Audiência Geral: novo ciclo de catequese dedicado ao Concílio Vaticano II
O Papa Leão XIV iniciou um novo ciclo de catequese sobre o Concílio Vaticano II e seus documentos, enfatizando que o ensinamento do Concílio ainda constitui a estrela polar do caminho da Igreja.
Redação (07/01/2026 12:27, Gaudium Press) Na audiência geral desta quarta-feira, dia 7 de janeiro, o Papa Leão XIV deu início a um novo ciclo de catequeses dedicado ao Concílio Vaticano II e à releitura de seus principais documentos.
Ao completar 60 anos do encerramento desse evento histórico, o Pontífice destacou sua atualidade e o caráter profético, que continuam a guiar a trajetória da Igreja em um mundo transformado por profundas mudanças sociais e culturais. Ele incentivou os fiéis a conhecerem o Concílio não “através do ‘ouvir dizer’, nem das interpretações que lhe foram dadas, mas pela leitura direta de seus textos, que formam o Magistério e permanecem como a “estrela polar” que orienta o caminho da Igreja até hoje.
Após o Ano Jubilar centrado nos mistérios da vida de Jesus, o Leão XIV explicou que essa é uma ocasião especial para redescobrir a “beleza e a importância” de um acontecimento que São João Paulo II chamou de “a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX”.
A geração que viveu o Concílio já não existe
O Papa mencionou que, além da comemoração do Concílio de Niceia, 2025 também marcou os 60 anos do Vaticano II.
O Pontífice observou que, embora o tempo decorrido não seja tão longo, “a geração de Bispos, teólogos e crentes do Vaticano II já não existe”. Portanto, enquanto a Igreja sente o chamado a não anular a sua profecia e a continuar a procurar novas formas de pôr em prática as suas intuições, é essencial aproximar-se dele de forma mais direta: não por relatos de terceiros ou interpretações distorcidas, mas relendo os documentos e refletindo sobre seu conteúdo.
Citando Bento XVI, Leão XIV reforçou que “com o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam atualidade; os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas instâncias da Igreja e da atual sociedade globalizada”. Essa ideia ganha ainda mais força no contexto atual, em que os desafios da globalização e das transformações culturais pedem respostas ancoradas na tradição, mas abertas ao diálogo.
Aurora de um dia de luz para toda a Igreja
Ao recordar a abertura do Concílio, em 11 de outubro de 1962, o Papa evocou as palavras de São João XXIII, que o descreveu como “aurora de um dia de luz para toda a Igreja”. O trabalho dos numerosos Padres conciliares, vindos de Igrejas de todos os continentes, abriu caminho para uma nova era eclesial, após intensas reflexões bíblicas, teológicas e litúrgicas que marcaram o século XX.
Fruto dessa profunda meditação, o Concílio Vaticano II “redescobriu o rosto de Deus como Pai que, em Cristo, nos chama a ser seus filhos; olhou para a Igreja à luz de Cristo, luz das nações, como mistério de comunhão e sacramento de unidade entre Deus e o seu povo”. O Concílio também “iniciou uma significativa reforma litúrgica, colocando no centro o mistério da salvação e a participação ativa e consciente de todo o Povo de Deus”.
Leão XIV recordou uma famosa frase de São Paulo VI: graças ao Concílio Vaticano II, “a Igreja torna-se palavra; a Igreja faz-se mensagem; a Igreja torna-se diálogo”. Disso nasce o compromisso com a unidade dos cristãos, o diálogo inter-religioso e o diálogo com todas as pessoas de boa vontade.
O chamado à santidade
O Papa enfatizou que esse espírito e essa atitude interior devem marcar a vida espiritual e a ação pastoral da Igreja nos dias de hoje. Diante dos desafios atuais, ainda há muito a avançar na reforma da Igreja, sobretudo no âmbito ministerial. Somos chamados a “permanecer atentos intérpretes dos sinais dos tempos, alegres anunciadores do Evangelho, corajosas testemunhas de justiça e paz”.
Para exemplificar, o Pontífice citou Dom Albino Luciani, futuro Papa João Paulo I, que, como bispo de Vittorio Veneto, escreveu no início do Concílio: “Existe, como sempre, a necessidade de realizar não tanto organismos ou métodos e estruturas, mas uma santidade mais profunda e vasta. […] Pode ser que os frutos ótimos e abundantes de um Concílio se vejam após séculos e amadureçam, superando com dificuldade contrastes e situações adversas”.
Essa visão destaca que os frutos mais profundos de um Concílio não dependem apenas de estruturas ou métodos, mas de “uma santidade mais profunda e vasta”, cujos efeitos podem se manifestar ao longo de décadas ou até séculos.
Devolver a primazia a Deus
Redescobrir o Concílio, disse Leão XIV citando o Papa Francisco, ajuda a “devolver a primazia a Deus, a uma Igreja que seja louca de amor pelo seu Senhor e por todos os homens, por Ele amados”. Essa abordagem coloca no centro não só o aspecto institucional, mas principalmente a dimensão espiritual e o amor ao próximo na vida da Igreja.
Ao encerrar, o Pontífice retomou as palavras que São Paulo VI dirigiu aos Padres conciliares em 1965, no final dos trabalhos, falando da hora de partir e ir ao encontro da humanidade levando a Boa Nova do Evangelho: “O passado, porque aqui está congregada a Igreja de Cristo, com a sua tradição, a sua história, os seus Concílios, os seus Doutores, os seus Santos. […] O presente, porque nos despedimos para ir ao encontro do mundo de hoje, com as suas misérias, as suas dores, os seus pecados, mas também com as suas conquistas prodigiosas, os seus valores, as suas virtudes. […] Depois, o futuro está lá, no apelo imperioso dos povos por uma maior justiça, na sua vontade de paz, na sua sede consciente ou inconsciente de uma vida mais elevada: precisamente aquela que a Igreja de Cristo pode e quer lhes oferecer”.
“Também para nós é assim”, destacou Leão XIV, convidando todos a se aproximarem dos documentos do Vaticano II, pois, redescobrindo a sua profecia e atualidade, acolhemos a “rica tradição da vida da Igreja e, ao mesmo tempo, interrogamo-nos sobre o presente e renovamos a alegria de correr ao encontro do mundo, para lhe levar o Evangelho do reino de Deus, reino de amor, justiça e paz”.






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