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O cristão é outro Cristo padecente II
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5 de Junho de 2019 / 0 Comentários
 
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Redação (Quarta-feira, 05-06-2019, Gaudium Press) Estaria todo o cristão chamado ao martírio? Pois bem, se todo cristão é chamado a imitar a Cristo, e considerando o martírio a forma mais perfeita de imitação, logo estariam todos cristãos destinados ao martírio?

Para responder a essa pergunta vale recordar de antemão que nem todos os santos foram mártires, mas nem por isso deixaram de seguir perfeitamente a Jesus. Por outro lado, se o martírio for considerado em sentido lato, isto é, compreendendo os sofrimentos pessoais oferecidos por Deus ou pela Igreja, não haveria nesse caso uma vocação universal para o martírio? Vejamos.

Primeiramente, cumpre considerar que, em condições análogas, o sofrimento interior é mais intenso que as dores corporais. Daí imprecar o Eclesiástico (25,13): "Qualquer ferida, menos a do coração"! Com efeito, na Paixão de Jesus, mais do que carregar a Cruz às costas "eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores que ele carregava" (Is 53,4).

As aflições de sua alma eram, portanto, muito mais lancinantes que os tormentos físicos. Ou melhor, todos eles tinham uma dimensão sobrenatural e não havia dor semelhante à sua dor (cf. Lm 1,12). Nessa perspectiva, Maria Santíssima pode ser considerada, a justo título, a primeira mártir de Cristo, ao unir-se espiritualmente a todos os seus padecimentos.

Eis que a profecia de Simeão se cumpria literalmente: a cruz de Jesus se tornava gládio na alma flagelada da Virgem (cf. Lc 2,35), realizando-se nela um verdadeiro martírio espiritual.

Nesse sentido, não existiria também uma espécie de imitatio Mariae por parte dos cristãos?

Sem dúvida, e dependendo da intenção e de sua dimensão, as dores oferecidas e elevadas por meio desse tipo de imitação podem ser até mesmo mais meritórias que o próprio martírio stricto sensu.

Eis aqui um belo aspecto da imitação de Cristo, isto é, aquele realizado por meio da imitação de Maria. De qualquer forma, Jesus não "passou fazendo o bem" (At 10,38), por oferecer uma vida regalada ou por propor a maximização de prazeres; antes, o cerne de sua mensagem incluía a renúncia e o sacrifício: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16,24).

A morte de Jesus no madeiro - sustenta São Tomás - teve, entre outras razões, uma função pedagógica, ou seja, para nos servir de modelo, pois "na Cruz - elucida o Aquinate - não falta nenhum exemplo de virtude".

Pois bem, isso significa que todo o prazer deve ser rejeitado e todo sofrimento desejado?

Na realidade, a chave de resposta se encontra na intenção. Os deleites são até necessários para o repouso da alma, desde que conformes à natureza, segundo uma reta disposição e sob a vigilância da temperança. Por outro lado, o próprio sofrimento é condição implacável de nossa natureza decaída e contingente.

Ler também primeira parte: O Cristão é outro Cristo padecente

Não é possível, portanto, parar de sofrer, como prometem alguns... Na realidade, suporta-se o sofrimento. E isso é apenas possível não fugindo da cruz, mas sim, paradoxalmente, na própria imitação de Cristo Padecente: "Ninguém dentre vós queira sofrer como assassino e ladrão, ou malfeitor ou como delator, mas, se sofre como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus por esse nome" (I Pd 4,15-16).

Todos os cristãos são chamados, de alguma forma, a este tipo de martírio, "pois vos foi concedida, em relação a Cristo, a graça não só de crerdes nele, mas também de por ele sofrerdes" (Fl 1,29). Mas... como falar de martírio em pleno século XXI? Ao contrário das aparências, a Igreja hoje é mais perseguida do que qualquer outra época histórica.

Todos os dias, milhares de cristãos são mortos, encarcerados ou torturados por ódio à sua fé.
Alguém poderia objetar: mas isto está reservado para uma minoria. Não, contudo, no que diz respeito ao martírio espiritual. Cada fiel mais cedo ou mais tarde afrontará essa tipologia de sacrifício ao longo de sua vida. Talvez não convidado, como no passado, a oferecer incenso a estátuas pagãs, mas sim a tantos ídolos pós-modernos.

Talvez não acossado por leões de verdade, mas perseguido por aqueles que rugem contra a religião. Talvez não apedrejado como Santo Estêvão, mas bombardeado de ignomínias por defender a verdade. Quando o cristão oferece esses e outros tormentos por amor a Cristo, também hoje participa de seus sofrimentos (cf. Fl 3,10, I Pd 4,13), é crucificado junto com Ele (cf. Gl 2,19) e, em suma, se sofre por causa da justiça, torna-se bem-aventurado (cf. I Pd 3,14). Em outros termos, segue e imita verdadeiramente a Cristo. Logo, é santo em sentido pleno.

A imitação de Cristo Padecente

Cumpre advertir, por fim, que não é possível compreender de modo cabal o significado dos sofrimentos. Trata-se, em última análise, de um mistério. Todavia, deve-se confiar que, apesar de tudo, o jugo divino é sempre suave e o fardo leve (cf. Mt 11,30). A razão é que Deus é o autor tanto do peso às costas quanto do seu próprio sustento (conforme o provérbio: "Deus qui ponit pondus supponit manum").

Assim, mesmo os mais intricados infortúnios de um membro do Corpo Místico de Cristo possuem um sentido transcendente, ainda que numa perspectiva escatológica. Afinal, sempre "Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam" (Rm 8,28).

Ainda nesse sentido, Jesus se serve de modelo: quando tudo parecia perdido, quando a terra se fazia trevas pela maior de todas as dores - a Crucifixão -, tudo isso na realidade comprava a maior ventura para o gênero humano, a Redenção. Daí São Tiago exortar em sua epístola: "Tende por motivo de grande alegria o serdes submetidos a múltiplas provações, pois sabeis que a vossa fé, bem provada, leva à perseverança; mas é preciso que a perseverança produza uma obra perfeita, a fim de serdes perfeitos e íntegros sem nenhuma deficiência" (Tg 1,2-4).

Fica claro, mais uma vez, que o cume da vida cristã se alcança através da expiação por Cristo Crucificado. Com os olhos fixos n'Ele - ou seja, na contemplação - todas as dores são como não fossem.

Em última análise, assim como não há vida sem luta (Jó 7,1), assim também não há autêntica vida cristã sem imitação de Cristo Padecente. Para os embates hodiernos, cumpre confiar que Jesus, prestes a entrar em sua Paixão, repete-nos ainda aquelas sublimes palavras do Evangelho: "No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!" (Jo 16,33).

Padre Felipe de Azevedo Ramos, EP

Ler também parte I: O cristão outro Cristo padecente
______________
15. Cf. S. Th., III, q. 46, a. 4, co.
16. São Tomás de Aquino. In Symbolum Apostolorum, a. 4.

 

 

 

 

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O cristão é outro Cristo padecente II

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Redação (Quarta-feira, 05-06-2019, Gaudium Press) Estaria todo o cristão chamado ao martírio? Pois bem, se todo cristão é chamado a imitar a Cristo, e considerando o martírio a forma mais perfeita de imitação, logo estariam todos cristãos destinados ao martírio?

Para responder a essa pergunta vale recordar de antemão que nem todos os santos foram mártires, mas nem por isso deixaram de seguir perfeitamente a Jesus. Por outro lado, se o martírio for considerado em sentido lato, isto é, compreendendo os sofrimentos pessoais oferecidos por Deus ou pela Igreja, não haveria nesse caso uma vocação universal para o martírio? Vejamos.

Primeiramente, cumpre considerar que, em condições análogas, o sofrimento interior é mais intenso que as dores corporais. Daí imprecar o Eclesiástico (25,13): "Qualquer ferida, menos a do coração"! Com efeito, na Paixão de Jesus, mais do que carregar a Cruz às costas "eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores que ele carregava" (Is 53,4).

As aflições de sua alma eram, portanto, muito mais lancinantes que os tormentos físicos. Ou melhor, todos eles tinham uma dimensão sobrenatural e não havia dor semelhante à sua dor (cf. Lm 1,12). Nessa perspectiva, Maria Santíssima pode ser considerada, a justo título, a primeira mártir de Cristo, ao unir-se espiritualmente a todos os seus padecimentos.

Eis que a profecia de Simeão se cumpria literalmente: a cruz de Jesus se tornava gládio na alma flagelada da Virgem (cf. Lc 2,35), realizando-se nela um verdadeiro martírio espiritual.

Nesse sentido, não existiria também uma espécie de imitatio Mariae por parte dos cristãos?

Sem dúvida, e dependendo da intenção e de sua dimensão, as dores oferecidas e elevadas por meio desse tipo de imitação podem ser até mesmo mais meritórias que o próprio martírio stricto sensu.

Eis aqui um belo aspecto da imitação de Cristo, isto é, aquele realizado por meio da imitação de Maria. De qualquer forma, Jesus não "passou fazendo o bem" (At 10,38), por oferecer uma vida regalada ou por propor a maximização de prazeres; antes, o cerne de sua mensagem incluía a renúncia e o sacrifício: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16,24).

A morte de Jesus no madeiro - sustenta São Tomás - teve, entre outras razões, uma função pedagógica, ou seja, para nos servir de modelo, pois "na Cruz - elucida o Aquinate - não falta nenhum exemplo de virtude".

Pois bem, isso significa que todo o prazer deve ser rejeitado e todo sofrimento desejado?

Na realidade, a chave de resposta se encontra na intenção. Os deleites são até necessários para o repouso da alma, desde que conformes à natureza, segundo uma reta disposição e sob a vigilância da temperança. Por outro lado, o próprio sofrimento é condição implacável de nossa natureza decaída e contingente.

Ler também primeira parte: O Cristão é outro Cristo padecente

Não é possível, portanto, parar de sofrer, como prometem alguns... Na realidade, suporta-se o sofrimento. E isso é apenas possível não fugindo da cruz, mas sim, paradoxalmente, na própria imitação de Cristo Padecente: "Ninguém dentre vós queira sofrer como assassino e ladrão, ou malfeitor ou como delator, mas, se sofre como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus por esse nome" (I Pd 4,15-16).

Todos os cristãos são chamados, de alguma forma, a este tipo de martírio, "pois vos foi concedida, em relação a Cristo, a graça não só de crerdes nele, mas também de por ele sofrerdes" (Fl 1,29). Mas... como falar de martírio em pleno século XXI? Ao contrário das aparências, a Igreja hoje é mais perseguida do que qualquer outra época histórica.

Todos os dias, milhares de cristãos são mortos, encarcerados ou torturados por ódio à sua fé.
Alguém poderia objetar: mas isto está reservado para uma minoria. Não, contudo, no que diz respeito ao martírio espiritual. Cada fiel mais cedo ou mais tarde afrontará essa tipologia de sacrifício ao longo de sua vida. Talvez não convidado, como no passado, a oferecer incenso a estátuas pagãs, mas sim a tantos ídolos pós-modernos.

Talvez não acossado por leões de verdade, mas perseguido por aqueles que rugem contra a religião. Talvez não apedrejado como Santo Estêvão, mas bombardeado de ignomínias por defender a verdade. Quando o cristão oferece esses e outros tormentos por amor a Cristo, também hoje participa de seus sofrimentos (cf. Fl 3,10, I Pd 4,13), é crucificado junto com Ele (cf. Gl 2,19) e, em suma, se sofre por causa da justiça, torna-se bem-aventurado (cf. I Pd 3,14). Em outros termos, segue e imita verdadeiramente a Cristo. Logo, é santo em sentido pleno.

A imitação de Cristo Padecente

Cumpre advertir, por fim, que não é possível compreender de modo cabal o significado dos sofrimentos. Trata-se, em última análise, de um mistério. Todavia, deve-se confiar que, apesar de tudo, o jugo divino é sempre suave e o fardo leve (cf. Mt 11,30). A razão é que Deus é o autor tanto do peso às costas quanto do seu próprio sustento (conforme o provérbio: "Deus qui ponit pondus supponit manum").

Assim, mesmo os mais intricados infortúnios de um membro do Corpo Místico de Cristo possuem um sentido transcendente, ainda que numa perspectiva escatológica. Afinal, sempre "Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam" (Rm 8,28).

Ainda nesse sentido, Jesus se serve de modelo: quando tudo parecia perdido, quando a terra se fazia trevas pela maior de todas as dores - a Crucifixão -, tudo isso na realidade comprava a maior ventura para o gênero humano, a Redenção. Daí São Tiago exortar em sua epístola: "Tende por motivo de grande alegria o serdes submetidos a múltiplas provações, pois sabeis que a vossa fé, bem provada, leva à perseverança; mas é preciso que a perseverança produza uma obra perfeita, a fim de serdes perfeitos e íntegros sem nenhuma deficiência" (Tg 1,2-4).

Fica claro, mais uma vez, que o cume da vida cristã se alcança através da expiação por Cristo Crucificado. Com os olhos fixos n'Ele - ou seja, na contemplação - todas as dores são como não fossem.

Em última análise, assim como não há vida sem luta (Jó 7,1), assim também não há autêntica vida cristã sem imitação de Cristo Padecente. Para os embates hodiernos, cumpre confiar que Jesus, prestes a entrar em sua Paixão, repete-nos ainda aquelas sublimes palavras do Evangelho: "No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!" (Jo 16,33).

Padre Felipe de Azevedo Ramos, EP

Ler também parte I: O cristão outro Cristo padecente
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15. Cf. S. Th., III, q. 46, a. 4, co.
16. São Tomás de Aquino. In Symbolum Apostolorum, a. 4.

 

 

 

 

Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no link http://gaudiumpress.org/content/103405-O-cristao-e-outro-Cristo-padecente-II. Autoriza-se a sua publicação desde que se cite a fonte.



 

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