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O que esperar do primeiro Consistório do Pontificado de Leão XIV que começa hoje?

A convocação de um consistório extraordinário logo após o encerramento do Ano Jubilar é um sinal claro de que Leão XIV quer estabelecer um estilo de governo mais colegial e consultivo.

Foto: Vatican News

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Redação (07/01/2026 10:53, Gaudium Press) Hoje, 7 de janeiro, o Papa Leão XIV inaugura o primeiro consistório extraordinário de seu pontificado. Este evento não é apenas um encontro formal entre o Bispo de Roma e o Colégio dos Cardeais. Trata-se de um acontecimento de peso institucional e eclesial, com potencial de definir prioridades e marcar a direção que o novo papado pretende tomar.

A convocação de um consistório extraordinário tão cedo no pontificado – logo após o encerramento do Ano Jubilar – é um sinal claro de que Leão XIV quer estabelecer um estilo de governo mais colegial e consultivo do que o observado em seu antecessor, que muitas vezes privilegiou pequenos grupos de conselheiros no lugar da totalidade dos cardeais.

De fato, o consistório será consultivo, não decisório como um conclave, mas sua importância reside justamente na consulta ampla e na mensagem que ele envia à Igreja universal. A própria natureza de um consistório extraordinário é significativa. Segundo a explicação editorial do The Pillar, um consistório extraordinário é convocado “quando se apresentam necessidades particulares da Igreja ou assuntos de maior gravidade”, envolvendo a participação de todos os cardeais, incluindo aqueles com mais de 80 anos, que normalmente não tomam parte em atos decisórios como o conclave.

Essa universalidade de participação, unida ao fato de que o encontro se dá nos primeiros meses do pontificado, confere a este consistório um caráter inédito e potencialmente definidor. Não será uma cerimônia simbólica isolada, mas um momento de reflexão e diálogo em torno das questões que Leão XIV considera centrais para a missão da Igreja hoje.

Já o britânico Catholic Herald frisa que este será o primeiro momento, desde o conclave de maio de 2025, em que a maioria dos cardeais se reunirá pessoalmente. O pontificado de Leão XIV ainda está nas suas fases iniciais, e este consistório servirá como um teste para a sua capacidade de unir um Colégio Cardinalício geograficamente e ideologicamente diverso.

O formato adotado também merece atenção. Segundo o The Pillar, em vez de uma única sessão plenária, está previsto que os cardeais atuem em grupos de trabalho menores antes de apresentar suas reflexões ao conjunto. Essa metodologia não é casual. Dividir os participantes em grupos permite maior profundidade de discussão, participação mais efetiva e um olhar atento do Papa sobre as dinâmicas internas do Colégio. Esses grupos devem abordar temas concretos e relatar suas conclusões ao plenário, mostrando caminhos de entendimento e divisões existentes, assim como pontos de convergência. A mesma metodologia foi aplicada no consistório de 2022 liderado por Francisco e repetida nas assembleias do Sínodo da Sinodalidade.

Outro ponto que o The Pillar destaca é que, na carta enviada aos cardeais, o Papa pediu a releitura de textos como Evangelii gaudium e Praedicate evangelium, indicando que as discussões não serão meramente administrativas, mas abarcarão uma agenda que inclui temas teológicos e pastorais, como missão evangelizadora, sinodalidade e liturgia.

Vale sublinhar que a tradição litúrgica tem sido um ponto de debate recente na Igreja e a sua inclusão, ainda que em termos mais amplos do que questões específicas como o uso da Missa Tradicional, mostra que a discussão aqui pretendida é compreensiva e não apenas técnica.

O Catholic Herald observa que historicamente o consistório era um dos principais meios pelos quais os papas consultavam seus colaboradores mais próximos sobre questões de doutrina, disciplina e governo eclesial. Em tempos antigos, consistórios marcavam decisões e orientações importantes, e ainda hoje, mesmo sem caráter decisório, o consistório funciona como um fórum de discernimento profundo sobre a vida da Igreja. O termo latino con-sistere, que significa “ficar de pé juntos”, lembra que o propósito original dessas reuniões era o de partilhar conselho e reforçar a unidade entre o Papa e seus conselheiros.

O contexto em que este consistório extraordinário ocorre também é relevante. O pontificado de Francisco usou raramente esse instrumento, sendo alvo de crítica por parte de alguns cardeais, uma vez que limitava o debate colegial. Leão XIV, ao convocar todos os cardeais, logo no início de seu mandato, parece responder a essa crítica, restituindo ao Colégio Cardinalício um papel mais central no processo de consulta.

As expectativas são variadas. Uma leitura mais tradicional vê o consistório como uma oportunidade de retomar a função clássica dos cardeais como conselheiros do Papa, reforçando práticas em que a consulta coletiva precedia decisões importantes. Outra leitura mais realista reconhece que o encontro será um palco para testar afinidades e tensões dentro da hierarquia eclesiástica e para compreender melhor os equilíbrios de poder eclesial herdados pelo novo Papa. A diversidade geográfica e pastoral dos cardeais reunidos pode trazer discussões intensas e perspectivas variadas sobre os desafios que a Igreja enfrenta neste início de século.

É importante notar que este consistório não é público nem aberto a representantes leigos. Sua natureza é clerical e reservada, uma reunião da cúpula eclesiástica para tratar de assuntos internos e estratégicos. Isso o diferencia de eventos mais amplos como sínodos, em que bispos e até leigos são chamados a compartilhar reflexões. O papel do consistório, por sua própria natureza, é reforçar a comunhão interna antes de qualquer anúncio externo ou decisão pontifical.

O que se espera deste encontro, portanto, não são decretos, mas sinais. Sinais sobre como Leão XIV pretende lidar com as questões internas da Igreja, como ele vê o papel dos cardeais na formulação de políticas pastorais, disciplinares e teológicas, e como ele quer equilibrar tradição e inovação. A capacidade do Papa de escutar e de responder às preocupações manifestadas pelos cardeais pode muito bem indicar os rumos que seu governo tomará.

Além disso, há uma dimensão simbólica não negligenciável. O consistório acontece logo após a conclusão do Ano Jubilar e marca um ponto de partida para o pontificado que se inicia. Para muitos observadores, este encontro é o momento em que o novo Papa “deixa para trás” o legado imediato do seu antecessor e começa a projetar sua própria visão para a Igreja.

Em resumo, o consistório extraordinário que começa hoje representa uma aposta clara do Papa Leão XIV na colegialidade, na unidade e na consulta ampla como instrumentos para enfrentar os desafios e oportunidades da Igreja contemporânea. Ele pode não produzir decisões imediatas, mas certamente produzirá orientações, observações e consensos que serão levados adiante nos próximos meses e anos do pontificado. Ao reunir cardeais de todos os continentes e perspectivas, o futuro da Igreja se coloca em perspectiva, convidando ao diálogo interno antes de qualquer ação externa.

No conclave, os cardeais elegeram Robert Prevost; neste consistório, será Prevost a eleger em quem irá confiar. A metodologia de dividir o consistório em grupos não é casual, e o Papa terá olhos e ouvidos em todos eles. Talvez, agora sim, podemos dizer que começa o pontificado de Leão XIV e termina o de Francisco.

Por Rafael Ribeiro

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