O Santo que estimulou uma Cruzada contra os calvinistas
Considerado o Doutor suavíssimo, São Francisco de Sales era muito combativo. Bispo e Príncipe de Genebra, precisou sair dessa cidade porque os calvinistas pretendiam matá-lo.

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Redação (31/01/2026 11:20, Gaudium Press) Tendo obtido apoio do Duque de Saboia, cujas terras eram contíguas a Genebra, e de outros nobres da região, São Francisco de Sales estimulou que fosse feita uma Cruzada para reconquistar sua diocese na ponta da lança, da alabarda e da espada, com mosquetão e tudo o mais! Esta era a doçura deste Santo.[1]
Admirável firmeza da Baronesa Joana de Chantal
Em Dijon, ocorreu um lindo fato demonstrativo da fortaleza de uma insigne dama.
A Baronesa Joana de Chantal tinha seis filhos. Após enviuvar, decidiu tornar-se religiosa sob a orientação de São Francisco. Chegado o dia de sua partida, ela ajoelhou-se diante de seu sogro, pediu-lhe a bênção e o perdão de suas faltas.
Seu filho de 15 anos, que se tornara Barão de Chantal, abraçou-a fortemente esperando demovê-la dessa intenção. Não tendo êxito, deitou-se junto à porta por onde ela deveria sair e lhe disse: “Sou muito fraco, senhora, para vos reter, mas ao menos dirão que passastes sobre o corpo de vosso filho para abandoná-lo”.
Convicta da vocação que Deus lhe concedera, com admirável firmeza ela ultrapassou o corpo do jovem e viajou a Annecy, onde se estabeleceu com outras jovens numa casa que se tornou o primeiro convento da Ordem da Visitação de Santa Maria.
São Francisco de Sales as abençoou e disse: “Tende muito ânimo e humildade. Deus será vosso guia e, sob seus divinos olhos, marchareis vitoriosas sobre as cabeças dos vossos inimigos”.[2]
Renunciando a tudo para ser religiosa, ela demonstrou sua profundidade de espírito, a qual “prepara a alma para amar a Deus. O Reino dos Céus é dos violentos (cf. Mt 11-12), está escrito no Evangelho. O Reino dos Céus é dos profundos, pois é a violência dos profundos — tantas vezes chamados de fanáticos pela linguagem da impiedade — que agrada a Deus”.[3]
Recusou pedido da abadessa de Port-Royal
Convidado para celebrar o casamento do Príncipe do Piemonte com uma filha do Rei Henri IV, o varão de Deus viajou a Paris. Luís XIII, irmão da noiva, colocou à sua disposição uma bela carruagem com cocheiros muito bem trajados, pois era Bispo e Príncipe de Genebra…
Fundou um convento da Visitação em Paris e pediu a São Vicente de Paulo que o dirigisse. Angélica Arnaud, abadessa do convento de Port-Royal, quis a todo custo ser visitandina. Mas o Santo não consentiu porque era “pouco disposta a obedecer”. Algum tempo depois, essa freira orgulhosa tornou-se adepta da heresia jansenista.
Apresentaram-lhe a Princesa Henriqueta Maria, irmã de Luís XIII, que se casaria com o Rei da Inglaterra Carlos I. Ele disse-lhe que Deus a destinava para sustentar a Igreja. Houve uma revolução naquele país e a princesa voltou à França, em 1644. Carlos I foi decapitado cinco anos depois.
O Cardeal arcebispo de Paris lhe propôs ser seu coadjutor com direito à sucessão, mas ele não aceitou esse elevadíssimo cargo.
“Quero morrer na única Religião verdadeira”
O Rei da França Luís XIII, após ter vencido calvinistas que infestavam o país, foi para Avignon onde diversos papas haviam residido. A fim de saudá-lo, o varão de Deus para lá se dirigiu. Quando entrou na cidade, o povo o recebeu com entusiasmo, pessoas o acompanhavam pelas ruas e osculavam sua capa.
Viajou a Lyon – Sudeste da França – e conversou com Santa Joana de Chantal sobre a Ordem da Visitação, que já possuía 13 mosteiros. Atendeu príncipes, duques, o governador de Lyon e o Duque de Nemours, cidade próxima de Paris, o qual se ajoelhou diante dele e pediu a bênção.
Embora suas pernas estivessem inchadas e cobertas de chagas, não diminuiu suas atividades. Em certo momento, desmaiou; ao voltar a si, disse: “Quero morrer na Fé da Igreja Católica Apostólica Romana, a única Religião verdadeira”.[4] Alguns médicos colocaram ferro em brasa em sua nuca e parte superior da cabeça, causando-lhe profundas feridas. Ele derramou lágrimas, mas não fez nenhuma queixa.
Em 28 de dezembro de 1622 – memória dos Santos Inocentes –, exclamou: “todos Santos Inocentes rogai por mim”, e Deus acolheu sua nobre e combativa alma. Estava com 55 anos de idade.
Multidões foram venerá-lo, e seu féretro foi levado aos ombros até Annecy – cerca de 140 quilômetros. O apostolado de São Francisco foi tão eficaz que ele, movido pela graça divina, converteu 72.000 hereges.
Dominou completamente seu gênio irascível
“Quando São Francisco de Sales morreu, resolveram autopsiá-lo. Para surpresa geral, encontraram seu fígado endurecido, como se fosse de pedra…De fato, embora tivesse um gênio péssimo, ele se dominou de tal maneira que ficou famoso por sua doçura: era considerado o santo da doçura.
“Assim devemos ser: se possuímos dificuldade de trato, procuremos ter gênio angélico; se somos inclinados à preguiça ou temos medo de lutar, procuremos ser heróis ao serviço de Nossa Senhora.
“A exemplo dos santos, sejamos exímios no combate aos defeitos que julgamos mais difíceis de vencer. Para isso, devemos examinar nossos atos implacavelmente, sem nunca pensarmos em atenuantes. Porque nós só os reconheceremos se formos implacáveis, analisando-os com lupa, um por um”.[5]
Combater os inimigos de Deus e da Igreja
Estando em Paris, no ano de 1603, São Francisco redigiu o livro “Filotéia”. O Rei Henri IV escreveu-lhe recomendando que o publicasse. Traduzida para quase todas as línguas da Europa, teve até 1656 quarenta edições.
A rainha Maria de Médicis, esposa de Henrique IV, enviou um exemplar dessa obra encadernado com diamantes e pedrarias ao Rei da Inglaterra Jaime I – filho de Maria Stuart.
Eis um trecho desse livro escrito pelo suave São Francisco de Sales:
“Aos inimigos de Deus e da Igreja devemos combater quanto pudermos, como são os chefes de heresias, cismas, etc. É uma caridade descobrir o lobo que se esconde entre as ovelhas, em qualquer parte onde o encontramos.”[6]
Por Paulo Francisco Martos
Noções de História da Igreja
[1] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A beleza da luta – II. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XVIII, n. 211 (outubro 2015), p. 34.
[2] HAMON, Andrés. Vida de San Francisco de Sales. Buenos Aires: Editorial Difusion. 1948, v. II, p. 33.
[3] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santa Joana de Chantal, profundidade e desapego. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XVI, n. 185 (agosto 2013), p. 30.
[4] Cf. HAMON, op. cit. v. II, p. 227.
[5] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. São Francisco de Sales: exemplo de combate aos vícios. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XV, n. 167 (fevereiro 2012), p. 2.
[6] SÃO FRANCISCO DE SALES. Filotéia ou Introdução à Vida Devota. Petrópolis: Vozes. 1958 – 8. ed. p. 253.





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