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Rápido! Acorda e cava!

Muitas vezes quando recebemos um grande benefício, seja material ou espiritual, esquecemos que por detrás disso houve alguém que padeceu um grande sofrimento.

Redação (10/02/2026 18:20, Gaudium Press) Após duas semanas de ininterrupta ação, um sargento paramédico chamado Gereon Goldman e seu pelotão receberam ordens para refugiarem-se em um vale estreito, isolado da linha de frente de batalha por uma alta montanha, pois outro conjunto iria assumir o fronte. Não demorou muito para que chegassem os primeiros feridos, aos quais o sargento tratou o melhor que conseguiu, acabando depois da meia-noite, completamente exausto. Como não havia mais nenhum trabalho a ser realizado, designou dois soldados para ficarem de guarda e deitou-se para dormir.

Algum tempo depois, deu-se um fato inesquecível para o sargento. De repente ele acordou com uma voz clara e forte:

— Gereon, acorda! Rápido! Acorda e cava!

Assustado, olhou ao redor pensando se tratar de algum enfermo que se aproximara. No entanto, estavam todos quietos. Fitou o relógio: duas horas da manhã. Julgando ter sonhado, foi deitar-se novamente e, nesse momento, ouviu novamente:

— Gereon, levanta-te! Rápido, rápido, cava uma trincheira!

“Algum dos guardas está querendo me provocar”, pensou e dirigiu-se indignado aos dois soldados pedindo que parassem com aquela brincadeira.

— Peço perdão, Sr. Sargento, mas ninguém pronunciou palavra aqui. — respondeu um deles.

Confuso com o que estava acontecendo, o comandante do pelotão encostou-se a uma árvore e começou a observar o céu na esperança de recuperar o sono que há pouco perdera, quando ouviu pela terceira vez:

— Gereon, chegou a hora! Rápido, cava uma trincheira imediatamente!

— Quem continua a me incomodar? — gritou ele, indignado.

Os dois guardas aproximaram-se, questionando o motivo do grito.

— Mas vocês não ouviram a voz?

Entreolhando-se, afirmaram que o sargento estava muito cansado e precisava dormir.

Não podendo duvidar que ouvira a voz e tomado de pavor e ansiedade, o comandante começou a fazer algo que nunca tinha feito desde o início da campanha: muniu-se de uma pá e uma picareta e começou a abrir uma trincheira o mais rápido que conseguiu.

Ao amanhecer, os soldados aproximaram-se do buraco e disseram, brincando:

— Agora a guerra está ganha, se até os suboficiais estão cavando trincheiras…

Um deles, mais experiente, perguntou o porquê daquela atitude, ao que o sargento respondeu:

— Soldado, você tem esposa e filhos, é melhor que cave um buraco também. Agora não temos tempo para explicações.

Sabendo bem que o comandante não era homem de dar ordens precipitadas, logo obedeceu.

Algumas horas se passaram. Com o trabalho concluído, o sargento pôs-se a descansar, deitado no buraco com os olhos para o céu. Alguns instantes depois, ouve-se: “Alarme!”. Doze aviões bombardeiros desciam o vale e lançavam suas bombas. Todos correram para algum abrigo; o sargento e o soldado foram cobertos por uma chuva de aço, pedras e terra.

Vinte minutos depois, soldados vindos de um posto próximo retiraram-nos inconscientes dos buracos. Após um longo tempo de respiração artificial, comprovaram, consternados, que eram os únicos sobreviventes. Todos os outros tinham morrido ou estavam gravemente feridos.

“Quem me chamou durante a noite?”, pensava o sargento.

Foto: diocese de São João del Rei

Foto: diocese de São João del Rei

Três semanas depois, ele recebe uma carta escrita por uma freira de um convento onde o militar costumava assistir à Santa Missa antes da guerra, com a seguinte mensagem:

— Não sei o motivo, mas não consegui dormir esta noite — era a madrugada do bombardeio e da voz. Algo me dizia que você estava em perigo, então levantei-me e rezei durante horas. Isso se deu às duas horas da manhã. Por favor, escreva se algo aconteceu.

O preço de uma graça recebida

O fato narrado nos ilustra uma realidade que, embora muito presente em nossa vida, é frequentemente esquecida: a Comunhão dos Santos. Essa verdade de Fé que proclamamos ao recitar o Credo nos ensina que estamos ligados a todos os católicos do mundo, todos os Santos do Céu e todas as almas do purgatório, pois, como diz o Apóstolo: “Como o corpo é um todo com muitos membros, e todos os
membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é
Cristo” (1Cor 12,12).

Por isso, cada ato bom que pratiquemos — seja uma oração bem feita, um sofrimento pequeno, mas aceito, um ato de amor a Deus, etc. — faz-nos acumular méritos no Céu, que podem ser utilizados por Deus para o benefício da alma de um outro, como afirma Pio XII: “Tremendo mistério: que a salvação de muitos dependa das orações e dos sacrifícios voluntários, feitos com esta intenção, pelos membros do Corpo Místico de Cristo”.[1] E assim também cada falta que cometemos pesa nesse edifício espiritual, tornando a prática da virtude mais penosa pelos outros.

Deste modo, lembremos: por detrás de cada graça ou benefício que recebemos, há uma vítima, muitas vezes desconhecida, que sofreu para que Deus nos desse esse dom. Da mesma forma, sempre que a Providência exigir de nós algum sacrifício, por menor que seja, aceitemos com generosidade, pois, quiçá, estaremos salvando alguma alma.

Por Artur Morais


[1] Cf. PIO XII. Mystici Corporis Christi, n.43.

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