau ao prever que a Conferência Sinodal será estabelecida.
Após um período suficientemente longo de reflexão e oração (que bem pode durar anos), a alternativa viável consistiria em um autêntico recomeço da sinodalidade na Alemanha, concentrando-se exclusivamente na nova evangelização, deixando para trás as recorrentes discussões em torno de impossibilidades de ordem doutrinal.
Com informações Infocatólica






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