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Vaticanista observa reações dos cardeais no primeiro consistório da era leonina

A era leonina desponta sem rompimentos teatrais, mas com um movimento firme: mais reuniões, mais consulta, mais método e menos improviso.

Foto: Vatican Media

Foto: Vatican Media

Redação (21/01/2026 16:22, Gaudium Press) Normalmente o início de qualquer governo ou gestão é marcado pela virtude da prudência. No Vaticano, onde cada gesto carrega camadas de significado, e cada palavra precisa resistir a interpretações cruzadas, o começo de um pontificado raramente vem com estrondo; ele chega, quase sempre, por meio de sinais. E foi exatamente isso que se viu no primeiro consistório da era leonina, realizado nos dias 7 e 8 de janeiro, quando o Papa Leão XIV convocou os cardeais para um encontro de trabalho, que já indicava uma ruptura prática em relação ao estilo de seu predecessor. Com efeito, o novo Papa deseja que o Colégio Cardinalício se reúna com regularidade para discutir sobre diversos temas, funcionando como um organismo consultivo real, e não apenas como um elemento decorativo em ocasiões esporádicas.

Uma das análises mais interessantes sobre este assunto foi apresentada pelo jornalista Christopher R. Altieri, do Crux Now, em artigo publicado em 19 de janeiro. Ele examinou os documentos internos preparados para orientar o encontro, destacando a postura cautelosa dos cardeais e dos seus principais redatores, todos eles ligados ao alto comando do pontificado anterior. Não se trata aqui de um detalhe de bastidores, mas de um termômetro institucional. Quando a Igreja atravessa uma mudança de era, os documentos não mostram apenas ideias; mostram instintos. E os instintos, nessa fase inicial, apontam para uma palavra-chave: contenção.

Dado o caráter extenso do artigo de Altieri, procuramos fazer um resumo interpretativo.

A escolha dos temas

O consistório trouxe quatro temas propostos para debate: sinodalidade e sínodo, Exortação apostólica Evangelii gaudium, Constituição apostólica Praedicate Evangelium e liturgia. No entanto, o próprio Papa, num gesto que combina método e psicologia pastoral, deixou aos cardeais a escolha do que realmente seria discutido. E a escolha que fizeram é reveladora. Optaram por sinodalidade e pela Evangelii gaudium, precisamente os assuntos mais abertos, menos técnicos e menos conflitivos. Evitaram a reforma concreta da Cúria e deixaram a liturgia para uma próxima discussão. Em outras palavras, escolheram conversar sobre conceitos amplos, com margem para consenso retórico e sem pressão de decisões imediatas.

Não é difícil compreender o motivo para tais escolhas. Praedicate Evangelium envolve alterações em estruturas, competências, delegações, organogramas e poder real, com pautas que expõem fissuras e definem vencedores e vencidos. A liturgia, por sua vez, é a ferida nervosa da vida interna contemporânea da Igreja. Mexer nela significa tocar em identidade, obediência, tradição e tensões que atravessam dioceses e conferências episcopais inteiras. Já sinodalidade e Evangelii gaudium permitem um debate com linguagem elevada, com frases sobre comunhão e missão, com espaço para todos dizerem algo sem exigir resoluções imediatas. Numa fase em que o Papa ainda está consolidando sua autoridade e os cardeais se reconhecem como corpo sob um novo comando, a prudência foi o voto vencedor.

Esse consistório, no entanto, não foi apenas uma conversa de salão. Altieri observa que Leão XIV anunciou a intenção de realizar outro encontro de dois dias no fim de junho, e depois encontros anuais de três a quatro dias. Isso, por si só, já cria um novo eixo de governo. O pontificado anterior raramente convocava consistórios para discussão; o atual começa deixando claro que quer ouvir e manter o Colégio em função ativa. A diferença é relevante, não apenas pelo que muda, mas pelo que obriga os cardeais a se prepararem, alinharem posições, formarem blocos, desenvolverem linguagem comum e sobretudo a perceberem como o novo Papa reage ao que é dito.

Os documentos do consistório

Os documentos internos — obtidos e confirmados pelo Crux Now, segundo Altieri — são curtos, de duas páginas, bilíngues e elaborados por quatro figuras centrais: Mario Grech sobre sinodalidade, Víctor Manuel Fernández sobre Evangelii gaudium, Arthur Roche sobre liturgia e Fabio Baggio sobre Praedicate Evangelium. O conjunto é um retrato de uma geração que, após anos de protagonismo, agora precisa reaprender a existir sob outra liderança. É precisamente no tom desses documentos que o artigo de Altieri se destaca, pois ele vai além do conteúdo. Há cautela na escolha das palavras, esforço para se manter útil — sem soar como obstáculo ao novo Pontífice — e para não revelar todas as cartas.

Cardeal Fabio Baggio

O texto de Baggio sobre a reforma da Cúria é talvez o mais ilustrativo, pois ele recorre a expressões típicas do ciclo anterior — como “duplo serviço” da Cúria ao Papa e aos bispos, descentralização e sinodalidade como método de escuta. Entretanto, ele deixa em aberto a pergunta que realmente interessa quando se fala de governo: como isso funciona concretamente? Quem decide o quê? O que sai de Roma e vai para as Igrejas locais? E com que critérios? É um documento que reafirma princípios, mas não organiza consequências. Ele soa, como notou Altieri, mais como texto administrativo de legitimação do passado do que como instrumento para resolver os impasses que o pontificado anterior deixou.

Mais significativo ainda é aquilo que não aparece. Um dos debates mais espinhosos da reforma curial dos últimos anos foi a tese de que o poder de governo pode derivar da missão canônica e não necessariamente da Ordem sagrada, abrindo caminho para que leigos e religiosos não ordenados ocupem funções com peso decisório. Um exemplo mais simbólico disso ocorreu com nomeações recentes que provocaram discussões canônicas e desconfortos silenciosos. O fato de o documento de Baggio simplesmente contornar esse ponto é, per se, um recado: há certos assuntos que  não devem ser colocados na mesa enquanto Leão XIV ainda está “lendo a sala”.

Cardeal Mario Grech

No caso de Mario Grech, seu texto sobre sinodalidade tenta consolidar um conceito que, no pontificado anterior, foi repetido à exaustão e que, paradoxalmente, permanece sem definição consensual. Grech insiste na sinodalidade como forma eficaz de colaboração para auxiliar o Papa. É um aspecto interessante, uma vez que reposiciona o tema; menos revolução e mais instrumento; menos mecanismo de transformação permanente e mais estilo pastoral. Ele também reconhece que nem toda sinodalidade requer assembleia institucional. Essa observação, aparentemente modesta, pode ter peso estratégico; sugere que a sinodalidade não precisa se converter em uma máquina, pode ser uma atitude, pode ser um método, pode até ser um caminho de normalização depois do excesso de discurso.

Recorda-se que o Papa Leão XIV definiu a sinodalidade como um “estilo”. O Papa Francisco, ao não adotar essa definição, permitiu que o conceito adquirisse contornos vagos, já Leão XIV preferiu “aterrissar” o tema logo no primeiro mês de pontificado.

Altieri observa ainda o detalhe: Grech afirma a importância institucional do Sínodo dos Bispos, em contraste com uma fala anterior de Leão XIV, que evocou a fisionomia original do Sínodo tal como concebida por Paulo VI. Trata-se de um embate delicado, travado com luvas: a Secretaria do Sínodo não quer perder proeminência; o Papa parece inclinado a colocar o Sínodo em seu lugar exato, sem transformá-lo num parlamento eclesial. O tema permanece aberto, mas já se nota um ajuste de rota.

Cardeal Víctor Manuel Fernández

O texto de Fernández sobre Evangelii gaudium é o mais cuidadosamente elaborado. Ele não interpreta o documento de 2013, mas o resume — uma escolha inteligente que evita polêmica e preserva a exortação como herança compartilhada. Fernández reforça que o Papa solicitou uma “releitura” e não um abandono, sugerindo continuidade no essencial e liberdade para mudanças no acidental. É também uma tentativa de se manter funcional dentro do novo governo. Fernández, visto por muitos como símbolo do impulso teológico mais ousado do pontificado anterior, agora escreve como quem oferece serviço, não como quem reivindica agenda. O cerne do texto está na centralidade do querigma e na necessidade de reforma de estilos e organizações. A intenção é clara: mostrar ao Papa que o motor missionário pode continuar funcionando, desde que dirigido com firmeza.

Contudo, como Altieri observa com acuidade, o ponto recorrente e problemático é o risco de que a distinção entre verdades centrais e verdades secundárias se transforme em ferramenta de relativização. De fato, existe uma hierarquia de verdades na teologia católica. O problema começa quando isso vira método de gestão do desconforto: o que pesa menos pode ser deixado de lado, e o que incomoda pode ser rebaixado. No pontificado anterior, muitos sentiram que tudo estava permanentemente em revisão. A dúvida agora é se Leão XIV aceitará essa lógica fluida ou buscará um eixo de maior estabilidade.

Cardeal Arthur Roche

Quanto ao texto do Cardeal Arthur Roche, ele parece o menos disposto ao equilíbrio. Altieri menciona que já houve muita repercussão sobre esse documento, e não por acaso. Roche apresenta um argumento rigoroso em defesa da continuidade com Traditionis custodes, defendendo a unidade litúrgica como exigência. O problema, como mostra a análise, é o uso seletivo de história e de textos clássicos, como se fragmentos isolados fossem capazes de resolver questões complexas. A liturgia, na realidade, nunca foi apenas um código. Ela é cultura, memória, disciplina, teologia encarnada. E a forma como o tema vem sendo conduzido nos últimos anos produziu uma sensação de imposição e de punição que não se dissipa com citações.

O mais interessante, porém, é que os cardeais não quiseram discutir liturgia nesse primeiro consistório. Para qualquer observador atento, esse silêncio revela um dado principal. O Colégio sabe que a liturgia pode dividir. Sabe que qualquer decisão nesse domínio pode incendiar setores inteiros. E sabe sobretudo que um Papa recém-eleito não deve travar essa batalha no início. Ao adiar o tema, os cardeais preservam o novo Pontífice e a si mesmos. A questão não sumiu. Apenas foi empurrada para um momento em que Leão XIV já disporá de mais capital simbólico para agir.

Enfim, o que este primeiro consistório delineia é um Colégio Cardinalício que escolhe caminhar devagar, e um Papa que parece confortável em deixar o ritmo lento enquanto ele toma posse real do próprio governo. A era leonina desponta sem rompimentos teatrais, mas com um movimento firme: mais reuniões, mais consulta, mais método e menos improviso. Os documentos analisados por Christopher R. Altieri no Crux Now não são apenas relatórios, são espelhos que refletem uma Igreja que ainda respira o ar da era franciscana, mas já aprende a ajustar os pulmões para outra altitude. Quem lê com atenção percebe que a cautela não é fraqueza. Em Roma, ela costuma ser o primeiro nome da estratégia.

Por Rafael Ribeiro 

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