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O Cristão é outro Cristo padecente
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28 de Maio de 2019 / 0 Comentários
 
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Da Redação - (Terça-feira, 28-05-2019, Gaudium Press) A natureza está repleta de fenômenos fascinantes. Um dos mais curiosos é, sem dúvida, o do mimetismo, cuja operação o camaleão é o exemplo mais famoso. Entretanto, algumas espécies de polvo o superam em sofisticação, pois além da coloração, imitam a forma, textura e até o odor dos recifes onde se encontram.

Esses particulares mecanismos de camuflagem animal são surpreendentes até mesmo para os biólogos. De fato, como explicar que seres irracionais consigam realizar tais "prodígios" e com tanta precisão? Pois bem, esses eventos, isentos de casualidade, são apenas compreendidos à luz da acepção de um Supremo Ordenador do mundo, que dispôs tudo "com medida, número e peso" (Sb 11,20).

Há de se pressupor, pois, que estas criaturas recebem a capacidade mimética por certa participação no agir de Deus, porque "nada pode existir sem que provenha da sabedoria divina, por uma imitação". Em suma, a criação possui elementos miméticos entre os seres, mas sobretudo reflete a Deus, pelo próprio vínculo de efeito em relação à Causa.

O homem, porém, reflete o Criador de maneira específica, pois foi plasmado à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26). Num plano diverso, sabe-se que a natureza humana tende a se ajustar às vivências, à cultura, ao clima e à sociedade que a circunda, etc. É curioso observar, por exemplo, como os bebês são naturalmente inclinados a reproduzir os gestos e as expressões dos pais e a repelir hábitos e pessoas estranhos.

Em suma, é inegável a existência de uma inata tendência à imitação conforme a doutrina da imago Dei, embora também modelada conforme o ambiente vivenciado. Famosa é a frase de São Cipriano segundo o qual todo cristão é outro Cristo (christianus alter Christus). Mas todo cristão O imita de modo particular?

O martírio como imitação da Paixão de Cristo?

É certo que o Batismo imprime na alma o próprio "selo do senhor" (Dominicus character), caráter indelével da filiação divina de todos os cristãos. Todavia, isso não implica numa inexorável predestinação. A união com o Senhor, consumada apenas na visão beatífica, é sempre aperfeiçoável nesta terra, sobretudo através do cumprimento dos mandamentos.

Ora, isso implica na necessidade de imitar e seguir a Jesus, como realização de nossa comunhão com Ele. Donde se afirmar que "o fim de uma vida virtuosa consiste em tornar-se semelhante a Deus". Nessa perspectiva, o episódio do moço rico do Evangelho sempre serviu de inspiração: "Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me" (Mt 19,21).
Ora, nesse cenário, como seguir e imitar concretamente a Cristo? Bastaria ser santo?

Sob um ângulo, a resposta é certamente afirmativa. As canonizações visam propriamente isso: oferecer modelos de vida cristã. Não obstante, convém considerar que, segundo a tradição, entre as diversas formas de santidade, o posto de maior relevo, enquanto perfeição na imitação de Cristo (imitatio Christi), foi sempre reservado aos mártires. De fato, o martírio - defende São Tomás - manifesta o mais alto grau da caridade como vínculo de perfeição (cf. Cl 3,14), situado acima mesmo da virgindade. Basta assinalar que esses heróis da fé imitam a Jesus não apenas pela vida, mas também pela morte, selando com o próprio sangue o testemunho de fidelidade a Cristo.

Trata-se, ademais, da maior prova de amor, não somente por imolar a própria vida por um amigo (cf. Jo 15, 13), mas pelo próprio Salvador. A Ele se oferece, pois, o que mais se estima naturalmente nesta vida, isto é, ela mesma, ainda que implique padecer torturas e suplícios implacáveis. Os mártires são, pois, autênticas testemunhas de Cristo, conforme indica a própria etimologia do original grego (μ?ρτυς), ou seja, aqueles que foram testados pelo testamento de seu suplício.

Cumpre ainda ressaltar que o autêntico martírio existe apenas no Cristianismo. Em que pese que muitas pessoas dedicaram suas vidas ao estudo meticuloso de grandes pensadores, nunca se ouviu dizer que alguém se oferecesse em holocausto, sem pretensões, por Platão, Aristóteles ou qualquer outro filósofo... Com efeito, somente Jesus pode ser considerado modelo arquetípico de mártir. De fato, em sua Sagrada Paixão Redentora se consumaram os maiores sofrimentos possíveis, tanto de ordem corporal quanto espiritual.

Padre Felipe de Azevedo Ramos, EP

(continua no artigo: O Cristão é outro Cristo padecente I)

_____________________

1. S. Th., I, q. 9, a. 2, ad 2 (trad. Loyola, I, p. 230).
2. CCE, n. 1274
3. São Gregório de Nissa. De Beatitudinibus, oratio 1 (PG 44, 1200) apud CCE 1803.
4. Cf. Cothenet, Edouard. Imitating Christ. St. Meinrad, Ind.: Abbey, 1974, p. 40.
5. Cf. S. Th., II-II, q. 124, a. 3, s.c.
6. Cf. S. Th., II-II, q. 124, a. 3, co.

 

 

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O Cristão é outro Cristo padecente

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Da Redação - (Terça-feira, 28-05-2019, Gaudium Press) A natureza está repleta de fenômenos fascinantes. Um dos mais curiosos é, sem dúvida, o do mimetismo, cuja operação o camaleão é o exemplo mais famoso. Entretanto, algumas espécies de polvo o superam em sofisticação, pois além da coloração, imitam a forma, textura e até o odor dos recifes onde se encontram.

Esses particulares mecanismos de camuflagem animal são surpreendentes até mesmo para os biólogos. De fato, como explicar que seres irracionais consigam realizar tais "prodígios" e com tanta precisão? Pois bem, esses eventos, isentos de casualidade, são apenas compreendidos à luz da acepção de um Supremo Ordenador do mundo, que dispôs tudo "com medida, número e peso" (Sb 11,20).

Há de se pressupor, pois, que estas criaturas recebem a capacidade mimética por certa participação no agir de Deus, porque "nada pode existir sem que provenha da sabedoria divina, por uma imitação". Em suma, a criação possui elementos miméticos entre os seres, mas sobretudo reflete a Deus, pelo próprio vínculo de efeito em relação à Causa.

O homem, porém, reflete o Criador de maneira específica, pois foi plasmado à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26). Num plano diverso, sabe-se que a natureza humana tende a se ajustar às vivências, à cultura, ao clima e à sociedade que a circunda, etc. É curioso observar, por exemplo, como os bebês são naturalmente inclinados a reproduzir os gestos e as expressões dos pais e a repelir hábitos e pessoas estranhos.

Em suma, é inegável a existência de uma inata tendência à imitação conforme a doutrina da imago Dei, embora também modelada conforme o ambiente vivenciado. Famosa é a frase de São Cipriano segundo o qual todo cristão é outro Cristo (christianus alter Christus). Mas todo cristão O imita de modo particular?

O martírio como imitação da Paixão de Cristo?

É certo que o Batismo imprime na alma o próprio "selo do senhor" (Dominicus character), caráter indelével da filiação divina de todos os cristãos. Todavia, isso não implica numa inexorável predestinação. A união com o Senhor, consumada apenas na visão beatífica, é sempre aperfeiçoável nesta terra, sobretudo através do cumprimento dos mandamentos.

Ora, isso implica na necessidade de imitar e seguir a Jesus, como realização de nossa comunhão com Ele. Donde se afirmar que "o fim de uma vida virtuosa consiste em tornar-se semelhante a Deus". Nessa perspectiva, o episódio do moço rico do Evangelho sempre serviu de inspiração: "Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me" (Mt 19,21).
Ora, nesse cenário, como seguir e imitar concretamente a Cristo? Bastaria ser santo?

Sob um ângulo, a resposta é certamente afirmativa. As canonizações visam propriamente isso: oferecer modelos de vida cristã. Não obstante, convém considerar que, segundo a tradição, entre as diversas formas de santidade, o posto de maior relevo, enquanto perfeição na imitação de Cristo (imitatio Christi), foi sempre reservado aos mártires. De fato, o martírio - defende São Tomás - manifesta o mais alto grau da caridade como vínculo de perfeição (cf. Cl 3,14), situado acima mesmo da virgindade. Basta assinalar que esses heróis da fé imitam a Jesus não apenas pela vida, mas também pela morte, selando com o próprio sangue o testemunho de fidelidade a Cristo.

Trata-se, ademais, da maior prova de amor, não somente por imolar a própria vida por um amigo (cf. Jo 15, 13), mas pelo próprio Salvador. A Ele se oferece, pois, o que mais se estima naturalmente nesta vida, isto é, ela mesma, ainda que implique padecer torturas e suplícios implacáveis. Os mártires são, pois, autênticas testemunhas de Cristo, conforme indica a própria etimologia do original grego (μ?ρτυς), ou seja, aqueles que foram testados pelo testamento de seu suplício.

Cumpre ainda ressaltar que o autêntico martírio existe apenas no Cristianismo. Em que pese que muitas pessoas dedicaram suas vidas ao estudo meticuloso de grandes pensadores, nunca se ouviu dizer que alguém se oferecesse em holocausto, sem pretensões, por Platão, Aristóteles ou qualquer outro filósofo... Com efeito, somente Jesus pode ser considerado modelo arquetípico de mártir. De fato, em sua Sagrada Paixão Redentora se consumaram os maiores sofrimentos possíveis, tanto de ordem corporal quanto espiritual.

Padre Felipe de Azevedo Ramos, EP

(continua no artigo: O Cristão é outro Cristo padecente I)

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1. S. Th., I, q. 9, a. 2, ad 2 (trad. Loyola, I, p. 230).
2. CCE, n. 1274
3. São Gregório de Nissa. De Beatitudinibus, oratio 1 (PG 44, 1200) apud CCE 1803.
4. Cf. Cothenet, Edouard. Imitating Christ. St. Meinrad, Ind.: Abbey, 1974, p. 40.
5. Cf. S. Th., II-II, q. 124, a. 3, s.c.
6. Cf. S. Th., II-II, q. 124, a. 3, co.

 

 

Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no link http://gaudiumpress.org/content/103236-O-Cristao-e-outro-Cristo-padecente. Autoriza-se a sua publicação desde que se cite a fonte.



 

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