Bento XVI desconfiava do Caminho Sinodal Alemão, Francisco esperou para ver, o que fará Leão XIV?
Não se discute apenas um conjunto de propostas; discute-se a fronteira entre competência local e autoridade universal.

Foto: Erzbistum Berlin
Redação (20/01/2026 08:50, Gaudium Press) Um recente artigo de Nico Spuntoni, no Il Giornale, traz um alerta importante: o risco de um cisma na Igreja Católica da Alemanha. O principal mérito do autor é recolocar o Caminho Sinodal Alemão (Die Synodale Weg) no centro do tabuleiro, descrevendo o processo não como um debate local, mas como um ponto de ruptura potencial para toda a Igreja.
O texto não é neutro, nem pretende ser. Ele defende uma tese clara e urgente: Leão XIV herdou de Francisco um dossiê explosivo e, se não impuser limites, corre o risco real de ver um cisma se concretizar durante seu pontificado. Em outras palavras, a Alemanha não é apenas um laboratório pastoral, mas um teste de autoridade para o novo Papa.
Spuntoni constrói sua narrativa a partir de um encontro que acontecerá entre o Pontífice e o núncio apostólico em Berlim, Dom Nikola Eterovi, o qual serve de moldura para o próximo passo institucional do episcopado alemão – a votação do estatuto da chamada Conferência Sinodal – que daria forma permanente e jurídica ao processo sinodal em curso. A escolha cuidadosa das palavras pelo autor sugere que não se trata de um simples conselho consultivo, mas de um organismo de governo paralelo, dotado de poder deliberativo e que, na prática, tem a capacidade de constranger bispos dissidentes a se justificarem publicamente. Se isso se confirmar, não estamos diante de uma reforma administrativa, mas de um deslocamento do eixo de autoridade na Igreja: a do bispo, como sucessor dos apóstolos, para um sistema em que a maioria decide, e o ensinamento passa a ser objeto de disputa interna.
A chave interpretativa do artigo é a ideia de “protestantização”, já mencionada pelo Cardeal Gerhard Müller. A palavra é forte e funciona como marcador ideológico e eclesiológico. Ela traz consigo o temor de que a Igreja na Alemanha esteja tentando importar para dentro do Catolicismo um modelo de governança e de doutrina mais típico de comunidades eclesiais, onde a assembleia define rumos de fé e disciplina, segundo a votação e não a tradição. Mesmo para quem não aceita a expressão, ela revela a gravidade do diagnóstico: o conflito não seria apenas sobre temas específicos, mas sobre o modo de ser da Igreja. O autor mostra que o choque real não é se haverá novas ideias, mas quem terá a autoridade final para afirmá-las como vinculantes.
O ponto mais sensível que Spuntoni destaca é a alegação de que o Comitê Sinodal poderá introduzir mudanças doutrinais por maioria de votos. Mesmo que, na prática isso esbarre em limites canônicos, o simples fato de a Alemanha desenhar uma estrutura com aparência de parlamento eclesial já cria um precedente e uma pressão simbólica sobre Roma. A Igreja não vive apenas de textos jurídicos; vive também de sinais, de gestos e de expectativas. Um organismo nacional com “poder decisório” pode se tornar um núcleo de contrapoder, sobretudo numa Igreja local rica, bem organizada e influente.
Nesse sentido, a referência às finanças não é acessória. Spuntoni observa que a estrutura proposta também assumiria a gestão de recursos da Igreja alemã, conhecida por sua riqueza. Aqui aparece um ponto frequentemente ignorado nos debates eclesiais mais idealistas: quem controla o dinheiro controla a capacidade de agenda, de comunicação, de formação e de pressão. Quando se combina poder deliberativo com controle financeiro, cria-se algo muito próximo de um governo eclesial autônomo, capaz de resistir a intervenções romanas ou, no mínimo, de negociar de igual para igual.
O autor recua ao ano de 2019 para lembrar que Roma já tinha previsto esse desfecho. Ele cita a carta do então responsável da Congregação para os Bispos, alertando o Cardeal Reinhard Marx de que temas como ordenação de mulheres, celibato e separação de poderes não pertencem a uma Igreja particular, mas à Igreja universal, e não podem ser objeto de deliberações ou decisões de uma Igreja particular. Isso é central para entender o tipo de conflito. Não se discute apenas um conjunto de propostas; discute-se a fronteira entre competência local e autoridade universal. A eclesiologia católica sempre reconheceu espaço legítimo para inculturação e disciplina particular, mas a questão é quando a “autonomia” vira “independência”, e quando a sinodalidade vira um mecanismo de substituição do Magistério por consensos nacionais.
O artigo também sugere uma estratégia alemã: não apenas mudar a própria Igreja local, mas “contagiar” o restante da Igreja. A menção ao consistório e à esperança de Marx por um diaconato feminino em breve sinaliza que a agenda alemã não quer ficar confinada. E aqui há um aspecto de relevância no texto de Spuntoni: o conflito não termina em Berlim, porque a Alemanha atua como um polo de influência cultural e eclesial. Se Roma cede ou hesita, outros episcopados podem se sentir autorizados a avançar em processos semelhantes.
O trecho mais impactante, apresentado como inédito, é a referência a uma intervenção privada de Bento XVI, em 2021, manifestando grande preocupação e prevendo que o Caminho Sinodal faria mal e terminaria mal se não fosse interrompido. A força desse elemento é dupla. Primeiro, dá ao alerta uma autoridade moral difícil de contestar, porque Bento XVI é visto por muitos como guardião de uma visão clássica da Igreja. Segundo, reforça a ideia de continuidade de um problema que atravessa pontificados: não seria um capricho de um Papa ou de outro, mas uma tensão objetiva que Roma vem tentando administrar com diferentes estilos.
Spuntoni contrasta Bento XVI com Francisco de modo quase pedagógico: Bento desconfiava e advertia, Francisco “esperou para ver”. Há aí uma simplificação, mas também um retrato de métodos. Francisco muitas vezes privilegiou processos e escuta, esperando que as tensões se resolvessem por maturação. O problema, como o artigo sugere, é que processos não são neutros: quando se permite que avancem sem freios, eles criam fatos consumados e institucionalizam expectativas. O autor dá a entender que a paciência romana foi interpretada na Alemanha como sinal de fraqueza ou como permissão tácita.
Qual a implicação para Leão XIV? O texto deixa entrever que ele teria simpatia pelas preocupações de Bento XVI, mas precisa ter força para dizer “não”. O artigo ainda lhe dá respaldo, citando o relatório do Cardeal Mario Grech, segundo o qual cabe ao Bispo de Roma suspender um processo sinodal, se necessário. Isso posiciona o Papa diante de uma decisão que é menos diplomática e mais governamental. A questão não é se ele gosta ou não da sinodalidade, mas se ele está disposto a exercer um primado efetivo quando a sinodalidade ameaça a se tornar um instrumento de fragmentação doutrinal e disciplinar.
A análise de Spuntoni, em última instância, é um aviso sobre o custo do adiamento, ou seja, cada passo sem correção torna o recuo mais traumático. Se Roma agir cedo, está preservando a comunhão e evitando um caminho sem retorno. Se agir tarde, corre o risco de transformar qualquer intervenção em ruptura explícita.
O autor, portanto, pressiona Leão XIV para uma ação clara, inclusive porque um Papa novo costuma ter uma janela curta de autoridade simbólica mais forte, antes que alianças e resistências se consolidem.
Do ponto de vista de uma leitura católica mais ampla, o artigo tem um valor real ao insistir que sinodalidade não pode significar relativização do Magistério nem plebiscito da doutrina. A Igreja não é uma federação de igrejas nacionais com soberania própria, e o sensus fidelium não é uma pesquisa de opinião. Ao mesmo tempo, o texto carrega um tom de urgência quase alarmista, pressupondo que o desfecho lógico é o cisma, quando ainda há caminhos de reconciliação e correção. Mas talvez seja justamente essa tensão que torna a peça jornalística eficaz: ela obriga o leitor a reconhecer que existe uma linha, e que, uma vez cruzada, a ruptura deixa de ser hipótese e vira consequência.
No fundo, a pergunta do título é a que importa para Roma, para a Alemanha e para toda a Igreja: se Bento XVI desconfiava e Francisco esperou para ver, Leão XIV decidirá governar impondo limites claros ou continuará administrando o avanço gradual até o momento em que já não haverá freio que não pareça punição? O artigo aposta que, sem freios agora, o preço será uma avalanche depois.
Por Rafael Ribeiro





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