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Tempo de Quaresma

Redação (Segunda-feira, 02-03-2020, Gaudium PressComeçou o tempo da Quaresma. Este itinerário de quarenta dias -que se iniciou na Quarta-feira de Cinzas- será um caminho rumo a uma conversão interior, preparando-nos para a celebração das solenidades pascais.

A cinza que receberam os fiéis, na fronte ou sobre sua cabeça, é um sinal de penitência que vem de tempos antigos, quando o povo eleito do Senhor, o povo israelita, se considerava em pecado ou queria ser purificado para algum evento ou festa de destaque. Vestir-se de saco, cobrir-se de cinzas, era o singular gesto penitencial.

Começou o tempo da Quaresma. Este itinerário de quarenta dias -que se iniciou na Quarta-feira de Cinzas- será um caminho rumo a uma conversão interior, preparando-nos para a celebração das solenidades pascais.
Dos ramos de oliva ou palmas, que no ano anterior foram levantadas pelos fiéis, recordando o grito de júbilo na entrada de Jesus Nosso Senhor, em Jerusalém: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor!”, através de uma antiga tradição, se obtêm estas cinzas. Os ramos da glória passam a ser cinzas.

“Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris”: “Lembre-se de que sois pó, e ao pó deves retornar” (Gênesis 3,19), é uma das fórmulas utilizadas pelo sacerdote que, ao impor as cinzas na testa dos fiéis, pronuncia, ressaltando um aspecto triste, diríamos fúnebre, para fazer presente que, de uma hora para outra, podemos ser levados para a morte, voltando a ser pó. Pensamento de muito proveito para compenetrar-nos da necessidade de evitar o pecado. É o que nos recorda a Bíblia Sagrada, no livro do Eclesiástico, ao nos dizer: “Lembre-se do seu fim e não pecarás jamais” (Eclo 7, 40), tornando presentes nossos últimos dias, através das cinzas.

O sacerdote pode, igualmente, usar a expressão: “Converte-te e cree no Evangelho” (de Mc 1, 15), convidando-os firmemente a uma reforma de vida, seguindo seriamente aos ensinamentos do Evangelho.

Estes quarenta dias tem seu início no Século II, embora seja somente no Século IV que eles tomam estrutura recebendo o nome de Quadragésima ou Quaresma. Uma jornada que começa com a leitura do Evangelho das tentações de Jesus no deserto, como que indicando-nos que entraremos em um ciclo de experiência igual ao de Nosso Senhor, que durou quarenta dias. Da mesma forma, foram os dias em que Jesus Nosso Senhor Ressuscitado instruiu os apóstolos antes de sua Ascensão ao Céu e posterior envio do Espírito Santo, como nos relatam os Atos dos Apóstolos (1,3).

 

Nos recordará dos quarenta anos de peregrinação do povo eleito rumo à terra prometida, evocará os quarenta dias de Moisés antes do encontro com o Senhor e outros grandes acontecimentos relatados, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, representando o mais destacado da experiência de Fé do Povo de Deus. A Quaresma será um caminho que se estenderá até a Missa da Ceia do Senhor na Quinta-Feira Santa, inclusive.

Manifesta uma trajetória de expectativa e de purificação, um acrisolar dos corações em perseverante espera, de resoluções rumo a novas responsabilidades. Tempo de sérias decisões diante do mundo descristianizado que nos rodeia, com sua pobreza de palavras de vida e de valores. Em uma sociedade, na qual “o laicismo e a cultura materialista, encerram a pessoa no horizonte mundano do existir, substituindo-o à toda referência à transcendência. Este é também o ambiente no qual o céu, que está sobre nós, se escurece, porque o cobrem as nuvens do egoísmo, da incompreensão e do engano” (Bento XVI, 22-2-2012).

Praticaremos neste período o jejum, que podemos considerar como um sinal de nosso compromisso de abster-nos do mal e viver o Evangelho. Faremos uma oração fervorosa e intensa, e uma meditação mais assídua da Palavra de Deus. Será através da esmola que efetuaremos o bem aos demais, compartilhando os dons recebidos, prestando atenção às necessidades dos mais pobres, dos enfermos, dos abandonados; considerando -e isto é muito importante-, ademais, a necessidade de ajudar diante da pobreza de verdade e espiritualidade, que nos rodeia.

Momentos de maior compromisso espiritual, opondo-nos ao mal dos dias de hoje, não apenas em cada um de nós, mas também do ambiente que nos cerca. As extravagâncias dos tempos em que vivemos nos trazem à memória a parábola do filho pródigo, que depois de desperdiçar sua herança em uma vida cheia de festas e delírios do pecado, ficando reduzido a comer as bolotas dos porcos que ele cuidava, irrompe no fundo de seu coração a lembrança, iluminada por uma suave nostalgia daquele lugar ordenado que deixou, porque lhe parecia inexpressivo e chato. Aconteceu na alma deste jovem, arrastado pelos gozos da vida, um toque da graça de Deus, que o levou rumo à conversão, retornando à casa de seu pai.

Caminhemos rumo a uma “metanóia”, uma mudança de mentalidade, em direção a uma conversão espiritual. “Muitas vezes nos falta a compenetração da necessidade de sermos Santos”, comentou o Monsenhor João Clá, Fundador dos Arautos do Evangelho, em um de seus escritos, “frequentemente, procuramos ser simplesmente corretos e nos esquecemos da exortação, tantas vezes repetida, que o Concílio Vaticano II (Lumen Gentium, 40) faz: ‘O divino Mestre e Modelo de toda perfeição, o Senhor Jesus, pregou a todos e cada um de seus discípulos, qualquer que fosse sua condição, a santidade de vida, da qual Ele é iniciador e consumador: Sede, pois, perfeitos, como o vosso Pai celestial é perfeito'” (Mt 5, 48).

Que a celebração desta Quaresma -nos diz a Oração da Coleta da Missa do Primeiro Domingo da Quaresma – “nos conceda progredir no conhecimento do mistério de Cristo e que traduzamos seu efeito em uma conduta irrepreensível”.

Por Padre Fernando Gioia, EP 
www.reflexionando.org

Traduzido por Emílio Portugal Coutinho

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